Connect Cast · Rorion Gracie
Rorion Gracie revela por que pôs Royce, e não Rickson, no primeiro UFC
O criador do UFC contou como saiu de uma garagem na Califórnia para o octógono, por que vendeu o evento e o que o pai, Hélio, ensinou sobre dar aula.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 13 out 2022 (1:00:03).
Quem nunca se perguntou por que o primeiro UFC teve o Royce no octógono, e não o Rickson? Assisti à conversa do Rorion Gracie no podcast Connect Cast e ele respondeu isso sem rodeio. Para o Rorion, a escolha foi pensada para vender a arte, e o irmão mais famoso atrapalharia o recado.
“O Rickson é um tanque de guerra. Se o Rickson vai lá e ganha, ninguém vai discutir.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:28:17
O raciocínio, segundo ele, era simples. Se um cara forte e já temido ganhasse, ninguém ia dar o crédito ao jiu-jitsu. Pegando um lutador magrinho, pequeno, qualquer pessoa em casa ia pensar: se ele consegue, eu também consigo. O Rorion contou que o Royce ganhou três lutas na mesma noite sem dar um soco, finalizando uns e montando em outros, dominando todo mundo devagar. Só que, para o exemplo que ele queria mostrar, o Royce era o nome certo.
Da calçada do Havaí à garagem na Califórnia
O caminho até o UFC começou bem antes, e de um jeito torto. O Rorion contou que, aos 17 anos, juntou um dinheirinho e foi passar um mês de férias nos Estados Unidos. Ficou na ACM, deixou o dinheiro e a passagem com o recepcionista, e uma semana depois descobriu que tinha sido roubado. A companhia aérea disse que levaria seis meses para emitir outra passagem. Ele ligou para o pai, disse que estava adorando a América e ficou.
Trabalhou em restaurante e, numa ida ao Havaí, ficou sem nada. Segundo ele, dormiu alguns dias em cima de jornal na calçada até o patrão de uma obra pagar o salário. Voltou aos Estados Unidos em 1972 para visitar amigos, depois se formou em direito no Brasil, mas nunca advogou. Achou que ajudaria mais gente como professor de jiu-jitsu.
Em 1978 ele se mudou de vez para a Califórnia. Contou que fez faxina em casas de gente do cinema, virou figurante (era quem colocava o colar de flores nos convidados em Ilha da Fantasia, sempre de costas para a câmera) e acabou chamado para ensinar jiu-jitsu ao Mel Gibson em Máquina Mortífera. O convite veio porque um assistente de produção tinha visto o Rorion finalizar um campeão de karatê em um minuto e meio. Depois voltou para dar aula à Rene Russo no terceiro filme da série.
Enquanto isso, montou tatames na garagem de casa. A primeira aula era de graça, e quem trazia um amigo ganhava outra. Segundo o Rorion, chegou a dar 630 aulas por mês ali, com 87 pessoas na lista de espera. Logo os professores de outras lutas, chateados por perder alunos, vinham desafiá-lo. Ele conta que foram uns dez anos e centenas de desafios na garagem, quase sempre resolvidos no abraço, com o adversário no chão e sem ninguém machucado. Muitos viravam alunos.
Como nasceu o octógono
Depois de uns dez anos nisso, caiu a ficha: com tanta gente nos Estados Unidos, ele ia passar a vida brigando na garagem. Precisava de um jeito maior de mostrar o jiu-jitsu. Foi assim, segundo ele, que surgiu o UFC: um torneio entre estilos diferentes, com os nomes sorteados num chapéu na véspera e eliminação direta. Ele foi atrás dos maiores e mais fortes que conseguiu e jogou o Royce no meio.
Para diretor criativo, chamou um aluno, o cineasta John Milius, diretor de Conan, o Bárbaro. O Rorion não queria ringue de boxe, porque já tinha visto luta em que o cara fugia no meio. Os dois pensaram em parede de fibra de vidro, cerca elétrica e até num tanque com jacaré, que nunca saiu do papel. Descartaram o formato quadrado porque o lutador ficaria preso no canto. Por eliminação, chegaram ao octógono.
Depois do primeiro evento, o exército americano ligou pedindo um currículo de combate, e hoje, nas palavras do Rorion, as forças armadas e as agências de segurança dos Estados Unidos treinam jiu-jitsu. Perguntado se imaginava onde aquilo ia parar, ele respondeu:
“Eu sabia que eu ia mudar o mundo.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:29:50
A transmissão cortada e a venda do UFC
O ponto de virada, pelo relato dele, foi o quarto evento. O Royce enfrentou o Dan Severn, a transmissão do pay-per-view tinha duas horas e o evento durou duas horas e três minutos. Quem comprou em casa ficou sem ver o fim da luta, o dinheiro teve que ser devolvido e, segundo o Rorion, diretores das distribuidoras foram demitidos.
