Pergunta
Jiu-jitsu brasileiro e judô são a mesma luta?
Pedro Valente diz que judô é jiu-jitsu com outro nome. Robert Drysdale diz que o que a gente faz é judô brasileiro. As regras contam o resto.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 3 min de leitura
Resposta curta
Têm a mesma raiz. Jigoro Kano fundou a Kodokan em 1882 a partir de estilos de jujutsu, e os Gracie aprenderam com gente saída dessa escola. A separação veio pelas regras: segundo Robert Drysdale, até os anos 1960 os Gracie ainda eram judocas, e só em 1975 a pontuação passou a premiar montada e costas acima da queda.
Essa pergunta aparece em toda conversa de academia, e as entrevistas mostram duas leituras que parecem opostas, mas chegam perto uma da outra. Uma diz que judô é jiu-jitsu com nome novo. A outra diz que o jiu-jitsu brasileiro é filho do judô. As duas concordam num ponto: a origem é a mesma.
O que Jigoro Kano fez
Segundo o judoca olímpico Oswaldo Simões, Jigoro Kano criou o judô e a Kodokan em 1882, juntando técnicas de dois estilos de jujutsu, com a ideia de vencer sem machucar o adversário. O Pedro Valente conta a mesma data e acrescenta que Kano trocou o nome porque a palavra jitsu estava mal vista no Japão, e que foi ele quem introduziu a faixa-preta e as faixas coloridas.
“O Jigoro Kano simplesmente deu um novo nome para aquilo que já existia.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 0:09:57 · ler o artigo
Para o Pedro, a mudança de verdade veio das regras. Kano, influenciado pelo wrestling europeu, passou a dar vitória por queda e por imobilização. E quando o aluno treina para ganhar dentro de uma regra, a luta muda com o tempo.
A versão do judô brasileiro
O pesquisador Robert Drysdale olha pelo outro lado. Segundo ele, Carlos e Hélio Gracie aprenderam judô da Kodokan e mantiveram o nome jiu-jitsu para se diferenciar da federação oficial e criar uma hierarquia própria, com eles no topo.
“O que nós fazemos é judô brasileiro.”
Robert Drysdale, no Connect Cast · 0:35:30 · ler o artigo
O Pedro Valente conta a briga pelo nome do lado dos Gracie: os irmãos aceitavam chamar de judô se tivessem o controle da federação e das regras. Como isso não foi permitido, ficaram com jiu-jitsu. O Robert lembra que a rixa com o judô vem desde a década de 1930.
Onde as regras separaram as duas lutas
A parte mais concreta vem do Robert, que foi atrás dos regulamentos. No torneio interno da academia Gracie de 1954 ainda existiam o ippon, o waza-ari e os 30 segundos de imobilização do judô, mas já havia ponto para montada e pegada de costas. Em 1967, no manual da federação da Guanabara, saem o waza-ari e a imobilização. Em 1975, montada e costas passam a valer quatro pontos, mais que a queda, e a imobilização vira punição. Para ele, é aí que a diferença aparece de verdade. Quem quiser os detalhes pode ler quem criou as regras de pontos.
As lutas antigas mostram o mesmo. Segundo o Robert, nas duas lutas de Hélio com Yasuichi Ono, o japonês queria a pontuação do judô e manga longa, e os Gracie queriam luta sem pontos, sem tempo e com manga curta. O Pedro Valente ainda lembra que Hélio foi o primeiro brasileiro a receber a faixa-preta de judô, dada por uma federação de São Paulo pelos resultados contra japoneses.
O que ficou diferente no tatame
Quem viveu os dois lados é o Flávio Canto, medalhista olímpico que passou a juventude rolando com a turma do jiu-jitsu no Rio. Para ele, as duas lutas têm praticamente as mesmas técnicas, e cada uma abre mão de metade delas por causa da regra.
“A regra do judô permite que um cara ruim de chão seja medalhista olímpico. Da mesma maneira, a regra do jiu-jitsu permite que um cara muito ruim em pé seja campeão mundial.”
