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Academia Gracie da Rio Branco: a história contada por quem treinou lá
A academia de Carlos e Hélio Gracie no Centro do Rio, com cesta de kimono, 36 aulas de defesa pessoal e lista de espera.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 6 min de leitura
- Fundação
- 1930 ou dezembro de 1931, conforme a versão
- Onde
- Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, e depois Avenida Rio Branco, 151, no Centro do Rio de Janeiro
- Fundadores
- Carlos Gracie, Hélio Gracie
Quase toda equipe de jiu-jitsu que existe hoje passa, de algum jeito, por uma sala no Centro do Rio. A Academia Gracie da Avenida Rio Branco é o lugar que mais aparece nas entrevistas quando alguém quer explicar de onde veio o método. E cada um lembra de um detalhe diferente: a cesta com o kimono, o andar do prédio, o número de alunos. Juntei aqui o que foi contado, sempre com o nome de quem contou.
Origem e fundação: Marquês de Abrantes, 1930 ou 1931
A data tem duas versões. Pedro Valente conta que Carlos Gracie deu aula em Belo Horizonte em 1928, abriu academia em São Paulo em 1929 e, em 1930, abriu com Donato Pires dos Reis a academia da Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. Foi ali, segundo ele, que Hélio voltou a treinar e em um ano já fazia demonstrações.
Robert Drysdale marca outro momento: para ele, a academia vira Gracie em dezembro de 1931, e a data de 1925 que costuma circular está errada.
“Aqui não é 1925, essa data tá errada. Com todo respeito, é dezembro de 31.”
Robert Drysdale, no Pura Connection · 1:13:09 · ler o artigo
Ninguém nas entrevistas que li disse em que ano a academia foi para a Avenida Rio Branco. O endereço que todos lembram é o número 151. Pedro Sauer e Pedro Valente falam do 17º e do 18º andar. Na lembrança de Francisco Mansur, que chegou lá aos 13 anos depois de fugir de casa, era o 13º andar.
Como funcionava por dentro
A descrição mais completa é de Álvaro Barreto, que dava aula lá desde os 17 anos. Segundo ele, eram 700 alunos, todos de aula individual. O curso de defesa pessoal tinha 36 aulas de meia hora, sem aquecimento. O aluno saía do trabalho, fazia a aula e voltava. Quem entregava os kimonos na rouparia era Waldemar Santana. Leão Teixeira fala em torno de mil alunos, chegando de terno e gravata.
“Era uma academia de 700 alunos, aulas individuais. Era um colégio aquilo.”
Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:10:47 · ler o artigo
O kimono é o detalhe que todo mundo lembra. Rorion Gracie contou que o aluno recebia kimono limpo, toalha e sabonete a cada aula, e que as roupas eram lavadas numa lavanderia da família em Teresópolis, que dava conta de 650 kimonos por semana. Hélio e Carlos levavam a caminhonete duas vezes por semana. Pedro Valente acrescenta o chinelo e a chave do armário, e chama a Rio Branco de academia mais bem organizada de todos os tempos.
“Eu considero que essa academia foi a mais bem organizada, mais incrível de todos os tempos.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:26:37 · ler o artigo
Sobre o método, as versões batem no essencial. Rorion conta que o pai ensinava quatro posições na primeira aula e, a cada aula seguinte, repetia tudo e acrescentava mais três. Pedro Valente fala em quatro técnicas em pé e uma no chão por aula, começando pela defesa de estrangulamento. Relson Gracie divide as 36 aulas em umas 26 a 28 de ensino e o resto só de repetição.
Segundo Pedro Valente, a Rio Branco tinha uma hierarquia de faixas própria: lutador de faixa branca, instrutor de azul-clara e, depois de sete anos dando aula, o diploma com a faixa azul-marinho. Ele conta cinco professores diplomados: João Alberto Barreto, Armando Wriedt, Hélio Vígio, Carlson Gracie e Robson Gracie. Hélio assistia cinco minutos da aula de cada um. Álvaro Barreto diz que Hélio considerava João Alberto o melhor professor da casa.
