Connect Cast · Robert Drysdale
Robert Drysdale: o jiu-jitsu brasileiro é judô, e Maeda é nota de rodapé
O faixa-preta e pesquisador defende que os Gracie praticavam judô, aponta Jacyntho Ferro como professor de Carlos e diz que Carlson criou o jiu-jitsu que treinamos hoje.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 2 jan 2025 (3:20:28).
O jiu-jitsu que a gente treina hoje é filho direto do judô, e quem diz o contrário, segundo Robert Drysdale, não tem documento para mostrar. Foi essa a tese central de uma conversa de mais de três horas no Connect Cast, com o apresentador Alexandre, que passou por Carlos e Hélio Gracie, pelo Carlson, pelo UFC e até pelo Daguestão.
Assisti à entrevista inteira. O Robert nasceu nos Estados Unidos, cresceu no interior de São Paulo e descobriu o jiu-jitsu aos 16 anos, depois de alugar uma fita do UFC e ver Royce Gracie finalizar Dan Severn no triângulo. Virou campeão mundial, ganhou o ADCC, mora em Las Vegas há 17 anos e escreveu dois livros sobre a história da arte. Fala como pesquisador: cobra fonte de tudo e não alivia para ninguém.
“O que nós fazemos é judô brasileiro.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:35:30
Por que os Gracie mantiveram o nome jiu-jitsu
Segundo o Robert, Carlos e Hélio aprenderam judô da Kodokan e insistiram num termo antigo, que o mundo já tinha deixado de lado, para se diferenciar da federação de judô da época. Ele contou que as primeiras levas de japoneses que saíram do Japão ainda falavam jiu-jitsu, palavra que o próprio Jigoro Kano usava no começo. As levas seguintes chegaram ao Brasil com o nome moderno, judô, e a família Gracie bateu de frente.
Para ele, o motivo foi a vontade de montar uma hierarquia nova, com Carlos e Hélio no topo. E ele não vê problema nenhum nisso. Na visão do Robert, ambição é coisa boa enquanto for ética.
“O ponto de partida da história do Brasil é a ambição do Carlos.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:38:36
Ele também lembrou que, antes do judô, a palavra jujutsu era vaga, algo como dizer arte marcial. Contou que uma vez visitou uma academia de jujutsu na Suécia e o que ensinavam lá era a tirar a espada da bainha. E citou um livro de 1674, de um professor holandês chamado Petter, que conheceu pelo trabalho do pesquisador Roberto Pedreira. Segundo o Robert, ali já aparecem posições que hoje estão no currículo da Kodokan. A luta agarrada sempre existiu, resumiu.
As regras contam a história
A parte que mais me prendeu foi quando ele usou as regras para mostrar a separação. Segundo o Robert, até a metade dos anos 1960 os Gracie ainda eram judocas, e a diferenciação de verdade acontece nos anos 1970.
Ele começou pelas lutas de Hélio com Yasuichi Ono. Na primeira, contou, Ono derrubou Hélio 32 vezes; na segunda, 27. Antes das lutas houve briga pelas regras: Ono queria a pontuação do judô e manga longa, Hélio e Carlos queriam luta sem pontos, sem tempo e com manga curta. Para o Robert, quem é derrubado 32 vezes está tentando lutar em pé, e não puxando para a guarda. Contra Kimura, lembrou, Hélio também trocou em pé.
Depois vieram os regulamentos. No torneio interno da academia Gracie de 1954, segundo ele, ainda existiam o ippon, o waza-ari e os 30 segundos de imobilização do judô, mas já havia ponto para montada e para pegada de costas. Em 1967, no manual da federação da Guanabara, saem o waza-ari e a imobilização. Em 1975 vem o que ele chamou de pulo do gato: montada e costas passam a valer quatro pontos, mais que a queda, e a imobilização que antes dava ponto vira punição. Quando você premia uma posição, disse o Robert, o competidor se especializa nela.
