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Pura Connection · Oswaldo Simões

Judoca olímpico Oswaldo Simões conta o dia em que Hélio Gracie o convidou

Primeiro peso-pesado do Brasil numa Olimpíada, ele fala do convite recusado, dos Valente, da Gama Filho e de como vê a ligação entre judô e jiu-jitsu.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 jul 2024 (1:22:39).

O Oswaldo Simões tinha acabado de vencer as cinco lutas de um campeonato absoluto no Flamengo, todas no chão, quando foi chamado por um senhor que assistia da arquibancada. Era o Hélio Gracie, ao lado do professor Castelão. O Hélio ofereceu uma bolsa para ele treinar jiu-jitsu. O Oswaldo, judoca, agradeceu, deu um abraço e não foi.

“Você é um peso-pesado que se move bem no chão. Eu quero que você venha treinar comigo.”

Oswaldo Simões, no Pura Connection · 1:09:06

O motivo foi simples: o treino do Hélio, numa academia no shopping da Gávea, caía no mesmo horário da seleção brasileira de judô, que se preparava para a Olimpíada. O Oswaldo disse que se sentiu muito honrado com o convite. Assisti à conversa dele no Pura Connection e essa foi só uma das histórias em que o judô e o jiu-jitsu se cruzam na vida dele.

Da Bahia a Moscou

O Oswaldo começou no judô em 2 de abril de 1969, com 17 anos, na Bahia. O primeiro professor foi o Yoshida, e depois veio o Shiozawa, que segundo ele foi o único representante do Brasil no judô em Tóquio 1964 e vendeu móveis e carro para pagar a passagem. O Oswaldo contou que era gordo, apanhava de apelido na escola e brigava com quem mexesse com ele. Foi o sensei quem mandou ele parar: o problema estava em quem xingava.

Na academia ganhou o apelido de Boneca, por causa do rosto sem barba, e o apelido foi parar na televisão quando ele virou campeão mundial universitário. Mas antes disso veio uma derrota que ele não esquece. No Mundial de 1973, na Suíça, com 20 anos, ele disputava o bronze e estava ganhando quando, a dez segundos do fim, tomou uma queda de lado.

“Tá atravessado aqui na minha garganta até hoje essa derrota.”

Oswaldo Simões, no Pura Connection · 1:16:19

Segundo ele, foi essa luta que mostrou que dava para ir longe. Mudou para São Paulo, passou a treinar cinco, seis horas por dia e depois foi trazido para o Rio. No Mundial Universitário de 1978, no Maracanãzinho, enfrentou um japonês de 1,90 metro e 160 quilos, tecnicamente muito melhor, segundo o próprio Oswaldo. Venceu no preparo físico, com uma tática montada em cima dos 8 quilômetros que corria todo dia na praia. Em 1980, venceu a seletiva e foi a Moscou como o primeiro peso-pesado brasileiro numa Olimpíada.

O treino do meio-dia na Gama Filho

A parte que interessa muito a quem é do jiu-jitsu é a Gama Filho. O Oswaldo contou que dava o treino das 11h ao meio-dia e meia na universidade, e que os competidores de jiu-jitsu da época iam treinar com a turma do judô. Ele citou o Rolls Gracie entre eles.

Ele também foi o primeiro professor de judô do curso de educação física da Gama Filho. Segundo o Oswaldo, passaram pela mão dele o André Pederneiras, o Geraldo Bernardes e até o Evandro Mesquita, da Blitz. Depois ele se formou em fisioterapia e dirigiu o curso de fisioterapia da universidade de 1992 a 2000.

Entre os alunos de infância, ele lembrou do Alexandre Café Dantas, que treinou com ele dos 5 ou 6 anos até quase os 16 e hoje, segundo o Oswaldo, tem uma franquia da Gracie Barra nos Estados Unidos.

O pai dos Valente não queria filho campeão

A história de que eu mais gostei envolve a família Valente. O Oswaldo dava aula de judô na Escola Americana do Rio quando um senhor de paletó e gravata sentou para assistir à aula inteira. Era o Pedro Valente, médico e, segundo o Oswaldo, um dos primeiros faixas-pretas do Hélio Gracie. No fim, ele matriculou os filhos Guilherme e Pedro. O Joaquim ainda era muito pequeno.

Um dia o Oswaldo levou o folheto de um campeonato para o Dr. Pedro. A resposta ficou na cabeça dele até hoje.

“Eu quero os meus filhos campeões de vida, e não campeões da luta em si.”

Oswaldo Simões, no Pura Connection · 1:06:28

Para o Oswaldo, os primeiros alunos do Hélio tinham a exata dimensão do que era a luta. O Pedro e o Guilherme, segundo ele, depois foram estudar no Kodokan, no Japão, e hoje os irmãos têm uma das maiores academias de jiu-jitsu do mundo.

De Jigoro Kano aos Gracie, na versão de um judoca

O Oswaldo passa boa parte da conversa contando a história que ele conhece. Segundo ele, Jigoro Kano nasceu em 1860, sofria com os colegas por ser pequeno e foi aprender jujutsu em dois estilos. Juntou as técnicas de projeção, de domínio no chão e de golpes, e em 1882 criou o judô e o Kodokan. A ideia central era vencer sem machucar: derrubou de costas, venceu.

Um dos alunos de Kano foi Mitsuyo Maeda, que saiu pelo mundo fazendo demonstrações. O Oswaldo contou a versão que ouviu do Robson Gracie, no Instituto Maeda: Gastão Gracie ia para os Estados Unidos de navio, o navio quebrou no Amazonas, ele se apaixonou por uma amazonense e ficou. Montou um circo, viu que as demonstrações dos japoneses atraíam público e contratou Maeda para dar aula ao filho Carlos.

“O jiu-jitsu brasileiro é, digamos assim, um desdobramento do judô japonês.”

Oswaldo Simões, no Pura Connection · 0:33:38

Ele também tocou numa história que circula muito: a de que o Kodokan teria advertido Maeda por cobrar entrada nas demonstrações. O Oswaldo disse que foi atrás disso quando esteve no Japão com a seleção, em 1981 e 1982, e não achou documento. Para ele, é uma lenda. Ele lembrou ainda que Carlos Gracie treinou em São Paulo com o Geo Omori e citou os desafios de que participou o Hermanny, que vinha da capoeira, além do desafio do Hélio contra Kimura.

O que fica da conversa

Para o Oswaldo, judô e jiu-jitsu andam juntos. Na visão dele, o judô foi para o lado olímpico e esportivo, e o jiu-jitsu cresceu em cima da defesa pessoal e do desafio, com a família Gracie levando a arte para o mundo inteiro. Ele ainda contou que, no dia seguinte à gravação, ia reunir seis professores de judô e seis de jiu-jitsu num seminário beneficente para dois judocas em tratamento contra o câncer.

No fim, ele repetiu uma resposta do japonês Yamashita, que disse que nenhuma medalha o satisfazia tanto quanto os amigos que fez pelo judô. O Oswaldo disse que gostaria de dar a mesma resposta. Para quem gosta da história do jiu-jitsu, é uma conversa rara, com alguém que viu de perto os dois lados do tatame.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.