Connect Cast · Relson Gracie
Relson Gracie, invicto por 22 anos, diz que o jiu-jitsu de hoje ficou feio
Filho de Hélio Gracie defende as regras do pai, critica a chave de joelho e conta como levou o jiu-jitsu ao Havaí.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 24 out 2024 (1:51:18).
Relson Gracie diz que passou 22 anos competindo sem perder uma luta e que, olhando para o jiu-jitsu de hoje, não reconhece mais o esporte que o pai criou. Filho de Hélio Gracie, faixa vermelha de nono grau e há quase quatro décadas morando no Havaí, ele sentou no Podcast Connect Cast e soltou o verbo contra as regras atuais, os kimonos coloridos e os campeonatos em que, segundo ele, ninguém mais finaliza.
“O jiu-jitsu esportivo ficou feio.”
Relson Gracie, no Connect Cast · 0:08:47
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi a clareza do Relson sobre o que ele acha que se perdeu. Para ele, a base de tudo é a defesa pessoal. A competição veio depois, e hoje engoliu o resto.
A regra de Hélio contra o "segura, segura"
O Relson contou como funcionavam os campeonatos organizados pelo pai. Quem passava a guarda precisava estabilizar por três segundos para marcar o ponto, e podia ficar no máximo 30 segundos parado em cima. Quem estava na guarda também tinha obrigação de trabalhar. Ficar segurando a gola rendia advertência, e a punição vinha rápido.
“Hoje em dia o grito que você mais ouve em competição é: segura!”
Relson Gracie, no Connect Cast · 0:09:18
Ele lembrou ainda dos torneios que Rorion fazia em Torrance, na Califórnia, durante quatro ou cinco anos, sem limite de tempo. A luta acabava na finalização ou quando alguém abria 12 pontos de vantagem. O Relson levou esse formato para o Havaí e teve problema: uma luta de um aluno dele durou 1 hora e 20 minutos, e ele parou, levantou o braço dos dois e deu empate.
Outro ponto que incomoda o mestre é a pontuação. Segundo ele, no tempo do Hélio uma queda só valia dois pontos se fosse limpa, como no judô. Hoje, diz o Relson, um atleta encosta na perna, pula, passa voando e monta, somando nove pontos em um segundo e meio sem ter domínio nenhum. Ele também reclama do Carlinhos, a quem atribui as mudanças nas regras e a criação de faixas como a cinza.
O que mais o revolta são as chaves de joelho e a mão de vaca. No campeonato do Hélio, segundo o Relson, nada disso valia. Ele contou que no Arnold Classic, onde administrava o jiu-jitsu, foram cerca de 2.400 competidores em uma semana sem nenhum atendimento por lesão. E disse que lá o grito do atleta valia como desistência, justamente para proteger quem está lutando.
Oito anos e meio na faixa-marrom
A história pessoal do Relson explica muito do jeito que ele fala. Ele contou que com um ano e meio já estava no tatame tomando queda, criado junto de Rolls e Rickson. Segundo ele, nenhum dos três perdeu uma luta em competição. Com 16 anos já lutava no adulto e no peso absoluto.
“22 anos em competição, nunca perdi uma luta.”
Relson Gracie, no Connect Cast · 0:44:29
Mesmo ganhando de todo mundo, ficou oito anos e meio na faixa-marrom. O motivo, segundo ele, era o boletim: o Hélio segurava a graduação porque o filho fugia da escola. Os adversários chegavam a pedir ao Hélio que promovesse o garoto. A faixa-preta só veio aos 27 anos.
“Meu pai não me dava porque eu era moleque, fugia de escola.”
Relson Gracie, no Connect Cast · 0:46:05
Entre os rivais mais duros ele citou Toninho Campos, do pessoal da Kotô. O Relson acha que foi roubado numa decisão contra ele e diz que se vingou na final do absoluto na semana seguinte. Sobre treino, contou que o Rolls o levava para treinar com o judoca Osvaldo Alves, e que o Rickson, seis anos mais novo, nunca conseguiu passar a guarda dele. Lembrou também que o Hélio corrigia o Rickson quando via o filho usando força demais.
