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Pura Connection · Vinícius Cruz

Vinicinho Cruz conta como Carlson Gracie formou um exército de campeões

O peso-galo que ficou com o mestre no racha de 2000 fala da academia da Figueiredo Magalhães, da depressão e do jiu-jitsu nos Emirados.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 29 ago 2022 (1:20:28).

Quando se fala da academia de Carlson Gracie, o Vinicinho Cruz fala como quem ainda não saiu de lá. Na conversa com o André no Pura Connection, ele descreveu o mestre como um gênio da luta que conseguia montar um time que, segundo ele, não vai existir de novo.

“Você pode procurar as outras equipes em qualquer lugar do mundo, mas igual aquela ali não vai existir.”

Vinícius Cruz, no Pura Connection · 0:14:48

Assisti ao episódio e o que me pegou foi a mistura. O Vinicinho conta a história da academia da Figueiredo Magalhães, mas também fala da perda do pai, de uma depressão e de como o jiu-jitsu virou matéria nas escolas públicas dos Emirados Árabes, onde ele vive e dá aula.

Do taekwondo do tio ao primeiro tombo

O Vinicinho começou no judô com 5 ou 6 anos, no condomínio onde morava. Quem o inspirou foi o tio Marcos, faixa-preta de taekwondo, que morou um tempo na casa dele. Ele disse que queria ser igual ao tio.

Depois veio o muay thai com o professor Wagner Coelho, que, segundo ele, o tratava como segundo filho e o levava junto para dar aula desde os 10 anos. O jiu-jitsu entrou por causa de uma discussão na escola. Um amigo, Alessandro, que já treinava, disse que jiu-jitsu era melhor que boxe. Os dois foram tirar a prova e o Vinicinho foi para o chão na primeira mão que tentou dar. Tentou de novo e aconteceu a mesma coisa.

Um amigo o levou para treinar com o Manimal. No primeiro dia em que segurou um quimono, contou ele, se apaixonou. Isso foi há 36 anos.

O gênio da Figueiredo Magalhães

O Vinicinho contou que chegou de vez à academia do Carlson em 1989, com 16 ou 17 anos. Nessa época o Carlson já não tinha turma própria, mas estava no tatame todos os dias corrigindo e falando de campeonato.

Segundo ele, o Carlson abriu a academia da Figueiredo Magalhães em 1972 com uma ideia fixa: formar um exército de competidores. Baixou a mensalidade e deu bolsa para muita gente, porque o objetivo era ganhar campeonato. Nos anos 80, contou o Vinicinho, a academia ganhava da faixa-branca à preta, do galo ao pesadíssimo.

Ele lembrou que via De La Riva, Murilo e Libório quebrando a cabeça numa posição e o Carlson resolvendo em dois minutos, com três movimentos. Ao mesmo tempo, era um homem com um lado infantil, sem maldade, que tirava a roupa do corpo para dar e deixava os meninos dormirem no tatame.

“Ele era grosso, estúpido às vezes, e você amava ele mesmo assim, porque sentia que aquilo ali não tinha maldade.”

Vinícius Cruz, no Pura Connection · 0:13:46

O Vinicinho também contou que o Carlson dizia que nunca treinaria um atleta para sair no soco com um Gracie, mas que no jiu-jitsu esportivo queria ganhar de todo mundo. E sabia tirar o melhor de cada aluno. O exemplo que ele deu foi o de Wallid, que segundo ele não era um primor de técnica, mas acreditava tanto no Carlson que virou um dos maiores competidores da academia. Às vezes o mestre parava o treino, sentava todo mundo e colocava um aluno no meio para rolar com um atrás do outro, só para ver como ele se comportava sendo observado.

O racha de 2000 e o tíquete de café do Carlinhos

Em 2000 veio o racha que deu origem à BTT. O Vinicinho decidiu ficar para defender a bandeira do Carlson e contou que isso doeu muito, porque de uma hora para outra perdeu o convívio diário com os ídolos com quem treinava desde a faixa-laranja.

Ele também falou com carinho de Carlinhos Gracie, rival na época. Contou que, no Pan-Americano de 1996, o pai tinha acabado de morrer e ele estava sem dinheiro. Conseguiu a passagem parcelada, dormiu num colchão no quarto dos colegas e, no café da manhã, não tinha o tíquete do hotel. O Carlinhos tirou um pacote de tíquetes do bolso e deu para ele.

Segundo o Vinicinho, quando eles ainda eram garotos e iam se pesar na casa do Carlinhos, ouviram dele que o jiu-jitsu ia estar no mundo inteiro e que, se quisessem, poderiam viver como professores. Ele disse que na época achou graça. Hoje chama o Carlinhos de visionário.

A perda do pai, a depressão e os Emirados

O Vinicinho perdeu o pai aos 18 anos e disse que foi o jiu-jitsu que o segurou. Por isso sente que tem uma dívida com a arte e quer ensinar o máximo de pessoas que puder.

“Eu podia ter feito centenas de besteiras na minha vida, mas não fiz porque estava treinando.”

Vinícius Cruz, no Pura Connection · 0:36:41

Ele também contou que passou por uma depressão depois de um divórcio. Disse que começou a se esconder e percebeu que os próprios comportamentos o colocavam naquele lugar. A filha foi o que o tirou do buraco. Hoje, antes de tomar uma decisão, ele se pergunta se teria vergonha de contar aquilo para ela.

Há oito anos nos Emirados Árabes, ele contou como o jiu-jitsu entrou nas escolas de lá. Segundo o Vinicinho, tudo começou com uma criança tímida, filha de um sheik, que ganhou confiança e disciplina no tatame. O pai decidiu que queria aquilo para todas as crianças do país. Hoje o projeto está nas escolas públicas e nas bases militares, onde o cadete precisa passar numa prova de jiu-jitsu para subir de patente.

Um aluno de 9 anos perguntou a ele há pouco tempo como fazia para ser igual a ele. O Vinicinho disse que sentiu o círculo se fechar, porque tinha mais ou menos aquela idade quando começou. É isso que fica da conversa: a história de um peso-galo que nunca se viu como grande campeão, mas que carrega a escola do Carlson para o outro lado do mundo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.