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História

História do jiu-jitsu brasileiro: de Maeda ao no-gi, contada por quem viveu

Da chegada de Maeda ao Pará até o ADCC e o sem kimono de hoje, época por época, com a palavra de quem estava lá e as versões que não batem.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 20 min de leitura

Eu sou faixa-preta e passei anos ouvindo a história do jiu-jitsu contada do jeito de sempre: um japonês ensinou um Gracie, o Gracie ensinou o irmão, e o resto é UFC. Quando comecei a ler as entrevistas deste site uma atrás da outra, vi que a história real é bem mais cheia de gente, de brigas e de versões que não fecham. Tem pesquisador dizendo que o professor de Carlos Gracie foi outro, tem aluno do Hélio jurando que o criador foi ele, tem data de academia que muda seis anos conforme quem conta.

Aqui eu juntei tudo por época. Cada afirmação tem dono, e quando duas pessoas contam diferente eu mostro as duas. Para ver só as datas, tem a linha do tempo. Para entender quem formou quem, a linhagem.

Maeda, Jacyntho Ferro e o professor de Carlos

Tudo começa no Japão. Segundo o Oswaldo Simões, judoca olímpico, Jigoro Kano criou o judô e o Kodokan em 1882 juntando técnicas de dois estilos de jujutsu. O Pedro Valente, que pesquisa o assunto há anos, conta que Tsunejiro Tomita, o primeiro faixa-preta de Kano, levou Mitsuyo Maeda para o Ocidente em 1904. Pelas contas do Pedro, Maeda se separou de Tomita, passou a usar o nome jiu-jitsu, deu aula na Inglaterra e acabou abrindo no Brasil uma academia com esse nome.

Mitsuyo Maeda em foto de kimono por volta de 1910
Mitsuyo Maeda (Conde Koma), por volta de 1910. O mestre formado no Kodokan levou o judô e o jujutsu ao redor do mundo antes de fixar residência em Belém do Pará. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

Até aí quase todo mundo concorda. A briga começa na pergunta que mais aparece no Google: Maeda ensinou os Gracie?

Versão do Pedro Valente: Carlos Gracie contou dos anos 1920 até morrer que foi aluno de Maeda, e nem o rival Takeo Yano, que tomou o emprego dos Gracie na Marinha, contestou. Yano chamava Carlos de discípulo de Maeda. O Pedro também achou num jornal de Belém uma apresentação com Maeda presente em que Carlos e Donato Pires dos Reis aparecem como alunos de Jacyntho Ferro, o principal aluno de Maeda.

Versão do Robert Drysdale, que escreveu livro sobre isso: não há evidência de que Carlos teve aula com Maeda. O professor documentado de Carlos é Jacyntho Ferro, e isso está nos jornais da época. O único testemunho quase convincente de fora da família é o do Yano, de 1979, mas o Robert lembra que Yano só chegou ao Brasil em 1934, então não teria como ter visto o que aconteceu entre 1916 e 1921. Para ele, Maeda formou cinco alunos no Brasil e nenhum era Gracie. Ele explica tudo nesta entrevista.

E tem uma terceira, mais de história de família. O Oswaldo Simões contou o que ouviu do Robson Gracie: Gastão Gracie ficou no Amazonas depois que o navio dele para os Estados Unidos quebrou, montou um circo e contratou Maeda para ensinar Carlos. O Rickson resume do jeito dele: a eficiência chegou com Maeda, e a família misturou isso com a personalidade competitiva brasileira.

Mesmo o Drysdale, que tira Maeda do centro, diz que começa a história do jiu-jitsu brasileiro por Carlos Gracie, e que Jacyntho e Maeda vieram antes, mas não são mais importantes que ele. A discussão inteira está na página quem criou o jiu-jitsu brasileiro e na que compara jiu-jitsu e judô.