Depois disso, o sócio dele, Bob Meyrowitz, quis impor tempo de luta para não perder a transmissão de novo. O Rorion foi contra e explicou o motivo: com tempo, o pequeno não tem como esperar o grandão cansar, então vem a divisão por peso. Com peso igual, vem o empate e o jurado. E um estrangulamento que apaga o cara em seis segundos pode ser salvo pelo gongo aos três.
“Se vocês colocarem tempo de luta, vocês vão matar o show.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:53:11
Para ele, aquilo virou um grande show de entretenimento e deixou de ser a briga de verdade que ele queria mostrar. Por isso vendeu a parte dele ao sócio e saiu. Disse que não se arrepende.
“O dinheiro sempre foi uma consequência do meu trabalho.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:54:15
O Rorion contou ainda que o sócio segurou o evento por uns dois anos sob pressão do senador John McCain, que, segundo ele, era casado com a filha do dono da Budweiser, patrocinadora do boxe. Sem conseguir lugar para fazer o show, o sócio vendeu o UFC para o grupo do Dana White, que mudou as regras e conseguiu a liberação em Las Vegas. Ele lembrou que o UFC foi vendido anos atrás por 4,2 bilhões de dólares e disse ter orgulho de ser o pai da criança.
Hélio, Carlos e a dieta da família
O Rorion também voltou às origens. Segundo ele, o tio Carlos aprendeu com um japonês por volta dos 14 ou 15 anos, treinou dois ou três anos e, quando a família saiu de Belém do Pará para o Rio de Janeiro, começou a ensinar e a passar a luta aos irmãos. O pai dele, Hélio, era o caçula dos cinco homens e tinha a saúde frágil, com vertigens e desmaios, e os médicos o proibiram de fazer atividade física. Passou anos só olhando os irmãos treinarem.
Aos 16 anos, contou o Rorion, um aluno apareceu e os irmãos não estavam. O Hélio deu a aula, e o aluno pediu para continuar com ele. Como os golpes que tinha decorado exigiam uma força que ele não tinha, foi mudando as técnicas japonesas até funcionarem para alguém fraco. Nas palavras do filho, o Hélio pegou o jiu-jitsu que via e o adaptou para o próprio corpo. Os tios Jorge e Oswaldo também lutaram bastante, e o Carlos passou a ser uma espécie de empresário dos irmãos.
Foi aí que, segundo o Rorion, o Carlos criou a dieta Gracie, estudando nutrição por conta própria. As regras que ele explicou: não misturar cereais (arroz com feijão, pão com batata), não comer doce depois de refeição feita com gordura e esperar pelo menos quatro a cinco horas entre uma refeição e outra. O Rorion diz que, aos 70 anos, nunca ficou doente e usa a mesma roupa de quando tinha 20. Lembrou que o Carlos viveu até uns 92, 93 anos, e o Hélio até os 95. A última vez que viu o pai, no sítio em Petrópolis, ele estava com 94 anos e meio:
“Vamos para o tatame, eu vou te mostrar um estrangulamento que eu estou aperfeiçoando.”
Hélio Gracie, no Connect Cast · 0:44:23
O Carlos teve 21 filhos e o Hélio nove, e para o Rorion foi essa família enorme que levou o jiu-jitsu para o mundo. Sozinho, disse ele, não teria conseguido.
O que ele quer deixar agora
O motivo da vinda ao Brasil era um curso para professores sobre a metodologia de ensino do Hélio. Segundo o Rorion, o pai mostrava o golpe e o aluno praticava no próprio professor, que ajustava a mão dele no pescoço e sabia cair. Ele contou que chegou a dar 20 aulas por dia, caindo umas 50 vezes em cada uma. Repetiu uma lição do pai: cabe ao professor fazer cada aluno ser o melhor possível, seja ele forte ou fraquinho.
O que fica da conversa é um Rorion muito seguro das próprias escolhas. Botou o Royce no octógono para mostrar a arte, saiu do UFC quando achou que o evento tinha mudado de propósito e hoje diz que a missão dele é ensinar as pessoas a viver melhor, pelo jiu-jitsu e pela mesa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.