Quem passou por lá
Rorion e Kyra Gracie citam o jornalista Roberto Marinho e o presidente Figueiredo entre os alunos. Kyra disse que se inspirou nessa academia, com currículo na parede e lista de espera, para o projeto dela. Pedro Sauer começou ali aos 14 anos. Sergio Zveiter teve a primeira aula com Rorion na Rio Branco, na primeira noite em que dormiu no Rio. O pai de Pedro Valente se matriculou em 27 de abril de 1953, e o primeiro professor dele foi João Alberto Barreto.
Pedro Valente usa Waldemar Santana para rebater a ideia de que a academia era só para a elite: segundo ele, Waldemar aprendeu jiu-jitsu lá sem pagar. Álvaro Barreto lembra que todos os funcionários treinavam, comiam a mesma comida, e que Waldemar era sparring da casa. A história de como ele saiu e virou adversário está em Hélio Gracie x Waldemar Santana.
Aula particular ou treino duro? O debate
Aqui as entrevistas discordam de verdade. Drysdale defende que o jiu-jitsu sofreu uma transformação radical quando o centro saiu da Rio Branco e foi para a academia de Carlson, na Figueiredo de Magalhães, com aula em grupo, público popular e treino competitivo. Para ele, a Rio Branco era de aula particular e defesa pessoal para a elite, e a cultura de praia nasceu com Carlson.
Pedro Sauer, que treinou lá, conta outra coisa. Segundo ele, ninguém rolava sem antes passar pelo programa de defesa pessoal, todo dia, e depois o treino era pesado, com Hélio em cima corrigindo no meio da luta.
“Você não podia cair no tatame, não podia fazer rola, não podia fazer treino sem passar pelo programa. Todo dia.”
Pedro Sauer, no Connect Cast · 0:10:49 · ler o artigo
Fábio Gurgel fica no meio: a Rio Branco era de aula particular, mas no fim do dia os professores da família treinavam com os alunos mais duros, e foi esse treino que se espalhou, com Carlson como maior expoente. Flávio Behring lembra que a defesa pessoal dos anos 1950 era individual, com o professor corrigindo cada aluno conforme o corpo dele. Para quem quer ir mais fundo nessa discussão, vale ler se o jiu-jitsu de competição esqueceu a defesa pessoal.
Rachas e o que veio depois
Segundo Álvaro Barreto, Hélio Vígio foi o primeiro professor a sair da Academia Gracie para montar a própria academia. Carlson também saiu. Carlson Gracie Júnior contou que o conflito começou lá dentro: Hélio queria proibir Carlson de ensinar o que quisesse aos alunos, e Carlson também não recebia o que era devido. A briga completa está em por que Hélio e Carlson brigaram.
Rorion conta que, quando ele foi para os Estados Unidos, Rickson ficou dando aula na Rio Branco com ajuda de Carlinhos. Fábio Gurgel lembra que a família chegou a ter três academias fazendo seletiva: a Gracie central, a de Rolls e a de Carlson. Segundo ele, 1985 foi o último campeonato vencido pela Academia Gracie. Pedro Valente conta que o pai, vice-presidente médico do Vasco, levou a academia para a sede náutica do clube na Lagoa, quando Rickson começou a atrair muitos alunos. Jean Vandesteen resume a época: não existia academia de cada Gracie, todo mundo defendia a Academia Gracie.
O nome ainda pesa. Pedro Sauer conta que, em 2005, Hélio ficou furioso ao ver o logo de Brazilian Jiu-Jitsu num seminário dele em Atlanta, e Pedro voltou a usar o antigo logo AG, da Academia Gracie. Para o quadro inteiro, veja a linhagem e a história do jiu-jitsu. As conversas completas estão em Álvaro Barreto e Pedro Valente.