Carlos, Hélio e a primeira Academia Gracie

Segundo o Pedro Valente, Carlos deu aula em Belo Horizonte em 1928, abriu academia em São Paulo em 1929 e em 1930 abriu com Donato Pires dos Reis a academia da Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. Foi ali que o Hélio voltou a treinar e, em um ano, já fazia demonstração. O Robert Drysdale discorda da data: para ele a academia Gracie surgiu em dezembro de 1931, e o ano de 1925 que muita gente repete está errado. A história da casa está na página da Academia Gracie.

Hélio Gracie de kimono em 1932
Hélio Gracie em 1932, na época da abertura da academia da Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. (Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã)

Tem um detalhe que eu não sabia. O Drysdale citou palavras do próprio Hélio: ele nunca tinha ouvido falar em jiu-jitsu antes da luta do irmão Carlos com Geo Omori, em 1929. E a Reila Gracie achou uma matéria de 1935 em que Carlos conta ter prescrito uma dieta para o Hélio, preparando o irmão numa fazenda para uma luta. É por isso que tanta gente da família insiste que um não existe sem o outro.

“O Hélio não foi o Hélio sem o Carlos.”

Jean Jacques Machado, no Pura Connection · 0:23:09 · ler o artigo

A dieta, aliás, vem de longe. Segundo o Rorion Gracie, Carlos criou a dieta Gracie a partir dos anos 1920, estudando sozinho a relação entre saúde e desempenho. O Pedro Valente acha que a inspiração veio de um livro do próprio Maeda, escrito por volta de 1908, com preceitos de alimentação parecidos.

Quando a academia se firmou no centro do Rio, na Avenida Rio Branco, virou uma máquina de defesa pessoal. O Álvaro Barreto conta que eram 700 alunos de aula individual, com um curso de 36 aulas de meia hora, sem aquecimento. O Royler lembra que a academia entregava kimono limpo, toalha, sabonete e sandália, e que os kimonos eram lavados em máquina industrial num sítio em Teresópolis. O Flávio Behring, que viveu os anos 1950 lá dentro, diz que cada aluno era corrigido conforme a necessidade dele.

Carlos Gracie em retrato de 1951
Carlos Gracie em 1951. O patriarca que estruturou a dieta, os desafios e a divulgação da família. (Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã)

Os desafios e o vale-tudo

O jiu-jitsu cresceu brigando. O Jorge Gracie, segundo o Drysdale, venceu Tico Soledade em 1933 na primeira luta de vale-tudo da história moderna. O Pedro Valente conta que, contra Fred Ebert, em 1932, o Hélio evitou o chão e usou tanta cotovelada que ficou com os cotovelos roxos, e que a luta ganhou uma página inteira do Globo. Contra Dudu, em 1935, o Hélio quebrou o nariz e venceu em pé depois de 18 minutos.

Entre os primeiros adversários estavam os capoeiristas. A Reila conta que houve um campeonato de jiu-jitsu contra capoeiristas em 1931. O Mestre Camisa, que conheceu o Hélio, vê isso como troca de mão dupla, e o assunto tem página própria: jiu-jitsu x capoeira.

“O primeiro vale-tudo foi com a capoeira. Muita gente aprendeu muita coisa com a capoeira.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 0:59:03 · ler o artigo

Aí vêm as duas lutas que todo mundo cita. A primeira é Hélio Gracie x Kimura, em 1951, no Maracanã, segundo o Pedro Valente, cujo pai assistiu da arquibancada ainda menino. O Rorion diz que o Hélio desafiou Kimura sabendo que não tinha condição de vencer, porque queria descobrir o que o campeão do mundo sabia que ele não sabia. O Francisco Mansur conta que Kimura prometeu considerar o Hélio campeão se ele aguentasse três minutos, que o Hélio aguentou muito mais, que Carlos jogou a toalha e que o Hélio disse a ele que não ia bater. O Drysdale repara num detalhe técnico: contra Kimura, o Hélio trocou em pé em vez de puxar para a guarda.

