Pular para o conteúdo

Equipe

Carlson Gracie Team: a história da academia contada pelos alunos

Da Rua Toneleros à Figueiredo Magalhães, o time que ganhou tudo por mais de uma década, rachou em 2000 e espalhou o jiu-jitsu pelo mundo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 6 min de leitura

Fundação
Primeira academia com Ivan Gomes nos anos 1960; Figueiredo Magalhães em 1972, segundo Vinicinho Cruz
Onde
Copacabana, Rio de Janeiro
Fundadores
Carlson Gracie, Ivan Gomes

Quase toda entrevista de jiu-jitsu que eu li passa, em algum momento, pela academia do Carlson Gracie em Copacabana. Gente que treinou lá, gente que apanhou de lá, gente que montou equipe só para bater aquele time. Juntei aqui o que os alunos e os rivais contaram, com o dono de cada história.

“A Carlson Gracie foi o melhor time de jiu-jitsu que existiu.”

Ricardo Libório, no Pura Connection · 0:09:38 · ler o artigo

Origem e fundação: da Toneleros à Figueiredo Magalhães

Sobre o motivo da saída do Carlson da academia da família, tem duas explicações. O Carlson Gracie Júnior contou que o conflito começou lá dentro: o Hélio queria limitar o que o Carlson ensinava aos alunos, e o Carlson também não recebia o que era dele. O Rodrigo Comprido contou de outro jeito: o Carlson saiu da academia do tio e do pai porque queria montar o melhor time do mundo. A briga com o Hélio tem página própria, em por que Hélio e Carlson brigaram.

Carlson Gracie com seu filho Carlson Gracie Júnior
Carlson Gracie e Carlson Júnior. A academia de Copacabana transformou o jiu-jitsu em esporte de massa e alta intensidade. (Wikimedia Commons)

A data também muda conforme quem conta. O Relson Gracie disse que, em vez da revanche depois do empate com Ivan Gomes, o Ivan veio para o Rio e abriu com o Carlson uma academia na Rua Toneleros, a primeira dele. O Júnior acredita, sem ter certeza, que foi em 1966. O Rosado confirmou que treinou nessa academia da Toneleros antes da mudança. Já o Vinicinho Cruz contou que o Carlson abriu a academia da Figueiredo Magalhães em 1972 com a ideia de formar um exército de competidores, baixando a mensalidade e dando bolsa.

Na Figueiredo Magalhães o Carlson dividiu prédio com o irmão Rolls. O Márcio Stambowsky lembrou a escala: segunda, quarta e sexta o Rolls dava aula na sala grande de cima e o Carlson nas pequenas de baixo; terça e quinta invertia. O Sérgio Bolão contou que, depois da morte do Rolls e da ida do Carlinhos para a Barra, o Carlson assumiu as duas salas. O Robert Drysdale foi até o número 414 da rua e encontrou o prédio fechado. Para ele, ali nasceu o jiu-jitsu que conquistou o mundo.

O jeito de treinar

Todo mundo descreve um treino duro, e cada um lembra de um detalhe. O Bolão falou em três rounds de 20 minutos com cinco de descanso. O Crézio de Souza disse que não se contava tempo: o rola ia até alguém pedir para parar, e pedir para parar era como bater. O Pinduca lembrou de atemi sem kimono, tapa na cara e exercício de dois contra um com o parceiro de luva. O Paulo Filho contou do treino de bloqueio, em que o aluno só podia se defender enquanto apanhava.

Tinha método nessa dureza. Segundo o Bolão, o Carlson dividia a turma em duas torcidas para acostumar o atleta à pressão de campeonato e a ouvir só a voz do mestre. O Pinduca contou que ele olhava o biotipo de cada aluno e decidia quem jogava por cima e quem jogava por baixo. E a graduação era segurada. O Júnior disse que só se subia de faixa quando havia vaga.

“O roxo do Carlson era a preta de atualmente.”

Sérgio Bolão, no Connect Cast · 0:58:08 · ler o artigo

Sobre quem dava a aula, as lembranças mudam com a época. O Pinduca foi assistente de 1976 a 1984, porque o Carlson apitava futebol profissional e viajava muito. Da geração seguinte, o Paulo Filho e o Crézio contaram que o Carlson quase não vestia mais o kimono e ficava olhando da recepção, com os faixas-pretas dando aula, mas continuava puxando os treinos. O Comprido citou o Juninho, o Marcelo Alonso e o Bolão no tatame, com o Carlson aparecendo perto de competição para ajustes que mudavam o jogo.