Carlson, o ponto de virada
“O jiu-jitsu que nós praticamos é o jiu-jitsu do Carlson.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:44:24
O Robert contou que achou uma pérola relendo o primeiro livro: numa entrevista, Carlinhos Gracie diz que antes do irmão Carlson não existiam aulas em grupo no jiu-jitsu. Para ele, isso muda tudo, porque sem competição não há evolução. Segundo o Robert, Carlson tinha plena consciência de que estava criando algo novo e costumava dizer para não confundirem Gracie jiu-jitsu com Carlson Gracie jiu-jitsu.
Ele também credita à academia da Figueiredo de Magalhães, e não à academia Gracie, a cultura que o mundo associa ao jiu-jitsu: treino em grupo, açaí depois do rola, zoação e camaradagem. A academia Gracie, segundo ele, era de aula particular e defesa pessoal para a elite. No resumo do Robert, Carlson criou a receita do bolo, e a Confederação, com Carlinhos e companhia, construiu o forno para o bolo crescer.
Outra ideia que ele atribui ao Carlson é a de que o vale-tudo seria a forma de vender o jiu-jitsu ao mundo. O Robert lembrou que Rorion se mudou para os Estados Unidos em 1978 ou 1979 e só criou o UFC em 1993. No meio disso, em 1991, o vale-tudo passou na Rede Globo. A leitura dele é que Rorion pode ter se convencido ali, e acrescentou que Rorion vendeu o UFC por 1 milhão de dólares. Ainda assim, fez questão de dizer que todo mundo que vive de jiu-jitsu deve gratidão a ele.
Maeda, Jacyntho Ferro e a pergunta sobre o professor de Carlos
Aqui o Robert mexeu num vespeiro. Ele citou palavras do próprio Hélio: nunca tinha ouvido falar em jiu-jitsu antes da luta do irmão Carlos com Geo Omori, em 1929. Sobre a relação de Carlos com Mitsuyo Maeda, disse que é especulativa e que não existe evidência. O único testemunho quase convincente que não vem de Carlos ou do irmão Oswaldo, segundo ele, é o de Takeo Yano, de 1979. Só que Yano chegou ao Brasil em 1934, muitos anos depois dos fatos.
O professor de Carlos, segundo o Robert, foi Jacyntho Ferro, um dos cinco alunos de Maeda no Brasil e o mais conhecido deles, citado nos jornais como mestre de Carlos. Ele disse não entender o incômodo que isso causa em alguns brasileiros, já que o professor de Carlos teria sido outro brasileiro. E ressaltou que nunca questionou o papel de Carlos como ponto de partida do jiu-jitsu brasileiro.
“O Conde Koma é uma nota de rodapé na história do jiu-jitsu no Brasil.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 3:01:31
Ele ainda comentou que até a linhagem de Oswaldo Fadda leva de volta aos Gracie, já que os registros apontam o professor dele, Luiz França, como aluno da academia Gracie. E disse que a história de que o jiu-jitsu veio da Índia, presente no manual da federação da Guanabara, não tem fonte primária.
Quarenta anos na sombra
Quem acusa o Robert de ser contra os Gracie deveria ouvir o final da conversa. Para ele, a maior contribuição de Carlos e Hélio foi social e política, e a mais impressionante de todas foi a resistência: segundo o Robert, eles passaram cerca de 40 anos na obscuridade, da luta com Kimura até o Royce, à sombra do kung fu, do karatê e do judô, repetindo que ia dar certo.
Ele também lembrou de nomes que o marketing deixou para trás, como Ivan Gomes, que chamou de Jon Jones da sua época, e Euclides Pereira, que segundo ele foi o único a vencer Carlson. Citou ainda Pascoal Segreto, promotor de eventos nos anos 1930, que comparou a um Dana White daquele tempo. Na visão dele, se Ivan Gomes tivesse tido um Rorion, talvez fosse o maior nome de todos os tempos.
O que fica da entrevista, para mim, é o recado que ele deu para a comunidade: pendurar a foto de Carlos, Hélio e Maeda na parede é fácil. Conhecer a história dá trabalho.
“Tem que honrar, mas honra conhecendo, honra estudando.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 1:06:44
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.