Flávio Canto, no Pura Connection · 0:21:04 · ler o artigo
O Flávio contou que ganhou muita luta de jiu-jitsu só com queda, e que o chão que ele encontrava no judô do Japão não chegava perto do chão do jiu-jitsu no Brasil. O Oswaldo Simões fecha de um jeito que eu gosto: o judô foi para o lado olímpico, e o jiu-jitsu cresceu em cima da defesa pessoal e do desafio.
As conversas completas estão em a entrevista do Robert Drysdale, a do Pedro Valente e a do Flávio Canto.
O que foi contado
Segundo Oswaldo Simões, Jigoro Kano criou o judô e o Kodokan em 1882, juntando técnicas de dois estilos de jujutsu, com a ideia de vencer sem lesar o adversário.
Contado por Oswaldo Simões no Pura Connection · 0:23:00 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Jigoro Kano nasceu em 1860, começou a treinar jiu-jitsu na adolescência e fundou a Kodokan em 1882, quando era aluno da Universidade de Tóquio.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:18:20 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Jigoro Kano criou o judô como um método de ensino do jiu-jitsu, trocou o nome porque o termo jitsu estava mal visto no Japão e introduziu a faixa-preta e as faixas coloridas.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 1:06:55 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Jigoro Kano criou regras de vitória por queda e por imobilização influenciado pelo wrestling europeu, que conheceu por ter morado na Europa e lido livros em inglês e alemão.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:23:05 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, Carlos e Hélio Gracie aprenderam judô da Kodokan e mantiveram o termo jiu-jitsu para se distinguir do judô oficial e criar uma hierarquia própria, com eles no topo.
Com Hélio Gracie, Jigoro KanoContado por Robert Drysdale no Connect Cast · 0:35:30 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, os irmãos Gracie aceitavam usar o nome judô se tivessem o controle da federação e das regras; como isso não foi permitido, continuaram com o nome jiu-jitsu.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:40:55 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, a ambição de Carlos Gracie era criar um espaço para ele e a família fora da hierarquia do judô, e os Gracie brigavam com o judô desde a década de 1930.
Contado por Robert Drysdale no Pura Connection · 1:11:35 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, a regra do torneio interno da academia Gracie em 1954 ainda tinha ippon, waza-ari e 30 segundos de imobilização (osaekomi), além de pontos para montada e pegada de costas.
Com Hélio GracieContado por Robert Drysdale no Connect Cast · 0:41:47 · ler o artigoRobert Drysdale contou que em 1967, no manual da federação da Guanabara, o waza-ari e a imobilização foram removidos das regras do jiu-jitsu.
Com Hélio GracieContado por Robert Drysdale no Connect Cast · 0:42:19 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, em 1975 a montada e a pegada de costas passaram a valer quatro pontos, mais que a queda, e a imobilização, que valia ponto em 1954, virou punição.
Com Hélio GracieContado por Robert Drysdale no Connect Cast · 0:43:22 · ler o artigoSegundo Robert Drysdale, Yasuichi Ono derrubou Hélio Gracie 32 vezes na primeira luta e 27 na segunda. Antes das lutas, Ono queria a pontuação do judô e manga longa, enquanto Hélio e Carlos queriam luta sem pontos, sem tempo e com manga curta.
Com Ono, Carlos GracieContado por Robert Drysdale no Connect Cast · 0:41:15 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Hélio Gracie foi o primeiro brasileiro a receber a faixa-preta de judô, dada pela Jendo, federação de lutas japonesas de São Paulo, pelos resultados contra faixas-pretas japoneses como Kimura.
Contado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:44:27 · ler o artigoSegundo Flávio Canto, ele ganhou muitas lutas de jiu-jitsu só com quedas, inclusive contra adversários com jiu-jitsu melhor que o dele.
Contado por Flávio Canto no Pura Connection · 0:20:03 · ler o artigoSegundo Flávio Canto, o chão que ele encontrava no judô do Japão não estava à altura do chão do jiu-jitsu no Brasil.
Contado por Flávio Canto no Pura Connection · 0:58:09 · ler o artigoSegundo Vinicio Antony, Carlos Gracie aprendeu jiu-jitsu com Mitsuyo Maeda, judoca aluno de Jigoro Kano, numa época em que o judô ainda tinha golpes, quedas e chão.
Com Mitsuyo Maeda, Jigoro KanoContado por Vinicio Antony no Pura Connection · 0:29:49 · ler o artigo
Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.