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Connect Cast · Fábio Gurgel

Fábio Gurgel conta como bateu nove vezes para Rickson Gracie num só treino

O fundador da Alliance relembra o treino em que o Rickson finalizou todo mundo duas vezes, o vestiário de 1991 e a luta com Mark Kerr.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 3 fev 2025 (2:55:37).

Duas horas e meia de treino, um tatame enorme cheio de faixas-pretas e um homem só trocando de parceiro quando finalizava o da vez duas vezes. Foi assim que Fábio Gurgel, fundador da Alliance, descreveu o dia em que viu Rickson Gracie de perto pela primeira vez. E ele estava no meio da fila: faixa-roxa, bateu duas vezes em uns cinco minutos, já com uma hora e quarenta de treino nas costas do Rickson.

Assisti à conversa do Fábio no Connect Cast, quase três horas de papo, e o que mais me prendeu foram as histórias do Rickson. O título do episódio fala nos segredos dele, e o Fábio entregou: contou o que viveu no tatame, sem ouvir falar de ninguém. Mas a entrevista vai além disso. Tem o vestiário do desafio de 1991, a luta com Mark Kerr, a crítica a quem diz que os americanos dominam o sem kimono e uma longa conversa sobre ganhar dinheiro com jiu-jitsu.

O treino em que todo mundo bateu duas vezes

Segundo o Fábio, o treino aconteceu no colégio Padre Antônio Vieira, no Humaitá, onde funcionava a academia Gracie. Estavam lá os alunos do Carlinhos, incluindo a família Machado, os alunos do próprio Rickson e os do Jacaré, professor do Fábio. O tatame era o mesmo onde Royler lutou com Eugênio Tadeu, para quem quer ter ideia do tamanho.

A regra era simples: o Rickson só trocava de adversário depois de pegar o parceiro duas vezes. Todo mundo passou por ele. O Fábio lembra que entre os que bateram estava Jean Jacques Machado, que ele considera um dos melhores praticantes que o jiu-jitsu já produziu, com e sem kimono.

Antes disso, o Fábio já acompanhava o Rickson competindo no peso e no absoluto. E ele garante que nunca viu uma vitória apertada.

“Eu nunca vi o Rickson ganhar uma luta por ponto.”

Fábio Gurgel, no Connect Cast · 0:29:49

Segundo ele, o Rickson finalizava todo mundo dentro dos dez minutos regulamentares.

Nove vezes, já campeão absoluto

A segunda história é ainda mais forte. O Fábio contou que ganhou a faixa-preta em 1989, já saiu campeão absoluto na faixa, brigando com gente como Murilo e Amaury, e no mesmo ano viajou para os Estados Unidos para treinar com o Rickson. No primeiro treino, bateu nove vezes.

Depois disso, segundo ele, treinou com o Rickson com frequência por uns dez anos. O saldo ele resume numa frase.

“Nunca finalizei o Rickson, nunca escapei de ser finalizado.”

Fábio Gurgel, no Connect Cast · 0:32:56

Quando alguém lembra que o Rickson tinha 30 anos e o Fábio 19, a resposta dele é direta: o cara se julga pelo que fez na história, e não pelo pico de quem estava do outro lado. Para o Fábio, o Rickson foi um fora da curva completo. Ele coloca a família Gracie numa prateleira própria, com Carlos, Hélio, Carlson, Rolls, Rickson e Roger, e diz que, na época dele, o Rickson foi indiscutivelmente o melhor.

O Fábio também explicou como conseguiu chegar tão perto da família. O Jacaré, segundo ele, começou garoto na academia do Carlson, foi para os Estados Unidos, conheceu o Rolls, voltou para treinar com ele e, depois da morte do Rolls, passou a treinar com o Rickson. Cresceu junto com Carlinhos e Crolin. Essa porta aberta é que permitiu ao aluno treinar com o Rickson anos depois.

O vestiário de 1991 e os seis meses com Carlson

O Fábio lutou no desafio de 1991 contra a luta livre, que ele chama de embrião da explosão nacional do jiu-jitsu, transmitido pela Globo. Ele contou que tinha 14 anos e acabara de começar a treinar quando foi ao evento do Maracanãzinho em que Marcelo Behring venceu Flávio Molina e Marco Ruas empatou com Pinduca. Saiu de lá encantado.