A disciplina chamava atenção. Segundo o Relson, ele ficava um mês sem sair, sem beber e sem namorar antes de cada campeonato, dormia cedo e fazia a dieta Gracie. A primeira cerveja da vida, diz ele, foi aos 33 anos, já nos Estados Unidos.
Da garagem ao Dia de Relson Gracie no Havaí
O Relson chegou à Califórnia em 1985 e passou três anos por lá sem conseguir montar turma, porque ninguém acreditava numa arte marcial vinda do Brasil. No Havaí foi diferente. Começou dando aula no tatame que um aluno montou na garagem de casa, com 16 ou 18 pessoas, e depois foi para uma universidade, onde reuniu 80 alunos.
Aí vieram as lutas de Royce no UFC. Segundo o Relson, a academia foi para 160 alunos depois da primeira, 380 depois da segunda e chegou a 700 inscritos, com fila de espera de 180 nomes, na quarta. Ele diz que foi a melhor decisão da vida.
“Eu fui pro menor estado da América e fez mais medalha que toda a América junto.”
Relson Gracie, no Connect Cast · 0:35:37
Ele citou alunos havaianos como Baret Yoshida, que segundo ele finalizou um campeão mundial sendo ainda faixa-azul e, de faixa-roxa, pegou Soca num triângulo voador no Abu Dhabi e fez a final com Royler. Contou também que BJ Penn treinou em sua academia. Hoje o Havaí tem o dia 6 de abril como Dia de Relson Gracie, e ele diz que tem um prédio com o rosto dele pintado e que treina agentes do Serviço Secreto americano.
Andar para trás, a arma da defesa pessoal
Na visão do Relson, o segredo da defesa pessoal do Hélio é recuar. Quando o agressor dá o passo à frente, entra no raio de ação, e é ali que se bate no joelho e se agarra. Ele diz que foi isso que o Royce fez nos primeiros UFCs e que, depois, o Royce mudou o estilo e perdeu para Matt Hughes, que segundo o Relson lutou jiu-jitsu enquanto o Royce lutou caratê.
O mesmo raciocínio aparece quando ele fala de Sakuraba. O Relson contou que, já aposentado e com mais de 50 anos, recebeu uma ligação do Japão perguntando quanto cobraria para lutar, provavelmente com o japonês. Recusou qualquer valor e propôs outra coisa: que o Sakuraba batesse na porta da casa dele, com uma câmera, para resolver ali mesmo, de graça.
Das brigas de rua ele fala sem cerimônia. Contou que aos 19 anos se envolveu em quatro brigas numa só noite no Iate Clube e que voltou depois com a família para acertar as contas. E disse que a última foi aos 69 anos, no Havaí, contra um homem bem mais novo, e que o joelho nunca mais foi o mesmo. Hoje, com 71, garante que prefere ir embora.
“Briga de rua não passa de 10 segundos.”
Relson Gracie, no Connect Cast · 1:08:28
O que fica da conversa
Dá para discordar de muita coisa que o Relson diz sobre o jiu-jitsu moderno, mas é difícil ignorar a coerência. Ele defende kimono branco para a faixa aparecer, regra que obrigue a lutar, proibição de chaves que machucam e um curso de defesa pessoal obrigatório para quem quer ser promovido. Segundo ele, é inaceitável um professor que não saiba se defender de uma faca.
Hoje ele passa mais tempo no Brasil, dá aula no Leblon, dentro do Colégio Santo Agostinho, e está abrindo filiais em várias cidades. Contou também que foi procurado por um produtor e um diretor interessados em um filme sobre a família Gracie. Se sair, espero que tenha as histórias que ele contou aqui, porque poucos falam do Hélio com a propriedade de quem apanhou dele no tatame desde o berço.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.