A segunda é Hélio Gracie x Waldemar Santana, e aqui as versões brigam em quase tudo. Waldemar tinha sido funcionário e sparring da academia. O Álvaro Barreto diz que ele foi expulso por fazer uma luta por fora, possivelmente contra o Biriba. O Crézio Chaves diz que ele saiu porque um apresentador de TV prometeu montar uma academia para ele. Sobre a luta, o Relson Gracie fala em 1951, Hélio com 41 anos, Waldemar com 24, e 3 horas e 45 minutos. O Álvaro fala em 3 horas e 40, com Waldemar de 21 ou 22 anos. No peso, o Relson dá cerca de 85 quilos para Waldemar contra uns 50 do Hélio, e o Pedro Valente corrige: Waldemar tinha uns 77 quilos, não chegava a 80. O Crézio, que estava no Maracanãzinho, conta que o Hélio cansou de bater montado e que Waldemar o derrubou com chutes na cabeça.

Waldemar Santana nos anos 1950
Waldemar Santana nos anos 1950. Ex-aluno e sparring da Academia Gracie, venceu Hélio em luta de quase quatro horas e rivalizou com Carlson Gracie. (Arquivo Nacional)

“O Hélio não viu aquilo como uma luta, viu como um acidente de percurso.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:37:04 · ler o artigo

Depois disso, conta o Carlson Gracie Júnior, Carlos tocou no ombro do filho e mandou que ele desafiasse Waldemar. Foi a estreia de Carlson Gracie. Quantas vezes os dois lutaram depende de quem conta: o Relson diz três, com uma vitória e dois empates; o Júnior fala em seis ou sete, e que continuaram amigos. O Drysdale acha a luta de 1956 tecnicamente mais sofisticada que o UFC de 1993. Está tudo em Carlson Gracie x Waldemar Santana.

Nessa fase ainda passava vale-tudo na televisão. O Relson lembra que, entre 1954 e 1961, havia programa toda segunda-feira na TV Continental, com os lutadores caindo sobre uma lona, sem tatame. E o Drysdale lembra que Carlos e Hélio passaram cerca de 40 anos na obscuridade, da luta com Kimura até o Royce, acreditando que ia dar certo. Para ele, essa resistência foi a maior contribuição dos dois.

Carlson e a academia da Figueiredo Magalhães

A última grande luta de Carlson foi contra Ivan Gomes. O Relson conta que terminou empatada e que, em vez de revanche, Ivan veio para o Rio e abriu com Carlson uma academia na Rua Toneleros, a primeira de Carlson. O Júnior acha, sem certeza, que foi em 1966. A luta tem página: Carlson Gracie x Ivan Gomes.

A virada veio em Copacabana. Segundo o Vinicinho Cruz, Carlson abriu a academia da Figueiredo Magalhães em 1972 com a ideia de formar um exército de competidores, baixando a mensalidade e dando bolsa. O Drysdale chama isso de transformação radical: o centro do jiu-jitsu saiu da Rio Branco, de aula particular, e foi para uma academia de aula em grupo, público popular e treino competitivo. Ele tentou visitar o prédio da Figueiredo Magalhães, 414, porque acha que ali nasceu o jiu-jitsu que conquistou o mundo.

Carlson Gracie com seu filho Carlson Gracie Júnior
Carlson Gracie com o filho Carlson Júnior. Em Copacabana, Carlson formou uma legião de campeões e abriu o jiu-jitsu para o treino em grupo e de alta intensidade. (Wikimedia Commons)

“O jiu-jitsu que nós praticamos é o jiu-jitsu do Carlson.”

Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:44:24 · ler o artigo

Nem todo mundo vê assim. O Mansur, aluno do Hélio desde menino, fez à mão os diplomas dos faixas-pretas que o Hélio formou e tem posição firme sobre a autoria. Na outra ponta, o Drysdale diz que é falso que o Hélio inventou a guarda e que o papel central dele foi manter o grupo unido entre 1951 e 1993. A história da academia de Carlson está em Carlson Gracie Team e a lista dos alunos em alunos de Carlson Gracie.

