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Valente Brothers: a história da escola dos irmãos Valente em Miami
Três irmãos criados na casa de Hélio Gracie levaram o jiu-jitsu de defesa pessoal para Miami, largaram os campeonatos e viraram referência.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 6 min de leitura
- Fundação
- 1993, quando Pedro Valente começou a dar aula em Miami, segundo ele
- Onde
- Miami, Estados Unidos
- Fundadores
- Pedro Valente, Guilherme Valente, Joaquim Valente
A Valente Brothers é a academia de Miami tocada por três irmãos: Pedro, Gui e Joaquim Valente. Ela ficou conhecida por um motivo que ainda gera discussão: ensina jiu-jitsu de defesa pessoal e não manda aluno para campeonato. Juntei aqui o que os próprios irmãos contaram nas entrevistas, e o que outros professores disseram sobre eles, sempre com o nome de quem falou.
Três gerações antes da academia
A história começa com o avô. Segundo o Pedro, o Dr. Syllo Valente conheceu o jiu-jitsu nos anos 1920, por meio de um colega japonês da faculdade de medicina. Em 1951, ele levou o filho, ainda menino, ao Maracanã para ver a luta de Hélio Gracie com Kimura.
O filho era o Dr. Pedro Valente, pai dos três irmãos. O Pedro conta que ele se matriculou na academia Gracie em 27 de abril de 1953 e teve João Alberto Barreto como primeiro professor. Virou cirurgião plástico, médico da família Gracie e, nas palavras do filho, melhor amigo de Hélio Gracie. Os dois trocavam cartas.
O pai também tem lugar na história da graduação. Segundo Francisco Mansur, Hélio deu faixa-preta a seis pessoas de fora da família, e o Dr. Pedro Valente estava entre elas. O judoca Oswaldo Simões também o descreveu como um dos primeiros faixas-pretas do Hélio.
Criados dentro da casa de Hélio Gracie
O Pedro contou que a primeira vez que dormiu fora de casa, aos cinco anos, foi na casa do tio Hélio, como ele chamava o mestre. Os irmãos passavam férias inteiras em Itaipava, de um mês a um mês e meio, fazendo aula particular. O Gui lembra que, aos 14 e 15 anos, chegou a ficar quase dois meses seguidos no sítio, e que o Hélio o ensinou a montar a cavalo, a dirigir e a fazer pequenas obras.
Na academia, o quadro era outro. O Gui contou que, nos anos 1980, o treino de grupo no Rio já era esportivo, começando de joelhos, e que a defesa pessoal ficava nas aulas particulares com o Hélio. Segundo ele, os principais professores dos irmãos foram o Hélio e o Royler. O Morango, que ajudava nas aulas do Humaitá, lembrou de ver o Hélio ensinando defesa pessoal para os Valente.
Sobre campeonato, as versões variam. O Gui disse que os irmãos competiram com sucesso no começo, em Niterói. O Pedro contou que lutou na Liga Niteroiense entre 1983 e 1985 e parou porque o Hélio, contrário à competição, disse que ele não devia mais competir. Já o Oswaldo Simões lembra que o pai não queria os filhos em campeonatos infantis, porque queria que eles fossem campeões de vida.
Do quarto da faculdade à academia em Miami
O Pedro se mudou para Miami em 1993, aos 18 anos e faixa-roxa, para estudar. Ele contou que perguntou ao Hélio como continuaria treinando, e a resposta foi dar aula. O mestre o preparou por um mês no sítio de Itaipava. O primeiro aluno foi o colega de quarto do dormitório, e as aulas eram dentro do próprio quarto.
No mesmo ano, o Pedro estava em Denver, ao lado de Hélio, Rorion e Royce, no primeiro UFC. Segundo ele, depois vieram jogadores de futebol americano que tinham visto o evento. Mesmo assim, o jiu-jitsu seguiu como hobby por anos: ele fez mestrado em administração e marketing na Universidade de Miami e trabalhou um ano numa empresa de telecomunicações. Só por volta de 1999 e 2000 a academia virou a atividade principal.
O Pedro recebeu a faixa-preta das mãos do Hélio em 1996, e diz que os três irmãos receberam o diploma de professor dele. Antes de ir para os Estados Unidos, o Joaquim fazia a ponte: levava as dúvidas dos irmãos ao Hélio, filmava as respostas e mandava os vídeos. Depois, segundo o Pedro, o Hélio visitou a academia de Miami 12 vezes entre 1997 e 2007, sempre hospedado na casa dele.
O currículo que Hélio aprovou e o código 753
O Hélio não gostou do que viu no começo. Quem conta é o Gui.
“A gente deu toda abertura para ele corrigir, mudar e nos dizer exatamente o que ele esperava, até que meu irmão conseguiu elaborar um currículo e ele finalmente aprovou.”
Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:17:52 · ler o artigo
O desafio era levar para a aula de grupo um método pensado para aula particular. Segundo o Pedro, o curso da antiga academia Gracie tinha 36 aulas particulares. Os irmãos montaram um programa coletivo de 27 aulas, que o Hélio aprovou numa visita a Miami. Hoje eles dividem o jiu-jitsu em cinco partes: luta de chão, quedas e projeções, golpes traumáticos, defesa pessoal e filosofia. O Gui estudou com o pessoal do kickboxing na Holanda para montar a aula de trocação, e o Joaquim, que estudou criminologia, cuida do trabalho com policiais.
A filosofia ficou no código 753: sete virtudes do bushido, cinco chaves da saúde do corpo e três da mente. O Pedro faz questão de dizer que ninguém ali inventou nada.
“Eu nunca, jamais diria nós criamos. A informação contida no código jamais foi criada por nós.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:10:13 · ler o artigo
E quando perguntam o segredo da academia, o Gui repete a resposta do irmão mais velho.
“Ele diz que são três coisas: a primeira é trabalho, a segunda é trabalho e a terceira é trabalho.”
Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:23:39 · ler o artigo
Fora dos campeonatos, e o preço disso
Largar a competição custou caro no começo. O Pedro lembra que, quando a Valente Brothers decidiu focar em defesa pessoal, eles estavam sozinhos.
“Nós éramos os únicos. E isso realmente, houve uma discriminação muito grande.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 1:24:39 · ler o artigo
Com o tempo, a opinião mudou. O Royler foi o mais direto.
“Na minha opinião, hoje a melhor academia do mundo é a dos Valentes, do Pedro, do Guilherme e do Joaquim.”
Royler Gracie, no Connect Cast · 1:01:36 · ler o artigo
O Rayron Gracie citou os irmãos como visita obrigatória para professor. A Kyra Gracie contou que, antes de abrir a academia dela, ligou para o Pedro e foi conhecer o lugar, e que ali viu que dava para ter um ambiente familiar, com muitas mulheres e sem foco em competição. Nem todo mundo compra a ideia inteira: o Fábio Gurgel elogiou o trabalho, mas disse que não vê a defesa pessoal como fim do caminho, e o Eduardo Brigadeiro chamou os Valente de referência no assunto, mas acha que a defesa pessoal precisa evoluir. Para ver essa discussão com todas as versões, tem uma página só dela.
Onde a Valente Brothers está hoje
Segundo o Pedro, as forças especiais da Marinha americana procuraram os irmãos justamente pelo foco em defesa pessoal completa, com quedas, golpes, armas e luta de chão. O Gui contou que a família trabalha há dez anos com essa força e que o Pedro e o Joaquim visitam bases. Ele mesmo foi ao Iraque em 2007 com Rener e Ryron Gracie, a convite de um general americano, e em três semanas treinaram mais de mil soldados.
O Pedro contou que o filho dele, com três anos e meio, já treina e é a quarta geração da família no jiu-jitsu. Quem quiser ouvir os irmãos direto pode ler a entrevista do Pedro sobre a amizade com Hélio, a do Gui sobre o currículo e a conversa dos três sobre as férias em Itaipava.
O que foi contado
Segundo Pedro Valente, o avô, Dr. Syllo Valente, conheceu o jiu-jitsu nos anos 1920, por meio de um colega japonês da faculdade de medicina.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:04:56 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, o avô levou o pai, ainda menino, para assistir no Maracanã à luta entre Hélio Gracie e Kimura, em 1951.
Com Pedro Valente (pai), Hélio Gracie, Masahiko KimuraContado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:05:26 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, o pai dele se inscreveu na academia Gracie em 27 de abril de 1953, levado pelo avô para aprender a se defender, e teve João Alberto Barreto como primeiro professor.
Com João Alberto BarretoContado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:04:11 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, o pai dele virou médico da família Gracie e melhor amigo de Hélio Gracie, e os dois trocavam cartas.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:09:15 · ler o artigoSegundo Francisco Mansur, Hélio Gracie deu faixa-preta a seis pessoas de fora da família, entre elas João Alberto Barreto, Hélio Vígio, Pedro Valente, Armando Wriedt e o próprio Mansur, e a 16 da família, num total de 22 faixas-pretas originais. Mansur disse que foi quem mandou fazer os diplomas.
Com João Alberto Barreto, Hélio Vígio, Pedro Valente (pai), Armando Wriedt, Francisco MansurContado por Francisco Mansur no Pura Connection · 1:01:38 · ler o artigoPedro Valente contou que a primeira vez que dormiu fora de casa foi aos cinco anos, na casa de Hélio Gracie, a quem chamava de tio Hélio.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 0:05:13 · ler o artigoSegundo os irmãos Valente, eles passavam férias inteiras, de um mês a um mês e meio, na casa de Hélio Gracie tendo aulas particulares, nos últimos 30 anos de vida do mestre.