O que foi contado
Segundo Pedro Valente, Carlos Gracie deu aula em Belo Horizonte em 1928, abriu academia em São Paulo em 1929 e em 1930 abriu com Donato Pires dos Reis a academia da Rua Marquês de Abrantes, no Rio.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:22:29 · ler o artigoPedro Valente contou que, logo depois de 1930, Carlos Gracie voltou de São Paulo e abriu a academia na Marquês de Abrantes, no Flamengo, onde Hélio voltou a treinar e em um ano já fazia demonstrações.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:54:33 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, a academia Gracie surgiu em dezembro de 1931; ele considera errada a data de 1925.
Contado por Robert Drysdale no Pura Connection · 1:13:09 · ler o artigoSegundo Álvaro Barreto, a Academia Gracie da Avenida Rio Branco tinha 700 alunos de aula individual, com um curso de defesa pessoal de 36 aulas de meia hora, sem aquecimento, e Waldemar Santana trabalhava na rouparia entregando os kimonos.
Com Waldemar SantanaContado por Álvaro Barreto no Pura Connection · 0:11:18 · ler o artigoSegundo Álvaro Barreto, todos os funcionários da Academia Gracie treinavam e comiam a mesma comida, e Waldemar Santana, fortíssimo e muito rápido, era sparring da casa.
Com Hélio GracieContado por Álvaro Barreto no Pura Connection · 0:33:54 · ler o artigoSegundo Álvaro Barreto, Hélio Gracie dizia que João Alberto Barreto era o melhor professor da Academia Gracie. João Alberto finalizava Waldemar Santana várias vezes no treino, enquanto Carlson tinha mais dificuldade porque impunha muita pressão.
Com Hélio Gracie, Waldemar Santana, Carlson GracieContado por Álvaro Barreto no Pura Connection · 0:59:36 · ler o artigoSegundo Álvaro Barreto, Hélio Vígio foi o primeiro professor a sair da Academia Gracie para montar a própria academia.
Contado por Álvaro Barreto no Pura Connection · 0:10:47 · ler o artigoSegundo Leão Teixeira, a academia Gracie da Rio Branco tinha em torno de mil alunos, que chegavam de terno e gravata, recebiam kimono, toalha e chave do armário e faziam aulas de 30 minutos, com professores como João Alberto Barreto. Ele credita esse formato a Carlos e Hélio Gracie.
Com Carlos Gracie, Hélio GracieContado por Leão Teixeira no Pura Connection · 0:11:31 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, o método da academia da Rio Branco, que aprendeu com o pai, era ensinar quatro posições na primeira aula e, a cada aula seguinte, repetir tudo e acrescentar mais três.
Com Hélio GracieContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:08:53 · ler o artigoRorion Gracie contou que na Academia Gracie da Rio Branco o aluno recebia quimono limpo, toalha e sabonete a cada aula. Os quimonos eram lavados numa lavanderia da família em Teresópolis, que dava conta de 650 por semana, e Hélio e Carlos levavam a caminhonete duas vezes por semana.
Com Hélio Gracie, Carlos GracieContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:23:32 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, foram alunos da Academia Gracie nomes como Roberto Marinho e o presidente Figueiredo.
Com Hélio GracieContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 0:24:36 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, a academia Gracie da Avenida Rio Branco, no 17º e 18º andar, foi a mais bem organizada de todos os tempos. O aluno recebia uma cesta com kimono no seu tamanho, toalha, chinelo, sabonete e a chave do armário.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:26:37 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, o curso da academia Gracie tinha 36 aulas particulares, com revisão acumulada, quatro técnicas em pé e uma no chão por aula, começando pela defesa de estrangulamento.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:14:05 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, a academia da Rio Branco tinha cinco professores diplomados: João Alberto Barreto, Armando Wriedt, Hélio Vígio, Carlson Gracie e Robson Gracie, e Hélio assistia cinco minutos da aula de cada um.