“A verdade é que quem criou o jiu-jitsu brasileiro foi o Hélio Gracie, e eu sou testemunha disso.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:35:58 · ler o artigo

Rolls, os surfistas e os anos 70 e 80

No mesmo prédio da Figueiredo Magalhães dava aula Rolls Gracie. O Márcio Stambowsky conta que os dois dividiam uma academia de dois andares: segunda, quarta e sexta o Rolls ficava na sala grande de cima e o Carlson nas pequenas de baixo, e terça e quinta invertia. A rivalidade entre os alunos era enorme. O Drysdale acha que foi justamente essa rivalidade que fez o jiu-jitsu superar o judô kosen em técnica, e que o Rolls copiou o modelo competitivo do Carlson. O Júnior vai além e diz que o Rolls só chegou ao alto nível depois de treinar com o pai dele.

O Rolls era filho biológico de Carlos, criado pelo Hélio desde os quatro meses, segundo o Pedro Valente. Treinava judô, sambo e wrestling, filmava os treinos com uma das primeiras câmeras e assistia no dia seguinte com os alunos, contou o Álvaro Romano. Foi pelo Rolls que o jiu-jitsu encontrou o surfe: o Álvaro o conheceu no Peru em 1975, numa temporada em Punta Hermosa, e depois levou a turma do Arpoador para a academia. O Sérgio Malibu era dessa turma. O assunto rendeu página: como os surfistas chegaram ao jiu-jitsu.

“Ninguém foi melhor no jiu-jitsu do planeta do que o Rolls, depois do Hélio.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:23:43 · ler o artigo

Nessa época as regras mudaram. O Pedro Valente conta que até os anos 1960 Carlos e Hélio rejeitavam pontos: luta só acabava por desistência ou perda dos sentidos. O Mansur diz que a federação começou em 1963 e que ele testou as regras na academia com o Hélio. O Pinduca dá outra data: federação criada pelo Hélio em 1967, com o primeiro campeonato oficial só em 1973. E o Drysdale mostra como a pontuação virou de cabeça para baixo: no torneio interno de 1954 ainda valiam ippon, waza-ari e imobilização; em 1975 montada e costas passaram a valer quatro pontos, mais que a queda, e a imobilização virou punição. Quem quiser o detalhe vai em quem criou as regras de pontos.

O Rickson aparece aqui. A luta dele com o Rei Zulu é a que mais divide testemunhas, e tem página própria: Rickson Gracie x Rei Zulu. O Marcelo Alonso e o Pedro Sauer falam em Rickson com 18 anos; o Carlos Gama, em 19. O Alonso e o Sergio Zveiter põem a primeira luta em Brasília; o Sauer lembra do Maracanãzinho, e o Mansur diz que apitou as duas lutas. No intervalo, o Rickson achou que ia desistir. Quem o fez voltar? O próprio Rickson diz que foi o pai, com um irmão jogando um balde de gelo na cabeça dele. O Zveiter diz que foi o Rolls, que sacudiu o irmão e o empurrou de volta.

Rickson Gracie finalizando Rei Zulu em combate de vale-tudo em 1980
Rickson Gracie finaliza Rei Zulu em 1980. O confronto histórico no vale-tudo consolidou a reputação de invencibilidade de Rickson ainda jovem. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

O Rolls morreu em 1982, segundo o Leão Teixeira, num acidente de asa-delta, como contou o Sérgio Bolão. O Relson diz que a morte dele mudou muito o jiu-jitsu, com cada um abrindo a própria escola. A maioria dos alunos foi treinar com o Rickson, conta o Pedro Sauer, e Carlos Gracie Júnior, o Carlinhos, ficou com uma parte, entre eles os irmãos Machado.

