Pura Connection · Ricardo De La Riva
Ricardo De La Riva conta por que tinha vergonha de dizer guarda De La Riva
O mestre fala da briga que o levou ao tatame, dos anos na academia de Carlson Gracie e do gancho que virou nome de guarda no mundo todo.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 mar 2022 (1:14:36).
A guarda que leva o nome dele é ensinada do Japão aos Estados Unidos, mas o Ricardo De La Riva passou anos sem conseguir chamá-la assim. Nos seminários, dizia só "o gancho", aquele que entra de fora para dentro. Segundo ele, tinha vergonha, achava que ia parecer que estava se achando demais.
Assisti a essa conversa no Pura Connection e ela tem um tom diferente das outras, porque o apresentador recebeu a faixa-roxa das mãos do De La Riva. É uma conversa de aluno com mestre, e o mestre fala de dinheiro curto, de pai bravo e do Carlson Gracie com um carinho que dá gosto de ouvir.
“Eu tinha vergonha de falar, parecia que eu tava me achando demais.”
Ricardo De La Riva, no Pura Connection · 0:47:13
Uma briga que não aconteceu
Tudo começou numa pelada na praia de Copacabana. O De La Riva contou que um grupo chegou querendo jogar com ele e os irmãos, a coisa esquentou e eles saíram correndo com a bola debaixo do braço. Em casa, o pai, espanhol, quase bateu neles por terem fugido. A regra dele era clara: não se foge de briga, nem que sejam dez. E a solução foi matricular os filhos numa academia de luta.
O menino queria kung fu, por causa da série do gafanhoto que passava na TV. Foi um funcionário do pai que conhecia jiu-jitsu e sugeriu a troca. Os irmãos, mais velhos, foram primeiro e voltaram empolgados. Ele, que fez 15 anos naquele mesmo janeiro, estava apavorado e só foi na segunda aula. Nunca mais parou.
O curioso é o fim da história. Segundo ele, naquele janeiro completou 42 anos de jiu-jitsu e nunca usou a luta numa briga de rua.
“Eu nunca consegui usar o jiu-jitsu em uma briga na minha vida. Então você vê como é bom.”
Ricardo De La Riva, no Pura Connection · 0:09:14
Bolsista na academia de Carlson
O primeiro professor foi Marcos Soares, então faixa-marrom, que dava aula no terraço de casa em Copacabana. O De La Riva começou em janeiro e em julho já era faixa-amarela. Quando quis lutar o Estadual, o Marcos explicou que a academia dele não era filiada e levou o garoto para a academia do Carlson. Depois de dois treinos, segundo o De La Riva, o Carlson o mandou lutar de faixa-azul. Ele venceu.
Aí veio o problema do dinheiro. A academia do Carlson cobrava joia, como clube, e mensalidade, e a família não tinha como pagar. A saída que o Carlson encontrou foi uma troca: o De La Riva ajudaria nas aulas e treinaria de graça. Assim ele começou a dar aula aos 18 anos, ainda faixa-azul, para crianças e para uma turma feminina. Na roxa já ajudava com os adultos, e na marrom tocava turma sozinho.
Ele descreve o Carlson como bruto, lutador, mas amoroso. Lembra do pão de queijo e do refresco de maracujá cheio de açúcar, e do medo de ouvir que estava tudo errado quando o Carlson entrava na sala no meio da aula. Até hoje, diz, quando ensina uma posição do jeito que aprendeu com ele, não aceita discussão: o Carlson mostrou assim e sempre deu certo.
“Se hoje eu estou aqui com você, é por causa dessa ajuda, desse entendimento do Carlson.”
Ricardo De La Riva, no Pura Connection · 0:30:22
Pequeno no meio dos cascas-grossas
O De La Riva era leve numa academia famosa pelos pesados. Ele cita nomes como Carlão Barreto, Zé Mário e Murilo Bustamante. As regras do treino, segundo ele, não estavam escritas: não se pedia para parar em posição ruim, e entregar o braço para acabar com o treino não resolvia, porque o outro continuava. O teste dele era a escada da academia. Se chegasse lá em cima sem a perna queimar, estava pronto para enfrentar uns quatro leões.
A melhor história é com o Murilo. Um dia o Carlson mandou todo mundo parar para assistir ao treino dos dois. Foi, nas palavras dele, uma porradaria daquelas, e ele guarda aquele dia com emoção. Ele pegou a faixa-preta e, segundo ele, o Murilo pegou logo depois. Foi também na academia do Carlson que teve alunos como Ricardo Libório. Em 1986, quando recebeu a preta, já tinha academia própria.
Enquanto isso, brigava em casa. Fez um ano de engenharia para agradar o pai, trocou para educação física e, segundo ele, quase foi expulso de casa. Pagava a condução até a UFRJ com as aulas particulares que dava na academia do Carlson.
O gancho, os Minotauros e a ajuda invisível
Sobre a guarda, o De La Riva divide o mérito com todo mundo que treinou com ele. Diz que começou a botar o pé numa posição, alguém reclamou que aquilo atrapalhava e ele foi desenvolvendo. Há uns 20 anos ouviu, na beira de um tatame, um professor avisar o aluno para tomar cuidado com o gancho De La Riva. Só uns 17 ou 18 anos atrás, contou, passou a usar o nome nas aulas e palestras.
Ele competiu pouco, quatro ou cinco campeonatos, porque cedo precisou viver da academia e cuidar dos alunos. Um deles foi o Minotauro, que o chamou para ser seu técnico. O De La Riva lembra que os irmãos juntavam moeda para pôr gasolina no carro e ir treinar com ele. E conta, emocionado, que o Rogério pediu licença para citá-lo num livro. É isso que ele chama de ajuda invisível: o reconhecimento que ninguém vê.
Quase aos 60 anos, depois de sete meses de academia fechada na pandemia, ele contou que pensou em fechar as portas e que foi o filho, de 22 anos, quem disse que ele não podia desistir. Voltou a dar seminários e diz que o jiu-jitsu continua crescendo, e ele junto: vai ter que treinar e estudar mais para não ficar para trás. Para quem tem uma guarda com o próprio nome, é uma frase e tanto.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.