Com João Alberto Barreto, Hélio Vígio, Carlson Gracie, Robson GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:53:17 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, na academia da Rio Branco lutador usava faixa branca, instrutor usava azul-clara e, após sete anos dando aula, o professor recebia o diploma com a faixa azul-marinho; com a Federação, Hélio passou a usar a faixa vermelha.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:45:59 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Waldemar Santana aprendeu jiu-jitsu na academia Gracie sem pagar, exemplo que ele usa para rebater a ideia de que Hélio era elitista.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:48:34 · ler o artigoSegundo Relson Gracie, o curso de defesa pessoal da academia da Rio Branco tinha 36 aulas: cerca de 26 a 28 de ensino e 8 a 10 só de repetição.
Contado por Relson Gracie no Pura Connection · 0:06:56 · ler o artigoSegundo Pedro Sauer, ninguém podia rolar na Academia Gracie sem antes passar pelo programa de defesa pessoal, todos os dias, e Hélio acompanhava o treino de perto, corrigindo os alunos no meio da luta.
Com Rickson Gracie, Relson Gracie, Rolls Gracie, Royler GracieContado por Pedro Sauer no Connect Cast · 0:10:49 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, o jiu-jitsu sofreu uma transformação radical quando o centro saiu da Rio Branco para a academia de Carlson na Figueiredo de Magalhães, com aula em grupo, público popular e treino competitivo; Rolls copiou o modelo do Carlson.
Com Rolls GracieContado por Robert Drysdale no Pura Connection · 0:49:45 · ler o artigoSegundo Fábio Gurgel, a academia Gracie da Avenida Rio Branco era de aulas particulares, e no fim do dia os professores da família treinavam juntos com os alunos mais duros. Esse modelo de treino foi o que se espalhou, e Carlson foi seu maior expoente, tornando o jiu-jitsu mais democrático.
Contado por Fábio Gurgel no Connect Cast · 0:27:43 · ler o artigoFábio Gurgel contou que a família Gracie chegou a ter três academias fazendo seletivas: a Gracie central, a de Rolls e a de Carlson, estas duas no mesmo prédio. Segundo ele, 1985 foi o último campeonato vencido pela academia Gracie, e depois Carlson teve hegemonia por cerca de 15 anos.
Com Rolls GracieContado por Fábio Gurgel no Connect Cast · 0:22:30 · ler o artigoSegundo Carlson Gracie Júnior, o conflito entre Carlson e Hélio começou dentro da Academia Gracie: Hélio queria proibir Carlson de ensinar o que quisesse aos alunos, e Carlson também não recebia o que lhe era devido. Por isso saiu para abrir academia própria.
Com Hélio GracieContado por Carlson Gracie Júnior no Connect Cast · 0:20:58 · ler o artigoSegundo Rorion Gracie, quando ele foi para os Estados Unidos, Rickson ficou dando aula na Rio Branco com ajuda de Carlinhos. Rolls dava aula em Copacabana no mesmo prédio de Carlson. Depois da morte de Rolls, Carlinhos abriu academia própria na Barra.
Com Rickson Gracie, Carlos Gracie Júnior, Rolls Gracie, Carlson GracieContado por Rorion Gracie no Connect Cast · 1:37:37 · ler o artigoSegundo Kyra Gracie, a antiga Academia Gracie da Avenida Rio Branco, no centro do Rio, emprestava kimono ao aluno, seguia um currículo na parede, tinha lista de espera e alunos como Roberto Marinho e o presidente Figueiredo. Ela disse ter se inspirado na academia da década de 1950.
Com Carlos Gracie, Hélio GracieContado por Kyra Gracie no Connect Cast · 0:25:04 · ler o artigoSegundo Jean Vandesteen, no passado não existia academia de cada Gracie: todos defendiam a Academia Gracie, e a família teve muitos praticantes porque mais gente treinando trazia mais ideias.
Com Carlos GracieContado por Jean Vandesteen no Pura Connection · 2:04:03 · ler o artigo
Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.