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Pura Connection · Jean Vandesteen

Braço direito de Relson Gracie vê o jiu-jitsu perdendo a essência

Jean Vandesteen defende o jiu-jitsu completo, com defesa pessoal, kimono e sem kimono, e aponta o que o negócio, as federações e as regras do MMA tiraram da arte.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 nov 2024 (2:13:18).

Jean Vandesteen tem 22 anos de faixa-preta e não aceita ser chamado de mestre. Braço direito de Relson Gracie e responsável pela academia do Relson no Leblon, ele diz que o título só vem com a faixa vermelha e preta. Essa frase resume bem a entrevista que ele deu ao Pura Connection: para o Jean, o jiu-jitsu está perdendo a hierarquia, a defesa pessoal e o respeito aos mais velhos, e está trocando tudo isso por medalha e negócio.

“Eu tenho 22 anos de faixa-preta, mas eu sou professor.”

Jean Vandesteen, no Pura Connection · 1:03:37

Assisti às mais de duas horas de conversa. O Jean fala com a segurança de quem cresceu brigando na escola, treina a vida inteira dentro da linha do Relson e passa parte do ano nos Estados Unidos treinando policiais e agentes do serviço secreto. O que mais me pegou foi a defesa que ele faz do que chama de jiu-jitsu completo.

Três partes que não se separam

Para o Jean, jiu-jitsu tem três partes que andam juntas: a parte de rua (a defesa pessoal), o kimono e o sem kimono. Quem treina só uma delas perde muito, segundo ele. O kimono seria a base de tudo, porque dá mais tempo, mais controle e ajuda a entender a ciência do movimento. Depois disso, o sem kimono e a rua ficam mais fáceis.

“O kimono é quase o password do jiu-jitsu.”

Jean Vandesteen, no Pura Connection · 0:23:04

Ele contou que nos Estados Unidos já existem academias que só treinam sem kimono, inclusive ligadas ao pessoal do Gordon, onde os professores treinam de kimono em outro lugar. Na visão do Jean, o sem kimono sozinho não se sustenta. Na academia dele, toda aula tem defesa pessoal, parte de competição e rola no fim. Quem não quer rolar faz simulação de defesa pessoal com luva no mesmo tempo, e toda sexta-feira é dia de sem kimono.

Ele também explicou por que acha que a separação começou. A defesa pessoal ensina coisas que o aluno nunca esquece, como proteger o filho ou a esposa numa situação real, mas isso não traz aluno novo para a academia. O campeão de competição traz. Por isso, segundo ele, muita academia investiu só na competição e deixou o resto para trás.

O asfalto é o maior perigo

O Jean gosta de lembrar que, numa briga de verdade, o ambiente é mais perigoso que o agressor. Quina de mesa e beira de calçada matam mais que o próprio adversário. Por isso ele questiona quem pensa a rua com a cabeça da competição: puxar para a guarda no asfalto ou ficar no controle lateral, que vale três pontos no campeonato, pode ser uma péssima ideia na rua.

“O rosto tocando o asfalto vai te machucar muito mais do que três socos do Mike Tyson.”

Jean Vandesteen, no Pura Connection · 0:30:48

Ele contou que cresceu em Teresópolis e no Rio, estudou em colégio público, brigava quase todo dia e matava aula para ir treinar. Diz que viveu a guerra antes de ter a arma. Na opinião dele, é esse dia a dia que faz o brasileiro diferente no jiu-jitsu: o jiu-jitsu que se treina aqui e nos Estados Unidos é o mesmo, mas o brasileiro vive num país que exige percepção o tempo todo.

Federação, faixa colorida e academia sem mestre

A crítica mais dura do Jean vai para as federações. Ele acha errado que a federação se envolva com graduação, que deveria ser papel do professor. Com isso, segundo ele, surgiram academias grandes em que ninguém sabe quem é o mestre do professor, e gente que ficou 20 anos sem vestir o kimono volta, pega a graduação pelo tempo e começa a dar aula como mestre. Ele sugere que as federações criassem uma cúpula de faixas vermelhas, com nomes como Relson, Rickson, Rorion e Royler, para opinar sobre os rumos do jiu-jitsu.

Ele também reclama das novidades pensadas para agradar aluno: faixas cinza de vários tipos para criança, kimono de várias cores e a faixa vermelha e branca, que, segundo ele, o time do Relson não aprova. O Jean lembrou que quando criança pegou todos os graus de todas as faixas, um ano de cada vez, e que esse tempo ensinava a querer aprender mais do que querer a faixa.

Sobre a origem do termo Brazilian jiu-jitsu, a versão dele é esta: depois do UFC de 1993, brasileiros começaram a treinar americanos para enfrentar Royce e passaram a vender o jiu-jitsu com esse nome, sem usar o sobrenome Gracie. Quem abriu escola, segundo ele, dominava a competição, mas não a rua, e acabou deixando a rua de lado.

As regras do MMA e a família dividida

O Jean acha que as regras do MMA foram feitas contra o jiu-jitsu. Ele lista a cabeçada, o pisão com as costas no chão e o joelho na cabeça, tudo proibido, e diz que só o lutador de jiu-jitsu usaria isso de baixo ou do controle. Também critica o juiz que manda levantar quando um lutador está dominando no chão, enquanto ninguém manda dois lutadores em pé irem para o chão.

“Quem vai amarrar teus braços e te dar cabeçada na cara é o jiu-jitsu.”

Jean Vandesteen, no Pura Connection · 1:59:21

Na parte da família Gracie, ele diz que no começo não existia academia do Relson, do Rickson ou do Rorion: todo mundo defendia a Academia Gracie. Segundo o Jean, era o grande mestre quem mantinha a família unida apesar dos problemas, e quando ele partiu, a família se dividiu. Ele também contou que o mestre Robson repetia que o jiu-jitsu só chegou aonde chegou graças à parte de rua e aos confrontos entre estilos.

Do Leblon ao serviço secreto

O Jean mostrou no estúdio as condecorações que recebeu nos Estados Unidos, de polícias e bases do serviço secreto. Ele contou que em 2019 recebeu uma condecoração do serviço secreto pelo trabalho prestado e que faixas-pretas do time são responsáveis pelo treinamento interno há mais de 20 anos. Citou Jim Triff, faixa-preta do time que trabalhou com quatro presidentes e quer a família inteira treinando. Segundo o Jean, o que esses agentes querem é o jiu-jitsu completo.

Ele fechou falando do Relson. Segundo o Jean, os dois conversam várias vezes por dia, trocam vídeos de posições e ajustam o que precisa ser ajustado sem sair da estrada. O Relson, diz ele, é o que mais fala do pai e só muda uma técnica quando vê necessidade real.

“O dinheiro que eu ganho não paga o prazer que eu tenho.”

Jean Vandesteen, no Pura Connection · 2:11:23

Dá para discordar de parte das críticas, principalmente sobre o sem kimono. Mas a pergunta que ele deixa vale para qualquer academia: seu aluno está aprendendo jiu-jitsu ou só uma forma de ganhar campeonato?

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.