Pura Connection · Pedro Valente
Pedro Valente e o código 753: a filosofia de Hélio Gracie no jiu-jitsu
O mais velho dos Valente Brothers conta como a família chegou ao jiu-jitsu, o mês em que morou com Hélio Gracie e por que a competição é só uma parte da arte.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 set 2020 (0:58:09).
Ensinar alguém a lutar é entregar uma arma. Essa é a ideia que atravessa toda a conversa de Pedro Valente no Pura Connection. O mais velho dos três irmãos da Valente Brothers, academia de Miami, defende que o jiu-jitsu sem filosofia pode virar uma ferramenta para o mal, e passou a live explicando o código que a família organizou para que isso não aconteça.
“Se você ensina uma pessoa a lutar, você dá uma arma a ela.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:18:43
Assisti à live e gostei do tom. O Pedro fala devagar, escolhe cada palavra e não ataca ninguém. Mesmo quando critica o excesso de foco na competição, faz questão de dizer que admira quem quer ser campeão mundial.
Quatro gerações desde o Maracanã
A história da família no jiu-jitsu começa com o avô, Dr. Syllo Valente, médico. Segundo o Pedro, ainda na faculdade de medicina, nos anos 1920, ele teve um colega japonês que lhe apresentou o jiu-jitsu. Em 1951, o avô levou o filho, ainda menino, para ver no Maracanã a luta entre Hélio Gracie e Kimura.
Logo depois, o pai, Dr. Pedro Valente, treinou judô numa academia de Copacabana e, em 27 de abril de 1953, se matriculou na academia Gracie. O Pedro trata essa data como um marco da família. O filho dele, com três anos e meio, já treina e é a quarta geração.
O Pedro começou na academia aos três anos, mas diz que o jiu-jitsu entrou em casa antes, nas brincadeiras do pai. Ele fala com carinho da academia Gracie da Avenida Rio Branco, no 17º e 18º andar, que considera a mais bem organizada de todos os tempos. Segundo ele, o aluno chegava e encontrava uma cesta com kimono dobrado no tamanho dele, toalha, chinelo e sabonete, além da chave do armário. É esse o modelo que a Valente Brothers tenta seguir em Miami, e ele cita Kyra Gracie como alguém que busca o mesmo.
Um mês morando com Hélio Gracie
A parte mais saborosa da conversa, para mim, foi a mudança para os Estados Unidos. Aos 18 anos, faixa-roxa, o Pedro foi estudar na Universidade de Miami e perguntou ao mestre como continuaria treinando. O Hélio respondeu que, como não havia academia lá, ele teria que dar aula para os colegas. E ofereceu um curso de professor.
“Eu passei um mês morando com ele, sendo treinado para dar aula.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:49:17
Foi no sítio do Hélio em Itaipava. De volta a Miami, o primeiro aluno foi o colega de quarto do dormitório, e as aulas eram dentro do próprio quarto. O Pedro conta que também teve muitas aulas com Royler. Durante anos o jiu-jitsu foi hobby: ele se formou e foi trabalhar numa empresa de telecomunicações. Aí chegou o irmão Guilherme, depois o Joaquim, e a coisa cresceu.
Numa época sem Skype, o Joaquim fazia a ponte. Qualquer dúvida que os irmãos tinham, ele ia até o Hélio, filmava a resposta e mandava o vídeo. O Pedro recebeu a faixa-preta em 1996 das mãos do Hélio, e diz que os três irmãos receberam o diploma de professor diretamente dele. Segundo o Pedro, o mestre era muito exigente tanto na luta quanto nas virtudes morais.
O que é o código 753
O Pedro faz questão de uma correção logo de saída: ele e os irmãos apenas organizaram o código, e o conteúdo veio dos mestres. Ele cita uma frase que o pai repetia, de Lavoisier: na natureza nada se cria, tudo se transforma. O 753 junta o que aprenderam com Hélio e Carlos Gracie, com o pai e com o avô.
O sete são as sete virtudes do código samurai, o bushido, ligadas à saúde espiritual: retidão, coragem, benevolência, respeito, honestidade, honra e lealdade. O cinco é a saúde do corpo: exercício, alimentação, descanso, higiene e pensamento positivo. Na alimentação, ele lembra o regime racional pregado pelo Carlos Gracie, que já seguia na escola. O três é a saúde da mente: atenção, equilíbrio e fluidez.
Para o Pedro, o jiu-jitsu vence um medo que todo ser humano carrega, o de apanhar. Isso gera confiança e poder, e o professor decide o destino desse poder.
“O verdadeiro poder tem que se transformar em humildade, em tolerância e em benevolência.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:35:39
Competição é uma das expressões
O Pedro lembra que o pai escreveu um artigo no Jornal do Brasil alertando contra a apologia ao casca-grossa. O problema, na visão dele, é quando o professor vira só técnico, quando a medalha é o único critério para promover o aluno e quando o campeão vira modelo sem que ninguém olhe para o estilo de vida dele.
Ele responde direto à crítica de que os Valente não competem. Diz que ela vem de gente que nunca pisou na academia deles.
“Jiu-jitsu sem competição não existe.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:39:50
O que ele chama de competição é o randori, o treino de disputa, que na academia deles sempre começa em pé. Para os irmãos, o jiu-jitsu tem cinco partes: luta de chão, quedas e projeções, golpes traumáticos como soco, chute e joelhada, defesa pessoal, inclusive contra arma, e filosofia. Quem só conhece o torneio, diz ele, nunca aprendeu o resto porque o professor não ensinou.
O Pedro também elogia a outra escola. Ele diz ser grande admirador de Carlson Gracie, que o pai considerava o lutador mais completo, e lembra que da academia do Carlson saíram grandes pessoas, como Libório, Zé Mário e Amaury. Segundo ele, há vários caminhos para o mesmo objetivo. Os irmãos também dão aula para uma equipe de forças especiais nos Estados Unidos, com um deles passando uma semana por mês com os militares.
O que fica da conversa
O Pedro repete uma ideia do pai: o jiu-jitsu é um artesanato e não deve ser tratado só como produto. Filho, neto e bisneto de médicos, ele compara o ofício com a ética médica, em que um profissional não fala mal do outro. Saí da live com a impressão de que o maior patrimônio da família Valente é o jeito de ensinar, e de que o Hélio continua presente em cada aula deles.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.