A luta livre e o desafio que foi para a Globo

Nos anos 1980 o inimigo passou a ser a luta livre. O primeiro grande desafio no Maracanãzinho tem até a data em disputa: o Pinduca e o Marco Ruas falam em 1984; o Eduardo Gavião, aluno do Pinduca, fala em 1986. O placar mais repetido é o do Zveiter: Eugênio Tadeu venceu Renan Pitanguy, Pinduca empatou com Marco Ruas e Marcelo Behring venceu Flávio Molina. A luta do Pinduca está em Pinduca x Marco Ruas.

Por que nenhum Gracie lutou? Três versões. O Pinduca diz que o Hélio decidiu que ninguém da família lutaria, só os alunos. O Gavião diz que o Rickson recusou o Ruas por não conhecê-lo. O Relson diz que ele, o Rickson e outros queriam lutar e foram tirados, e que ele estava pronto para pegar o Ruas.

O desafio que mudou o jogo foi o de 1991. O Drysdale conta que o vale-tudo passou na Rede Globo naquele ano, dois anos antes do UFC. O Murilo Bustamante diz que não havia dinheiro nenhum envolvido e que por muito tempo tentaram fazer dentro de academia, até um empresário organizar e a TV entrar. Na entrevista do Marinho Filho, o apresentador lembrou que a Globo quis cortar a transmissão no meio porque ninguém entendia o que estava acontecendo. O Fábio Gurgel, rival da academia de Carlson a vida toda, foi treinado pelo Carlson durante seis meses para aquela noite. E o Bebeo Duarte conta a consequência que mais me interessa: depois daquele vale-tudo, a turma do Carlson nunca mais parou de treinar sem kimono. A rivalidade inteira está em jiu-jitsu x luta livre.

Renzo Gracie e Eugênio Tadeu em combate emblemático
A rivalidade histórica entre o Jiu-Jitsu e a Luta Livre: Renzo Gracie e Eugênio Tadeu em combate, com Hugo Duarte e outros mestres na arquibancada. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

As equipes e a era da competição

Com o Rolls morto e o Carlinhos indo para a Barra da Tijuca, o Carlson juntou os alunos e montou um time de competição. O Sérgio Bolão diz que de 1982 a 1995 a academia não perdeu nenhum campeonato e ganhou o apelido de Barcelona do jiu-jitsu. O Fábio Gurgel conta de outro jeito: a família chegou a ter três academias fazendo seletiva, a Gracie central, a do Rolls e a do Carlson, e 1985 foi o último campeonato vencido pela academia Gracie. Depois disso, cerca de 15 anos de hegemonia do Carlson. O Vinicinho Cruz lembra que as outras equipes se organizaram só para vencê-la.

Na Barra, a equipe nasceu com o nome Barra Gracie. O Jean Jacques Machado conta que começou numa casinha e depois foi para o Espaço Vital, onde chegou a ter 100 alunos numa sala para 10. O Hélio Soneca explica o nome: já existia a Gracie Humaitá. Ele também resume o que a geração dele sentia em relação à do Hélio. A história completa está em Gracie Barra e em Gracie Humaitá.

“A geração do seu Hélio veio com facão e abriu a rua. A minha geração botou asfalto para essa galera agora se dar bem.”

Hélio Soneca, no Pura Connection · 0:08:32 · ler o artigo

Para enfrentar o Carlson nasceu a Alliance. Até aqui as datas não batem: o Muzio De Angelis diz que foi no fim de 1993, da união da Strike com a Master de Fábio Gurgel e Jacaré e com o Léo Castelo Branco; o Léo Castelo Branco diz que foi no fim de 1994, com sete fundadores, e que ele foi o primeiro presidente. A Nova União surgiu em 1995, segundo o Rafael Carino, da junção das equipes de Dedé Pederneiras e Wendell Alexander. E em 2000, segundo o Bebeo Duarte, o Carlson expulsou toda aquela geração e ela montou a Brazilian Top Team.

