Pergunta
Como o jiu-jitsu brasileiro chegou aos Estados Unidos?
Faxina em Hollywood, aula na garagem, centenas de desafios e, no fim, o UFC: a história contada por Rorion, Relson, Pedro Sauer e quem chegou depois.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 3 min de leitura
Resposta curta
Pelas mãos de Rorion Gracie, que se mudou para a Califórnia em 1978 com a missão de plantar o jiu-jitsu no país. Ele fez faxina, virou figurante em Hollywood e deu aula na garagem de casa, onde aceitou centenas de desafios em dez anos. Relson foi para o Havaí, e o UFC de 1993 fez o resto.
Quando a gente pensa em jiu-jitsu nos Estados Unidos, pensa no Royce no primeiro UFC. Só que, pelas entrevistas, o trabalho começou uns 15 anos antes, numa garagem da Califórnia, com um Gracie que chegou sem dinheiro e sem falar direito o inglês.
Rorion e a missão de 1978
O Rorion Gracie conta que a primeira viagem foi aos 17 anos, para um mês de férias. O dinheiro e a passagem foram roubados no hotel, ele ficou pelo menos seis meses e chegou a dormir em cima de jornal numa calçada do Havaí. Depois se formou em direito no Brasil, nunca advogou, e em 1978 voltou para a Califórnia com um objetivo: plantar o jiu-jitsu no país.
Ele desmente a versão de que foi tentar ser ator. Segundo o Rorion, fez faxina em casas de gente do cinema e foi a mulher de um assistente de direção que o encaminhou para a figuração. Um assistente que o viu estrangular um campeão de karatê em um minuto e meio o indicou para ensinar o Mel Gibson em Máquina Mortífera.
“O melhor tipo de luta que existe é o jiu-jitsu brasileiro, e a única pessoa que ensina nos Estados Unidos é o nosso figurante.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:19:23 · ler o artigo
A garagem e os desafios
Enquanto trabalhava no cinema, o Rorion dava aula na garagem nos fins de semana. A primeira era de graça, e quem trazia um amigo ganhava outra. Ele conta que chegou a 600 aulas particulares por mês ali, com 87 pessoas na lista de espera.
Com os alunos vieram os desafios. Professores de kung fu e de outras lutas, chateados por perder alunos, iam à garagem. Segundo o Rorion, foram centenas de desafios em dez anos, contra wrestlers, caratecas e boxeadores, e muitos desafiantes viraram alunos. Ele também editava e narrava fitas com desafios vindos do Brasil, vendidas em revistas de artes marciais no começo dos anos 1980.
O resto da família foi chegando. O Rorion lembra de uma ida a uma academia de judô em Los Angeles com Rickson, Royler, Royce, Renzo e outros primos, em que o grupo dominou os judocas no chão. O Pedro Sauer diz que, sem o Rickson, eles não teriam feito nada nos Estados Unidos.
Relson no Havaí e a vida difícil de quem chegou antes
Nem todo mundo teve o empurrão do cinema. O Relson Gracie chegou à Califórnia em 1985 e passou três anos sem conseguir turma, porque ninguém conhecia a técnica. No Havaí foi diferente: começou num tatame montado na garagem de um amigo e, por volta de 1988, foi para a universidade. O Pedro Sauer, que foi aos Estados Unidos em 1982 já faixa-preta, contou que passou um mês sem achar onde treinar jiu-jitsu.
Da Playboy ao UFC
A virada, segundo o Rorion, foi uma reportagem da Playboy de setembro de 1989 dizendo que ele estava disposto a lutar até a morte com qualquer um. Quem leu foi Art Davie, que virou aluno, viu os desafios e sugeriu levar aquilo para a televisão. O resultado foi o UFC de 1993, contado em UFC 1: Royce Gracie e em por que Royce e não Rickson.
O efeito aparece nos números do Relson: tinha 80 alunos na universidade quando o Royce lutou o primeiro UFC e chegou a 700 inscritos depois da quinta luta do irmão. O Jean Vandesteen lembra que foi aí que surgiu o nome Brazilian jiu-jitsu, um jeito de vender a arte sem usar o sobrenome da família.
Nos anos seguintes vieram Carlson Gracie, com Vitor Belfort, e uma leva de professores. Quando o Rodrigo Comprido chegou a Los Angeles, em 1996, havia quatro academias na cidade, entre elas a Gracie de Torrance e a do Rickson. A história completa está em a entrevista do Rorion Gracie.
O que foi contado
Segundo Rorion Gracie, aos 17 anos ele foi passar um mês de férias nos Estados Unidos, teve o dinheiro e a passagem roubados na ACM e acabou ficando pelo menos seis meses no país.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:14:38 · ler o artigoRorion Gracie contou que, sem dinheiro no Havaí, dormiu alguns dias em cima de jornal na calçada até receber o salário de uma obra.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:16:43 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, ele se formou em direito e tem carteira da OAB, mas nunca exerceu a advocacia. Em 1978 voltou aos Estados Unidos com a missão de plantar o jiu-jitsu no país.
