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Pura Connection · Pedro Valente, Guilherme Valente, Joaquim Valente

Irmãos Valente contam as lições de Hélio Gracie nas férias em Itaipava

Pedro, Guilherme e Joaquim Valente explicam por que o mestre os afastou dos campeonatos e como levaram a defesa pessoal para as forças especiais americanas.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 set 2021 (1:32:33).

Quando alguém fala que o jiu-jitsu de defesa pessoal é coisa de quem não aguenta competir, eu lembro desta conversa. Os três irmãos da Valente Brothers, Pedro, Guilherme e Joaquim, passaram boa parte da juventude dentro da casa de Hélio Gracie, em Itaipava, e contaram no Pura Connection o que ouviram do mestre nos últimos 30 anos de vida dele.

Assisti à entrevista inteira e o que mais me marcou foi a descrição de um Hélio que ninguém visitava mais e que, mesmo assim, não cansava de ensinar. Segundo os irmãos, eles passavam férias inteiras lá, um mês, às vezes um mês e meio, em aulas particulares que começavam no tatame e seguiam na mesa do almoço.

“Muitas vezes a gente ficava horas e horas dentro do tatame estudando jiu-jitsu, e a esposa dele tinha que vir bater na porta: o almoço está pronto.”

Joaquim Valente, no Pura Connection · 0:48:09

Três gerações na academia Gracie

A história da família com o jiu-jitsu começa antes deles. Pelo que contaram, o avô conheceu a arte ainda no início do século 20, por meio de um colega japonês, junto com um irmão que depois virou general. Na década de 1950, o pai, o médico Pedro Valente, entrou garoto na academia Gracie. Os filhos dos irmãos já seriam a quarta geração.

O pai, que virou cirurgião plástico, sempre deu crédito ao jiu-jitsu pelo que conquistou fora do tatame, segundo Joaquim. Guilherme lembrou que Carlos Gracie também foi professor e amigo do pai, mas que o contato mais próximo dos filhos foi com Hélio. E aqui entra uma coisa bonita: Guilherme contou que o pai talvez não tenha conseguido aplicar tudo aquilo na própria vida, mas fez questão de passar para os filhos o melhor do que aprendeu com Carlos e Hélio.

O Hélio que admitia os próprios erros

Pedro descreveu um Hélio bem diferente da imagem de brigão. Segundo ele, o mestre dizia que na juventude era inseguro e brigava muito, e que foi ficando mais calmo à medida que ganhava confiança. No fim da vida, ainda segundo Pedro, Hélio mantinha um caderno para se autoavaliar e gostava de aperfeiçoar a própria escrita.

Para Hélio, o jiu-jitsu tinha três partes, contou Pedro: a defesa pessoal contra alguém mais forte e mais pesado, a educação física (ele achava que só a natação se comparava ao jiu-jitsu para deixar alguém em boa forma) e a parte psicológica, a autoconfiança. Quem vive procurando briga, para Hélio, é quem tem algo a provar.

“Se uma pessoa te insultar, pensa que ela é uma criança de cinco anos. Uma criança de cinco anos te xinga, você vai brigar com ela?”

Pedro Valente, no Pura Connection · 0:26:06

Pedro também contou o que Hélio dizia a quem ensinava. A melhor profissão do mundo, para o mestre, era a de professor de jiu-jitsu, e quem trabalha só pelo dinheiro não vale o que recebe.

Por que Hélio mandou os alunos saírem dos campeonatos

Esse foi, para mim, o trecho mais interessante. Guilherme contou que os irmãos competiram com sucesso no começo e que ele mesmo lutou os primeiros campeonatos em Niterói, no início dos anos 1980. Segundo ele, Hélio chegou a presidir a federação, convencido por alunos e familiares de que aquilo ajudaria a divulgar o jiu-jitsu. Depois mudou de ideia e passou a condenar os campeonatos.

O motivo, pelo relato de Guilherme: numa luta por pontos, quem fica se defendendo perde, e o jiu-jitsu de Hélio tinha como objetivo sobreviver a uma agressão na rua. Os alunos foram orientados a ficar fora das competições. Os irmãos fazem questão de dizer que o esporte ajudou muito a espalhar o jiu-jitsu pelo mundo e que hoje ele é muito melhor para competir do que nos anos 70 e 80. O que eles defendem é a especialização e a honestidade com o aluno. Um deles contou que uma mãe apareceu querendo o filho em competição e ele indicou academias de amigos.

Na mesma linha, os Valente citaram uma frase que Royler Gracie repete nos seminários: dá para ser campeão mundial de jiu-jitsu sem saber se defender de uma gravata, porque ninguém aplica gravata no campeonato.

“Numa briga de rua, a primeira pergunta que eu faço é: você está bem? Não se machucou? Então ele ganhou.”

Pedro Valente, no Pura Connection · 0:50:10

Do primeiro UFC às forças especiais americanas

Pedro se mudou para os Estados Unidos em 1993 e contou que estava em Denver no primeiro UFC, criado por Rorion Gracie. Antes da viagem, passou um mês com Hélio se preparando para morar sozinho. Quando perguntou como continuaria treinando, ouviu do mestre que a melhor forma era começar a ensinar. O primeiro aluno foi o colega com quem dividia a casa na universidade. Depois vieram jogadores de futebol americano que tinham visto o UFC. Segundo Pedro, o jiu-jitsu só virou a atividade principal dele por volta de 1999 e 2000, quando terminou o MBA.

Hoje a academia de Miami treina militares e policiais. Pedro contou que as forças especiais da Marinha americana procuraram os Valente por causa do foco em defesa pessoal completa, com quedas, golpes e armas. Joaquim, que estudou criminologia, cuida dessa parte e contou que, num curso recente para esses militares, 80% das aulas foram fora do tatame, dentro de um galpão que simula casas, escritórios e escolas. Ele também contou que, no Rio, passou por uma invasão de casa com seis homens armados e duas tentativas de assalto e sequestro, e que isso o levou a estudar o assunto a fundo.

Guilherme lembrou ainda que o manual de combate corpo a corpo do exército americano foi reescrito nos anos 1990 com base no programa da academia Gracie, pelo trabalho de Rorion.

A dieta que veio do Maeda

A conversa terminou na mesa. Guilherme contou que os irmãos encontraram um livro de Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, que já falava em comer frutas, vegetais e respeitar o intervalo entre as refeições. Para ele, isso certamente influenciou o jovem Carlos Gracie.

“Todo mundo comendo brigadeiro, bolo, bebendo Coca-Cola, e a gente tinha que dizer: não, obrigado.”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 1:19:36

Segundo Guilherme, a dieta que aprenderam com Hélio tem três partes: a combinação dos alimentos, a escolha deles (Hélio tinha técnica até para escolher melancia) e o intervalo digestivo. O pai médico, contou ele, tentou dar explicação científica ao que Carlos descobriu na prática.

O que fica da conversa é um retrato de Hélio pouco visto: um velho professor em Itaipava, admitindo os próprios erros, ensinando três garotos até a hora do almoço e insistindo que o jiu-jitsu servia para formar gente calma. Os Valente levaram isso para Miami e montaram um método em cima, o Código 753. Dá para discordar deles sobre competição. Difícil é dizer que não sabem de onde vieram.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.