A CBJJ e o primeiro Mundial

Faltava organização. Segundo o Márcio Feitosa, o Carlinhos fundou a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu em 1993, dentro de casa: os atletas se pesavam lá na véspera e as chaves de papel ficavam na parede. O Drysdale situa a organização da confederação em 1994, e o Draculino, que se diz membro fundador, fala em 1993 ou 1994. O Marcelo Alonso conta que o Carlinhos reuniu a família, que estava brigada, e avisou que os estrangeiros iam ficar com o jiu-jitsu.

“O Carlson e o Rolls criam a receita do bolo. Mas quem cria o forno pro bolo crescer? Carlos Gracie Júnior.”

Robert Drysdale, no Pura Connection · 1:28:09 · ler o artigo

O primeiro Mundial foi em 1996, no Rio. O Léo Castelo Branco perdeu a final para o Libório por uma queda, com o Renzo Gracie de árbitro. O Leão Teixeira conta que o Carlson estava contra a organização e havia ameaça de boicote, e que ele pediu carta branca ao Carlinhos para convidar o Carlson para a diretoria. O Pé de Pano lembra que, naquele Mundial, o Carlinhos previu campeonatos em todos os continentes no mesmo dia. Nem todo mundo embarcou: a Nova União pediu prêmio em dinheiro para os faixas-pretas, levou um não e ficou anos fora. O passo a passo está em como a CBJJ e o Mundial foram criados.

O UFC, o Japão e o ADCC

Enquanto o Rio brigava por federação, o Rorion estava nos Estados Unidos desde 1978. Ele montou fitas com os desafios vindos do Brasil e vendeu em revista de artes marciais. Em 1993 fez o UFC. Segundo ele, o dinheiro saiu de uma reunião com alunos na academia, não havia matchmaker e os confrontos eram sorteados num chapéu. O João Alberto Barreto foi o árbitro.

A escolha do lutador tem duas explicações que se completam. O Rorion diz que botou o Royce e não o Rickson porque uma vitória do Rickson não surpreenderia ninguém, e um lutador magro mostraria a eficiência do jiu-jitsu. O Royce conta que foi escolhido porque o Hélio confiava nele: se o pai mandasse não bater, ele não batia. A noite em Denver está em UFC 1: Royce Gracie, e a pergunta em por que Royce e não Rickson.

Royce Gracie com o kimono tradicional
Royce Gracie, escolhido por Hélio e Rorion para representar a família no UFC 1 em 1993, provando a eficiência do jiu-jitsu ao vencer adversários de todas as artes marciais. (Wikimedia Commons)

“O Rickson é um tanque de guerra. Se o Rickson vai lá e ganha, ninguém vai discutir.”

Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:28:17 · ler o artigo

O Japão veio logo depois. O Marcelo Alonso conta que o Rickson venceu duas edições do Vale Tudo Japan, a segunda em 1995, e virou rei por lá; que em 1996 foi a primeira grande delegação brasileira, com Carlson, João Alberto, Carlão Barreto e Hugo Duarte; e que o Yuki Nakai, depois de perder para o Rickson, veio ao Brasil aprender. Aí apareceu o Sakuraba. O Royler conta que lutou com ele pesando 65 quilos, com contrato de dois rounds de 15 minutos em que o japonês só venceria por nocaute ou finalização, e que o juiz parou a luta numa kimura nos segundos finais. Ele diz que não bateu. Veja Royler Gracie x Sakuraba e como o jiu-jitsu chegou ao Japão.

O ADCC tem origem numa história que o Alonso conta com gosto: em 1994, um árabe que tinha visto o UFC chegou ao Rio para treinar com o Nelsinho Monteiro, faixa-preta do Carlinhos, sem dizer quem era. No último dia contou que era príncipe e levou o Nelsinho para ensinar em Abu Dhabi. Mais em como nasceu o ADCC. Os lutadores que foram para o vale-tudo e o MMA estão em jiu-jitsu no UFC e no Pride.

