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Pura Connection · Sérgio Bolão

Sérgio Bolão lembra a academia de Carlson Gracie, a Barcelona do jiu-jitsu

O faixa-coral que saiu de Manaus para estudar direito no Rio conta como foi parar no tatame do Carlson e virou um dos primeiros atletas patrocinados do jiu-jitsu.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 16 jan 2023 (1:20:40).

Sérgio Bolão veio de Manaus para o Rio de Janeiro com a ideia de fazer direito. Acabou na academia de Carlson Gracie, virou um dos guardeiros mais temidos dos anos 80 e hoje é faixa-coral. No Pura Connection, ele contou como era aquele tatame de Copacabana e por que considera o Carlson o homem que mudou o jiu-jitsu.

“O Carlson foi o divisor de águas.”

Sérgio Bolão, no Pura Connection · 0:11:45

Assisti à conversa e o Bolão é daqueles entrevistados que contam história rindo. Mas por trás das piadas tem muita coisa sobre como se formava um competidor numa época sem pesagem organizada, sem vídeo do adversário e sem lanche na mochila.

De Manaus para a Figueiredo de Magalhães

O Bolão diz que foi o primeiro de Manaus a ser campeão carioca e brasileiro no Rio. Em Manaus ele já tinha treinado com um grupo de amigos, guiado por um faixa-roxa que vinha ao Rio fazer intercâmbio e voltava para ensinar. Ele lembra que a primeira aula foi numa garagem e que o professor apagou a luz no meio do treino.

No Rio, ele morava na Santa Clara, do lado da Figueiredo de Magalhães, rua que ele chama de rua dos lutadores. Segundo ele, Pinduca, Peixotinho e Paulo Caruso circulavam por ali. Num jogo de futebol, conheceu o Júnior, filho do Carlson, que o chamava de Manaus e o levou até a academia do pai.

O primeiro treino foi com Clóvis, um amigo. O Bolão conta que foi finalizado cinco vezes no braço em menos de dois minutos. A reação dele foi a de quem nasceu para aquilo.

“É aqui mesmo que eu vou ficar. Não vou sair daqui não.”

Sérgio Bolão, no Pura Connection · 0:15:59

Dois tatames e um técnico que parecia psicólogo

A primeira coisa que o Bolão estranhou na academia do Carlson foram os dois tatames. Um era para aula e o outro, para a turma de competição, onde o Carlson ficava. Só depois ele entendeu a lógica. Era ali, no tatame do lado, que o mestre fazia os últimos ajustes na posição de cada um, como numa linha de montagem de fábrica.

Segundo o Bolão, depois da morte de Rolls e da saída do Carlinhos para a Barra, o Carlson juntou os alunos e montou um time de competição muito forte. Ele diz que de 1982 a 1995 a equipe não perdeu nenhum campeonato e que a academia ganhou o apelido de Barcelona do jiu-jitsu. Os treinos eram de três rounds de 20 minutos, com cinco de descanso entre eles.

O que mais me divertiu foi o lado psicólogo do Carlson. O Bolão conta que, nos treinos, ele dividia a turma: metade torcia para o Bolão, metade para o adversário. Era para o atleta aprender a lutar com gente gritando contra e, no meio da barulheira, conseguir ouvir só a voz do mestre. Ele diz também que o Carlson abria a porta para todo mundo, e cita o repórter Marcelo Alonso para dizer que o mestre foi quem unificou a turma.

Nessa sala, o parâmetro dele era quem finalizava mais. Ele cita o Libório como um dos que mais pegavam no braço e raspavam. E lembra de rivais pesados daquela geração, como o Pinduca, que segundo ele merecia uma homenagem da confederação.

O guardeiro que gritava depois da raspagem

O primeiro campeonato do Bolão, ainda na faixa-azul, foi em Niterói, por volta de 1981 ou 1982. Ele foi com um copo de leite e uma maçã na barriga, porque precisava pesar. A primeira luta foi às 11 horas e a última, às seis da tarde. Perdeu para um meio-triângulo que, segundo ele, nem estava encaixado. Ficou bravo e aprendeu.

Depois vieram as vitórias. O Bolão diz que lutou com Fábio Gurgel, Léo Castelo Branco e Jean Jacques Machado, entre outros. Quando recebeu a faixa-coral, o Carlinhos mandou uma declaração e o Fábio disse a ele que tinha treinado muito para conseguir ganhar dele. O Bolão guarda isso com orgulho.

“Eu tinha uma raspagem clássica. Raspava todo mundo, da azul à preta.”

Sérgio Bolão, no Pura Connection · 0:46:48

E depois de cada raspagem vinha um gritinho de comemoração. Ele mesmo admite que hoje seria desclassificado. Outra história boa é a de uma luta em que ele deu um triângulo e o técnico do adversário mandou o aluno levantar e bater com ele no chão. O Bolão soltou o ar dos pulmões antes do impacto, fechou o triângulo quando caiu e finalizou.

“Soltei o ar, porque se eu for com ar no pulmão, vou desmaiar.”

Sérgio Bolão, no Pura Connection · 0:52:04

Patrocínio, direito e Estados Unidos

Numa época em que o surfe e o jiu-jitsu andavam juntos, o Bolão pegou a medalha e foi bater na porta de uma loja de roupa, a Lightning Bolt. Primeiro ganhou a inscrição do campeonato, depois dez peças de roupa por mês e, por fim, um salário. Segundo ele, foi também o primeiro atleta patrocinado pela Bad Boy, antes de Amaury e Wallid. Entre 1982 e 1990, diz, já tinha até restaurante bancando a comida.

O direito ficou pelo caminho. Ele fez três anos de faculdade e chegou a estagiar no tribunal levado por um tio desembargador, mas brinca que parecia mais segurança do que advogado. Anos depois morou três anos nos Estados Unidos e, segundo ele, em 2006 criou lá um trabalho que chamou de Personal Fight, misturando artes marciais e preparação física, já que também é professor de educação física.

O que fica da conversa

O Bolão fecha falando de família. Diz que se sente melhor no tatame do que em casa, e que a turma da academia é a família dele. Também defende que o jiu-jitsu ensinado lá fora mantenha os nomes das posições em português, como o judô fez com o japonês. Saí da entrevista com a sensação de ter ouvido alguém que ainda carrega o tatame do Carlson dentro dele: competitivo, brincalhão e grato a quem abriu o caminho.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.