A história que ele conta no livro é a preleção de João Alberto Barreto, árbitro do evento de 1991, no vestiário do jiu-jitsu. Segundo o Fábio, o mestre disse aos atletas que eles representavam um legado de 70 anos e que dedo, olho, nariz ou braço quebrado virariam medalha no museu.

“O nosso corner não tem toalha. Ninguém vai salvar vocês. Boa sorte.”

João Alberto Barreto, no Connect Cast · 0:08:25

Para aquela luta, o Fábio passou seis meses treinando com o Carlson, que ele enfrentou como rival de academia a vida inteira. Treinou ao lado de Murilo, Libório e Zé Mário. Segundo ele, aquilo quebrou um pouco a rivalidade da época. E o Carlson passava uma confiança rara.

“Fábio, você não vai tomar nenhum tapa no rosto nessa luta.”

Carlson Gracie, no Connect Cast · 0:14:11

O Fábio disse que o Carlson acertou: ele saiu dali e foi jantar. Mas ele também explicou a crença por trás daquela confiança. Na cultura que o Hélio espalhou, quem passava de 80 quilos lutava com qualquer um, porque o Hélio, o Carlson e o Rickson também lutavam. Segundo o Fábio, isso funciona enquanto o conhecimento não se espalha. Um lutador de 80 quilos com 100% de jiu-jitsu contra um de 120 quilos com 80% vai sofrer, e por isso existe categoria de peso.

Mark Kerr e a pergunta sem resposta

Essa crença levou o Fábio a enfrentar Mark Kerr. Ele contou que o plano era uma revanche com Gerry Bohlander, com quem tinha perdido uma luta estranha no Ultimate. O americano chegou a vir ao Brasil fazer a promoção, mas não assinou o contrato. Com o treino feito, o Fábio pediu para entrar no torneio sem saber direito quem estava lá. Na reunião de regras, viu chegar o Kerr acompanhado do treinador de wrestlers de ponta. Os dois se encontraram na final.

Dias depois, o Kerr precisou de médico em São Paulo por causa de uma infecção na mão, e o Fábio indicou o dele. Segundo o Fábio, o americano foi à casa dele agradecer, viu a casa e o carro e perguntou por que ele tinha aguentado tanto tempo naquela luta. O Fábio respondeu que explicaria outra hora, porque o outro não ia entender nunca. Ele disse que 1997 marcou sua última luta de vale-tudo, aos 27 anos.

Do Rickson ao Gordon, e o jiu-jitsu que paga as contas

Perguntado sobre o domínio americano no sem kimono, o Fábio respondeu em duas palavras: Marcelo Garcia. Segundo ele, a academia de Marcelinho nos Estados Unidos, metade com kimono e metade sem, foi copiada por todos, e John Danaher e Eddie Bravo beberam dessa fonte. Para ele, tirando Gordon Ryan, que chama de atleta excepcional, esse domínio é mais propaganda bem feita. O Fábio lembrou que o Gordon é aluno da academia do Renzo e o único aluno do Danaher desde o zero.

A outra metade da conversa foi negócio. O Fábio contou que decidiu viver de jiu-jitsu aos 15 anos, quando já dava aula ao lado do Jacaré. Tentou ser o melhor lutador, depois o melhor professor, depois o melhor técnico, e percebeu que nada disso pagava as contas sem gestão. Foi buscar referência no mundo fitness. Hoje, segundo ele, a Alliance tem 300 escolas em 29 países e quer chegar a 500.

Por isso ele defende que academia não pode ser só equipe de competição. Ele disse que a Alliance ganhou 12 títulos mundiais por equipe e ainda assim a turma de competição é um horário entre centenas. Ele resume a filosofia numa frase que gostaria de ver no painel de todo professor.

“Metodologia ou morte.”

Fábio Gurgel, no Connect Cast · 1:40:26

Na lista dos grandes fora da família, o Fábio citou Marcelinho, Cobrinha, Rafael Mendes, Buchecha com 13 títulos mundiais, Leandro Lo e Xande Ribeiro. E fez questão de lembrar Carlinhos, que segundo ele tirou a pesagem da casa dele e transformou num campeonato mundial, talvez o maior feito do jiu-jitsu moderno.

O que fica da entrevista, para mim, é o contraste. O mesmo Fábio que bateu nove vezes para o Rickson e foi para o ringue sabendo que o corner não tinha toalha hoje fala em planilha, retenção de aluno e carreira depois dos 35. Ele mesmo explica a ligação: o jiu-jitsu ensina que quem errou precisa corrigir a rota, sem atalho, por mais tempo que leve.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.