A expansão pelo mundo

O caminho para fora foi duro. O Relson chegou a São Francisco em 1985 e ficou três anos sem conseguir ensinar, porque ninguém conhecia a técnica. Depois, no Havaí, tinha 80 alunos na universidade quando o Royce lutou o primeiro UFC e chegou a 700 inscritos depois da quinta luta do irmão. O Pedro Sauer largou a Bolsa do Rio em 1990, sem falar inglês, e morou seis meses com o Hélio na garagem do Rickson. O Júnior foi para Chicago no fim de 1996 e chegou a 200 alunos em quatro meses.

O Alonso fez em 1996 uma matéria sobre o jiu-jitsu na Califórnia, que tinha umas oito academias. Anos depois, contou mais letreiros da Gracie Barra do que de McDonald's na rodovia 405, em Los Angeles. O Feitosa foi montar o quartel-general da Gracie Barra nos Estados Unidos no começo de 2005, num galpão de uns mil pés quadrados. E o Mundial também atravessou: o Celsinho Venícius chama o de 2007 de primeiro Mundial nos Estados Unidos, enquanto o Magid Hage lembra de virar placar no primeiro Mundial na Califórnia em 2006. O resto dessa história está em como o jiu-jitsu chegou aos Estados Unidos.

O no-gi de hoje

A história fecha, por enquanto, sem kimono. O Jonathas Gracie tem uma teoria que muita gente no Brasil repete baixinho: o no-gi foi o jeito que os americanos acharam para igualar e depois passar o nível dos brasileiros, que dominavam os mundiais.

“Eles experimentaram o no-gi para igualar o nível. E passou, o americano passou.”

Jonathas Gracie, no Pura Connection · 1:07:23 · ler o artigo

O Viktor Doria, empresário de atleta, acompanha isso de perto. Ele conta que o Gordon Ryan perdeu a final do absoluto do ADCC de 2017 para o Felipe Preguiça, venceu peso e absoluto em 2019 e, em 2022, pediu para lutar também a categoria acima de 99 quilos além da superluta e venceu as duas, algo inédito. O Craig Jones ficou conhecido em 2017, em Helsinque, finalizando Leandro Lo na estreia. Do lado brasileiro, o Diogo Reis foi campeão até 66 quilos em 2022, na leva de atletas do Melqui Galvão, pai do Mica.

Pódio de campeões no ADCC
Pódio do ADCC, o maior torneio de luta agarrada do planeta, que consolidou a era do grappling sem kimono e a profissionalização global do esporte. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

O heel hook, que o Pinduca lembra ser vaiado nos anos 1970, voltou ao centro. O Ítalo Vilardo conta que o título absoluto do Rodrigo Comprido com chave de pé, por volta de 1999, fez a técnica voltar a ser usada, até a confederação proibi-la nas faixas mais baixas. Hoje tem equipe brasileira nascida para o sem kimono: segundo o Lipe Machado, a Pirâmide decidiu treinar só sem kimono depois da seletiva do ADCC de 2022, apesar de ouvir que no Brasil jiu-jitsu é de kimono. O Marco Aurellio, da mesma equipe, diz que o Brasil travou justamente por ter largado o ataque ao pé. As discussões seguem em por que os americanos dominam o no-gi e o heel hook deve ser liberado?

O que eu tirei de tudo isso

Lendo as entrevistas em sequência, o que mais me marcou foi ver que quase nenhum marco tem uma versão só. A academia é de 1930 ou de 1931. A Alliance é de 1993 ou de 1994. O desafio do Maracanãzinho é de 1984 ou de 1986. O professor de Carlos foi Maeda ou Jacyntho Ferro. Quem salvou o Rickson contra o Zulu foi o Hélio ou o Rolls. E cada pessoa conta com a certeza de quem estava perto.

O que ninguém discute é a linha que liga tudo: gente que acreditou numa luta desconhecida por décadas, uma academia que virou fábrica de competidor, uma confederação montada dentro de casa e um evento nos Estados Unidos que mostrou para o mundo o que o Rio já sabia. Quem quiser os nomes, a família Gracie e os faixas-vermelhas e corais estão em listas próprias. O resto está nas entrevistas, com o minuto de cada fala logo abaixo.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.