Quem fez a equipe

A lista de quem passou por lá é enorme, e tem página própria em alunos de Carlson Gracie. Nas entrevistas aparecem, de gerações diferentes, o Rosado, o Pinduca, o De La Riva, o Peixotinho, o Bolão, o Murilo Bustamante, o Libório, o Zé Mário, o Amaury Bitetti, o Wallid, o Vitor Belfort e o Paulo Filho.

Muitos chegaram sem dinheiro, e aqui as versões se completam. O Comprido disse que uns 80% dos alunos não pagavam. O Bebeo Duarte contou que o Carlson perguntava a porteiros de Copacabana se tinham filho e, se o menino fosse bom, não cobrava. O De La Riva lembrou que a academia cobrava joia e mensalidade, e que, sem ter como pagar, recebeu a proposta de ajudar nas aulas em troca do treino.

“Se hoje eu estou aqui com você, é por causa dessa ajuda, desse entendimento do Carlson.”

Ricardo De La Riva, no Pura Connection · 0:30:22 · ler o artigo

O resultado apareceu no quadro de medalhas. O Bolão contou que de 1982 a 1995 a academia não perdeu nenhum campeonato e ganhou o apelido de Barcelona do jiu-jitsu. O Fábio Gurgel, rival a vida toda, disse que 1985 foi o último campeonato vencido pela academia Gracie e que depois o Carlson teve uns 15 anos de hegemonia. Segundo o Muzio De Angelis, a Alliance nasceu no fim de 1993 justamente para enfrentar a equipe do Carlson.

“Lá no Carlson era como a natação americana: você era o melhor numa fase, mas pegava uma gripe e o segundo já passava a ser o melhor.”

Rosado, no Pura Connection · 0:08:09 · ler o artigo

Vale-tudo e Estados Unidos

O Zé Mário disse que o Carlson estava à frente do seu tempo e fazia os alunos treinarem com tapa desde criança, o que deu vantagem à equipe quando o MMA surgiu. O Bebeo contou que, depois do vale-tudo de 1991 contra a luta livre, a turma nunca mais parou de treinar sem kimono. O Crézio situou o começo em outro momento: o desafio que o Wallid fez à luta livre num programa de televisão.

Nos anos 1990 o Carlson foi para os Estados Unidos. O Júnior contou que o pai já estava lá com o Vitor Belfort em 1995, e que ele mesmo abriu uma academia em Chicago no fim de 1996, que chegou a 200 alunos em quatro meses. O Comprido morou 2 anos e 4 meses com o Carlson em Los Angeles, numa academia que, segundo ele, foi financiada pelo produtor John Peters.

O racha de 2000

O Bebeo contou que, antes da ruptura, os alunos formaram o Carlson Gracie Clube, com seletivas para montar times, e elegeram o Murilo presidente. Em 2000, segundo ele, o Carlson expulsou todos os alunos daquela geração, e eles montaram a Brazilian Top Team.

“O Carlson não nos deu outra opção.”

Bebeo Duarte, no Pura Connection · 1:28:33 · ler o artigo

Do lado de quem ficou, as lembranças não batem em um ponto. O Crézio Chaves disse que, quando os alunos abandonaram o Carlson, o único que ficou foi o filho dele, o Crézio de Souza. O próprio Crézio contou que o Murilo e o Zé Mário o avisaram da saída e que ele decidiu ficar com o mestre. Mas o Vinicinho também contou que ficou para defender a bandeira, e o Raphael Abi-Rihan, faixa-marrom na época, disse o mesmo.

Onde está hoje e o que as entrevistas revelam

O Júnior contou que o pai passou os últimos tempos com ele em Chicago, deu aula na academia do filho e foi homenageado pela cidade quando morreu. Hoje é o Júnior quem cuida da marca Carlson Gracie, e o Vinicinho e o Comprido elogiaram o trabalho dele na expansão.

O que mais me chama atenção é quanta gente vê ali o começo do jiu-jitsu de hoje. O Drysdale disse que o treino em grupo e a cultura de praia, com açaí depois do rola, nasceram na Figueiredo Magalhães, numa época em que a academia Gracie era de aula particular.

“O jiu-jitsu que nós praticamos é o jiu-jitsu do Carlson.”

Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:44:24 · ler o artigo

Para ir mais fundo, vale ouvir o Bolão sobre a Barcelona do jiu-jitsu, o Bebeo sobre o racha e o Júnior sobre a briga com o Hélio. As lutas do mestre estão em Carlson x Waldemar Santana e Pinduca x Marco Ruas.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.