Pura Connection · Pedro Valente
Pedro Valente revela a amizade da família com Hélio Gracie desde 1953
Aluno direto do mestre, ele conta como o pai virou o melhor amigo de Hélio e explica o que, na visão dele, foi a grande criação dos Gracie.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 ago 2022 (1:28:05).
Em 27 de abril de 1953, um jovem entrou na academia Gracie e fez a matrícula. Hoje, os três filhos dele ensinam jiu-jitsu em Miami e contam essa data como o momento que mudou a história da família. Quem conta é Pedro Valente, o mais velho dos três irmãos, numa conversa longa no Pura Connection.
Assisti à entrevista e o que mais me chamou atenção foi o tamanho da intimidade entre os Valente e Hélio Gracie. Segundo o Pedro, o pai dele e o mestre viraram melhores amigos. E ele diz que os filhos cresceram tratados como parte da família Gracie, mesmo sem carregar o sobrenome.
“Aquele momento foi crucial na história da nossa família.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:10:20
O médico que virou melhor amigo de Hélio Gracie
O pai do Pedro, também Pedro Valente, se formou em medicina e virou cirurgião plástico. Segundo o filho, ele passou a ser o médico da família Gracie, e a relação foi além de médico e paciente, de professor e aluno. O Pedro conta que guarda cartas que os dois trocaram e que chama de emocionantes.
A admiração, na versão dele, ia nos dois sentidos. O pai admirava a união dos irmãos Gracie e repetia para os filhos que a inspiração para eles serem unidos vinha do que tinha visto entre Carlos e Hélio. Segundo o Pedro, hoje muita gente fala em divisão entre os dois lados da família, mas poucos sabem como os irmãos eram próximos.
Com Carlos, a troca era outra. O Pedro contou que o pai e o mestre Carlos se encontravam toda semana na clínica para conversar sobre alimentação. O pai trazia a parte científica, da medicina, e Carlos trazia os estudos que fazia por conta própria.
A história mais saborosa é a do quarto. Segundo o Pedro, o pai tinha um quarto que ficava fechado e onde ninguém podia se hospedar. A única exceção era Hélio, que todo ano passava duas semanas com a família. Quando chegava, o mestre brincava que ia ficar no quarto do Poderoso Chefão.
“Apesar de não carregar o sobrenome, foi assim que eu sempre fui tratado por ele e pelos filhos dele.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:11:55
O pai também escolheu os outros professores dos filhos. O Pedro contou que eles fizeram boxe e judô com mestres que o pai selecionou, porque ele sabia o peso de um bom exemplo de comportamento, além da técnica. Ele ainda estava na plateia com Hélio nos primeiros UFCs: segundo o Pedro, ele pegou um avião depois da última aula da faculdade e sentou ao lado do mestre na noite em que Royce venceu o primeiro evento.
Da faculdade ao tatame em tempo integral
O jiu-jitsu nunca esteve nos planos profissionais do Pedro, pelo que ele contou. Na universidade, quando pediam para escrever onde ele estaria dali a cinco anos, o jiu-jitsu aparecia como estilo de vida, nunca como profissão. Ele começou a dar aula em 1993, fez mestrado em administração e marketing na Universidade de Miami e chegou a trabalhar um ano numa empresa de telecomunicações.
Quando terminou o mestrado, teve de escolher. Segundo ele, financeiramente estaria melhor no mercado financeiro, mas escolheu qualidade de vida. O pai reforçou a escolha de um jeito curioso: um dia chegou à academia, viu o filho no escritório atendendo telefone e disse que, se ele tinha escolhido o jiu-jitsu, o lugar dele era no tatame.
O Pedro diz que não usa palavras como mercado ou indústria para falar de jiu-jitsu. Quando perguntam o segredo da academia dos irmãos, ele responde com coisas simples: currículo, limpeza, vestiário arrumado, ninguém falando palavrão e respeito entre graduados e iniciantes. Os irmãos, segundo ele, dão aula de manhã, de tarde e de noite. Guilherme fez mestrado em administração esportiva e Joaquim se especializou em criminologia, cuidando do trabalho com policiais.
“Quer um conselho, professor de jiu-jitsu que está começando agora? Trabalhe, se dedique.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:40:16
Os cinco pilares e a única vitória verdadeira
Para o Pedro, o jiu-jitsu completo tem cinco pilares: os golpes traumáticos (socos, chutes, cotoveladas e joelhadas), as quedas, a luta no chão, a defesa pessoal contra ataques inesperados e armas, e a filosofia, que ele considera a mais importante.
Dentro da defesa pessoal, ele coloca a atenção acima de tudo. Ele contou o que pergunta quando um aluno liga às três da manhã dizendo que entrou numa briga: você foi para o hospital ou para casa? Se o aluno está bem, ele desliga e vai dormir. Se deu um triângulo ou apanhou, pouco importa.
“O objetivo de qualquer jogo é ganhar. O objetivo de uma técnica de defesa pessoal é não perder, é sobreviver.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 0:25:07
A vitória de verdade, na visão dele, é evitar a briga com conversa, postura e controle emocional, e sair de cabeça erguida sem se sentir covarde. Ele liga isso à alimentação: comer mal também é um dano à saúde, então se alimentar bem entra na conta da defesa pessoal.
O que Hélio Gracie criou, segundo Pedro Valente
O Pedro se apresenta como pesquisador apaixonado pela história das artes marciais e dedicou boa parte da conversa a isso. Na versão dele, Jigoro Kano organizou um método de ensino do jiu-jitsu, deu o nome de judô porque a palavra jitsu estava associada a um passado mal visto no Japão, e introduziu as faixas coloridas. Ele contou também que Mitsuyo Maeda e Yukio Tani adaptaram o jiu-jitsu para desafios contra boxeadores e lutadores do Ocidente, com muita ênfase na guarda.
Sobre os Gracie, ele é direto: os irmãos não inventaram técnicas. Para o Pedro, dizer que Hélio inventou o jiu-jitsu chega a ser uma afronta ao legado dele, porque a história real já é grande o bastante. A contribuição que ele aponta é o método de ensino, que deixou a arte acessível para qualquer pessoa, jovem ou velha, forte ou fraca. Um exemplo que ele deu: na academia de Hélio, o aluno aprendia a derrubar antes de aprender a cair.
“A história dele é tão fantástica que não precisa de exagero.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 1:15:19
Ele contou ainda uma história que ouviu do próprio Hélio: três vezes, em épocas diferentes, pessoas disseram ao mestre que ele tinha sido japonês em outra vida. A mais curiosa foi a de uma mulher que foi comprar peixes no lago dele, desmaiou durante um almoço e depois explicou que tinha visto Hélio vestido de samurai. Segundo o Pedro, até Rickson, pequeno, foi confundido com uma criança japonesa por um visitante do Japão.
O que fica da conversa
Saí da entrevista com a sensação de ter ouvido alguém que leva o jiu-jitsu como herança de família. O Pedro fecha com uma ideia que resume o que ele pensa: ninguém está melhorando o jiu-jitsu, porque ele é a forma mais eficiente de fazer qualquer coisa. O que as gerações fazem é chegar cada vez mais perto dessa eficiência.
“O jiu-jitsu é perfeito. Nós é que buscamos nos aproximar dele.”
Pedro Valente, no Pura Connection · 1:25:08
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.