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Pura Connection · Alex Alves

Alex Alves, o Bulldog do jiu-jitsu, conta como venceu um câncer terminal

Faixa-preta que começou com um quimono de pano de chão, ele passou pela Europa, pelo MMA e por um mosteiro antes de abrir a Tiger Muay Thai em Bali.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 mai 2026 (1:10:09).

Alex Alves foi fazer um exame por causa de uma dor na costela depois de um treino e saiu de lá com a notícia de um cisto no peito. Anos depois, já morando na Europa e com alunos campeões no maior evento de MMA do continente, descobriu que era câncer em estágio 4. Segundo ele, o dono da academia onde trabalhava o mandou embora sem pagar salário nem apartamento.

O André Bintang foi até Bali gravar com ele, na Tiger Muay Thai que o Alex abriu em Uluwatu. Assisti à conversa e o que me pegou foi a mistura: a história de um garoto pobre do sul de Minas que se apaixonou pelo jiu-jitsu nos anos 1990, a doença, a fé e as academias da Rússia, onde ele diz ter aberto as portas na base do treino.

“A vida nunca vai te dar algo que você realmente quer sem te tirar algo.”

Alex Alves, no Pura Connection · 0:31:25

Um quimono de pano de chão

O Alex nasceu em São Paulo e foi para o interior do sul de Minas porque um irmão tinha asma. Ele conta que era um moleque magro e fraco, que o avô o colocou no karatê aos 12 anos e que não se identificou. Foi um amigo, campeão brasileiro de jiu-jitsu, quem o levou para o primeiro treino. Foi amor à primeira vista. Ele começou em 1994 com o mestre Jorge Pena Barbosa.

O jiu-jitsu, na época, era coisa de elite. O Alex trabalhava de servente de pedreiro de manhã e treinava à tarde e à noite, com café preto e pão com manteiga no estômago. Segundo ele, a mensalidade era 35 reais e o salário, 80. Não sobrava para o quimono. A mãe teve a ideia de costurar um com pano de chão, e ele rasgou na primeira pegada. Um colega viu a cena e deu a ele um quimono velho da Krugans.

Foi ali que ganhou o apelido que carrega até hoje. Como vinha da construção e da periferia, lutava muito agressivo, e os colegas começaram a chamá-lo de Bulldog. O mestre Jorge proibiu apelido no tatame, mas não adiantou. Hoje o Alex tem o bulldog tatuado e conta que, na academia, quase ninguém o chama pelo nome. Ele lembra também que a turma se reunia para assistir aos primeiros UFCs em fita VHS.

“Não chama ele de Bulldog, aqui não pode apelido.”

Jorge Pena Barbosa, no Pura Connection · 0:29:18

O câncer e a despedida do mestre

O Alex não ficou só no jiu-jitsu. Por volta de 2005, passou a trabalhar com boxe, muay thai e MMA, e depois foi para a Alemanha ajudar a abrir uma academia com um croata. Quando veio o diagnóstico, voltou ao Brasil sem dinheiro. Passou cerca de um ano entre o hospital da Unicamp e o porão da casa de um amigo, um monge budista chamado Plínio, que não cobrou nada.

Ele conta que sobreviveu graças a uma vaquinha puxada por poucos amigos do jiu-jitsu, entre eles Eduardo Santoro, da Companhia Paulista, e Genival Ivo Barbosa, que dava aula para policiais da Rota em São Paulo. E diz que a maioria das pessoas que ele formou virou as costas. Isso foi em 2017, e mudou o jeito como ele olha para o jiu-jitsu.

A parte mais forte da entrevista é a do mestre Jorge. Segundo o Alex, o professor tinha prometido um seminário para ajudá-lo quando melhorasse. Com 56 quilos, só osso, ele sonhou uma noite que o mestre o abraçava, dava dois beijos no rosto e o chamava para treinar. De manhã, o telefone tinha 50 chamadas: o mestre Jorge tinha morrido naquela noite.

O tumor, segundo ele, tinha 8 ou 9 centímetros e ficava ao lado do coração, o que explicava a falta de ar nos treinos. Ele conta que a mãe, evangélica, rezou e ouviu que o filho seria curado. Cerca de um mês e meio depois, a médica da Unicamp disse que o câncer tinha desaparecido e que nunca tinha visto um caso assim. O Alex, que também viveu num mosteiro budista entre a Índia e o Nepal em 2011, atribui a cura a Deus.

O desafio nas academias da Rússia

Depois da cura, veio a família. O Alex se casou com uma russa, bicampeã mundial de karatê, e o filho que ele achava que não podia ter nasceu. Quando a mulher engravidou, na pandemia, os dois foram para a Rússia, e ali ele conta que ninguém abria a porta. Ele é faixa-preta quinto grau, a mulher tinha contatos, e mesmo assim as academias não respondiam.

A saída foi o que ele chama de estilo old school, como fazia Hélio Gracie. O Alex aparecia na aula, sentava no chão e pedia para treinar com quem o professor escolhesse. Segundo ele, colocavam primeiro um faixa-azul, depois dois faixas-marrons enormes que vinham do sambo, para cansá-lo. Com 76 quilos e 42 anos, ele diz que venceu todos, de quimono e sem quimono, e foi assim que começaram os seminários e a equipe dele por lá. Hoje ele tem faixas-pretas na Rússia.

“Eu tinha uma razão para lutar. Meu filho estava para nascer.”

Alex Alves, no Pura Connection · 0:55:30

Ele faz um alerta sobre os russos: diz ter visto crianças de 8 anos com nível de faixa-marrom e acha que a sorte do resto do mundo é que eles ainda não têm dinheiro para rodar os campeonatos.

Por que ele parou de treinar jiu-jitsu

Hoje o Alex dá aula só de muay thai. Ele conta que tentou colocar jiu-jitsu, wrestling e boxe na academia de Bali, mas a energia ficou misturada, e tirou o tatame para montar o que chama de primeiro estádio de muay thai da Indonésia. Em quase três anos, diz ele, mais de 11 mil pessoas do mundo passaram por lá.

Ele não treina jiu-jitsu há cinco anos e explica o motivo: a falta de lealdade. Segundo o Alex, o aluno pega a faixa com um professor e pula de academia em academia. Ele acha que dá para treinar com várias pessoas, mas que é preciso ter um mestre, alguém que te conhece há anos. E lembra que, no tempo dele, o professor puxava a orelha e suspendia por um mês quem falasse palavrão.

Mesmo parado, ele ainda ensina. O André treinou com ele em Bali e contou que saiu todo dolorido, com o grappling de MMA e o wrestling que o Alex juntou rodando 37 países. Para mim, é o que fica da conversa: o garoto do quimono de pano de chão ainda leva o jiu-jitsu no corpo, mesmo depois de tudo o que passou.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.