Contado por Rorion Gracie no Pura Connection · 0:51:14 · ler o artigoRorion Gracie negou ter ido aos Estados Unidos para ser ator. Contou que trabalhou fazendo faxina em casas de Hollywood e que a mulher de um assistente de direção da série Starsky & Hutch o encaminhou para papéis de figurante, função que exerceu por 10 anos.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:17:49 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, ele estrangulou em um minuto e meio o campeão de karatê Ralph Alegria, e um assistente de direção que assistiu à luta o indicou depois para ensinar jiu-jitsu a Mel Gibson em Máquina Mortífera.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:18:52 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, ele dava aulas de jiu-jitsu na garagem de casa nos fins de semana enquanto trabalhava como figurante, oferecia aula grátis a quem levasse amigos e vendia quimonos de judô e karatê aos alunos.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:21:59 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, ele chegou a dar 600 aulas particulares por mês na garagem de casa na Califórnia, com 87 pessoas na lista de espera.
Contado por Rorion Gracie no Pura Connection · 0:54:52 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, professores de outras artes marciais, como kung fu, iam à garagem desafiá-lo, e ele aceitou centenas de desafios durante dez anos. Muitos desafiantes viraram alunos.
Contado por Rorion Gracie no Pura Connection · 0:55:22 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, os desafios contra wrestlers, caratecas e boxeadores aconteceram centenas de vezes na garagem dele durante 10 anos e continuaram na academia da Carson Street.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:36:25 · ler o artigoRorion Gracie disse que montou o primeiro Gracie Jiu-Jitsu in Action editando e narrando vídeos de desafios vindos do Brasil, por sugestão da mulher. A fita passou a ser vendida em revistas de artes marciais no começo dos anos 1980.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:32:51 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, depois de um seminário com Chuck Norris em Las Vegas, ele voltou a uma academia de judô de Los Angeles com Rickson, Royler, Royce, Renzo, Rilion e outros primos, e o grupo dominou os judocas no chão.
Com Rickson Gracie, Royler Gracie, Royce Gracie, Renzo Gracie, Rilion Gracie, Chuck NorrisContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:57:09 · ler o artigoPedro Sauer diz que os desafios duraram até Royce entrar no UFC e depois Rickson no Pride, e que sem Rickson eles não teriam feito nada nos Estados Unidos.
Com Rickson Gracie, Royce GracieContado por Pedro Sauer no Pura Connection · 0:32:47 · ler o artigoSegundo Relson Gracie, ele chegou aos Estados Unidos pela Califórnia em 1985 e ficou três anos lá sem conseguir ensinar jiu-jitsu, porque as pessoas não conheciam a técnica.
Contado por Relson Gracie no Connect Cast · 0:01:32 · ler o artigoSegundo Relson Gracie, ele começou a ensinar na Universidade do Havaí por volta de 1988 e 1989, e o número de alunos cresceu a cada luta de Royce no UFC, chegando a 342.
Contado por Relson Gracie no Pura Connection · 0:33:39 · ler o artigoPedro Sauer contou que foi aos Estados Unidos em 1982, já faixa-preta, e passou um mês sem encontrar onde treinar jiu-jitsu.
Contado por Pedro Sauer no Connect Cast · 0:59:46 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, a revista Playboy publicou em setembro de 1989 uma reportagem de Pat Jordan sobre ele, dizendo que estava disposto a lutar até a morte com qualquer um.
Contado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:34:55 · ler o artigoRorion Gracie contou que Art Davie, que trabalhava numa agência de publicidade, leu a reportagem da Playboy, foi à academia, virou aluno e, depois de ver alguns desafios, disse que o mundo tinha de ver aquilo.
Com Rorion GracieContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:35:55 · ler o artigoSegundo Relson Gracie, ele tinha 80 alunos na universidade no Havaí quando Royce Gracie lutou o primeiro UFC, em 1993, e chegou a 700 inscritos depois da quinta luta do Royce, com 180 pessoas na lista de espera.
Com Royce GracieContado por Relson Gracie no Pura Connection · 0:06:33 · ler o artigoSegundo Jean Vandesteen, depois do UFC de 1993, brasileiros passaram a treinar americanos para lutar contra Royce Gracie, e o nome Brazilian jiu-jitsu surgiu como forma de vender o jiu-jitsu sem usar o nome da família Gracie.
Contado por Jean Vandesteen no Pura Connection · 0:37:07 · ler o artigoRodrigo Medeiros contou que, quando chegou a Los Angeles em 1996, havia quatro academias na cidade, entre elas a Gracie de Torrance, a do Rickson em Westwood e a dos irmãos Machado; Renzo tinha acabado de ir para Nova York e Ralph estava chegando a São Francisco.
Com Rickson Gracie, Jean Jacques Machado, Renzo Gracie, Ralph GracieContado por Rodrigo Comprido no Pura Connection · 0:32:53 · ler o artigoCarlson Gracie Júnior contou que foi para os Estados Unidos em 1995, chamado pelo pai para uma luta de MMA, e que o Carlson já estava lá com Vitor Belfort. Acabou ficando para dar aulas.
Com Carlson Gracie, Vitor BelfortContado por Carlson Gracie Júnior no Connect Cast · 0:10:28 · ler o artigo
Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.