Com Pedro Valente, Guilherme Valente, Joaquim ValenteContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:12:30 · ler o artigoGuilherme Valente contou que, aos 14 e 15 anos, passava feriados e férias na casa de Hélio Gracie no vale, às vezes quase dois meses direto, e que o mestre o ensinou a montar a cavalo, a dirigir e a fazer pequenas obras.
Com Hélio GracieContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:16:48 · ler o artigoGuilherme Valente contou que, nos anos 1980, o treino da academia no Rio já era esportivo, começando de joelhos, e que a defesa pessoal com Hélio Gracie ficava nas aulas particulares.
Com Hélio GracieContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:10:26 · ler o artigoGuilherme Valente contou que Royler Gracie e o pai dele, Hélio, foram os principais professores dos irmãos Valente. Ele disse que ainda pegou a época de Rolls, treinou com Rickson quando era bem novo e conviveu com Royce quando ele ainda estava no Rio.
Com Royler Gracie, Hélio Gracie, Rolls Gracie, Rickson Gracie, Royce GracieContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:06:49 · ler o artigoPedro Valente contou que competiu na Liga Niteroiense entre 1983 e 1985, aos 8 e 10 anos, e parou porque Hélio Gracie, contrário à competição, disse a ele que não devia mais competir.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 2:08:20 · ler o artigoSegundo Guilherme Valente, os irmãos competiram com sucesso no começo, e ele lutou os primeiros campeonatos em Niterói, no início dos anos 1980.
Com Guilherme ValenteContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:43:28 · ler o artigoSegundo Oswaldo Simões, Pedro Valente não quis que os filhos disputassem campeonatos infantis, dizendo que queria que fossem campeões de vida e que a luta fosse um recurso educacional.
Com Oswaldo SimõesContado por Oswaldo Simões no Pura Connection · 1:06:28 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, ao se mudar para Miami aos 18 anos, faixa-roxa, perguntou a Hélio Gracie como continuar treinando. Hélio mandou que ele desse aula e o treinou por um mês no sítio de Itaipava para isso.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:48:46 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, seu primeiro aluno em Miami foi o colega de quarto no dormitório da universidade, e as aulas eram dadas dentro do quarto.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:50:21 · ler o artigoPedro Valente contou que se mudou para Miami em agosto de 1993 para estudar e que assistiu ao primeiro UFC, em Denver, ao lado de Rorion, Royce e Hélio Gracie.
Com Hélio Gracie, Rorion Gracie, Royce GracieContado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:19:12 · ler o artigoPedro Valente contou que o primeiro aluno foi o colega que morava com ele na universidade, depois vieram jogadores de futebol americano que tinham visto o primeiro UFC, e só por volta de 1999 e 2000, ao terminar o MBA, o jiu-jitsu virou sua atividade principal.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:17:44 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, ele recebeu a faixa-preta de Hélio Gracie em 1996, e os três irmãos receberam o diploma de professor diretamente de Hélio.
Com Hélio Gracie, Guilherme Valente, Joaquim ValenteContado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:52:55 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, antes de se mudar para os Estados Unidos, Joaquim levava as dúvidas dos irmãos a Hélio Gracie, filmava as respostas e mandava os vídeos.
Com Hélio GracieContado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:52:55 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, Hélio Gracie visitou a academia dele em Miami 12 vezes entre 1997 e 2007, ficando normalmente 15 dias em sua casa.
Com Pedro ValenteContado por Pedro Valente no Connect Cast · 1:16:04 · ler o artigoSegundo Guilherme Valente, Hélio Gracie não estava contente com o jiu-jitsu que os irmãos ensinavam em Miami, até que Pedro Valente elaborou um currículo que Hélio aprovou e passou a usar como referência para outros professores.
Com Hélio Gracie, Guilherme ValenteContado por Guilherme Valente no Pura Connection · 0:17:52 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, ele e os irmãos adaptaram o método de Hélio Gracie para aula coletiva, num programa de 27 aulas, e Hélio aprovou o resultado ao visitar a academia em Miami.
Com Hélio Gracie, Guilherme Valente, Joaquim ValenteContado por Pedro Valente no Connect Cast · 2:06:48 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, o código 753 reúne sete virtudes do bushido (retidão, coragem, benevolência, respeito, honestidade, honra e lealdade), cinco chaves da saúde do corpo (exercício, alimentação, descanso, higiene e pensamento positivo) e três da mente (atenção, equilíbrio e fluidez).
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 0:11:47 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, quando a Valente Brothers passou a focar em defesa pessoal e deixou as competições, os irmãos eram os únicos a fazer isso e sofreram discriminação e preconceito no meio do jiu-jitsu.
Contado por Pedro Valente no Pura Connection · 1:24:39 · ler o artigoSegundo Pedro Valente, a academia dos irmãos trabalha com forças especiais da Marinha americana, que os procuraram pelo foco em defesa pessoal completa, com quedas, golpes, armas e luta de chão.
Com Joaquim ValenteContado por Pedro Valente no Pura Connection · 1:09:31 · ler o artigo
Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.