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Connect Cast · Royler Gracie

Royler Gracie diz que não bateu para Sakuraba e lembra briga de 46 minutos

Filho de Hélio Gracie conta a luta interrompida no Japão, o vale-tudo marcado na véspera e o que aprendeu dentro da academia do pai.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 18 jan 2024 (1:51:27).

Até hoje Royler Gracie garante que não deu os três tapinhas. No fim do segundo round contra Kazushi Sakuraba, preso numa kimura com a cabeça encostada na corda, ele olhou para o irmão Rickson no córner, perguntou quanto tempo faltava e piscou o olho. Estava tranquilo, segundo ele. Foi aí que o juiz parou a luta.

“Na minha opinião, eu não batia.”

Royler Gracie, no Connect Cast · 0:44:26

Assisti à conversa do Royler no Connect Cast e essa foi só uma das histórias. Em quase duas horas ele falou de uma briga de mão limpa marcada de um dia para o outro, da derrota para Eddie Bravo em Abu Dhabi, da infância no tatame e do jeito como o pai, Hélio Gracie, tocava a academia. Aos 58 anos, morando em San Diego, ele contou tudo com calma e sem esconder os erros.

A luta com Sakuraba e o contrato do empate

O convite veio do Rickson, por telefone. O Royler contou que nem sabia direito quem era Sakuraba. Aceitou, com uma condição: dois rounds de 15 minutos, porque o japonês pesava quase 20 quilos a mais. Ele lutou com 65 quilos. O contrato dizia que, sem nocaute nem finalização, a luta terminava empatada.

Na visão do Royler, a interrupção tinha um objetivo: forçar o Rickson ou outro Gracie a enfrentar Sakuraba, que na época ganhou o apelido de caçador de Gracies. Ele lembrou que, no mesmo evento, os juízes não pararam uma luta em que um americano torcia o braço de um japonês. E disse que é muito flexível, a ponto de coçar a orelha com a mão do mesmo lado. Se quebrasse, fazia parte, porque tinha assinado o contrato.

O que mais me chamou atenção foi a honestidade. O Royler admitiu que, se a luta fosse por pontos, Sakuraba teria vencido. Contou também que dormiu dentro de uma banheira de gelo por causa dos chutes que levou na perna e que, no dia seguinte, desceu para o café como se nada tivesse acontecido. Segundo ele, foi uma das lutas em que menos ganhou dinheiro, num ano em que também foi campeão carioca, brasileiro, pan-americano e mundial.

“Se fosse uma contagem de ponto, ele teria ganho a luta.”

Royler Gracie, no Connect Cast · 0:47:35

Uma briga marcada na véspera

A primeira luta de vale-tudo do Royler foi marcada com menos de um dia de antecedência. Ele contou que era uma quarta-feira, cinco da tarde, a filha tinha acabado de nascer, e o Rickson ligou: tinha uma briga para ele no dia seguinte, às nove da manhã. Era a época da rixa entre o jiu-jitsu e a luta livre. O adversário foi Eugênio Tadeu, de 15 a 20 quilos mais pesado.

Nos primeiros minutos o Royler levou um soco e cuspiu um pivô do dente. Alguém pediu para parar e, segundo ele, o Rickson respondeu que o moleque era casca-grossa. A briga seguiu sem tempo, de mão nua, no cimento. Quando o Eugênio pediu para encerrar, os dois ainda combinaram de continuar mais um pouco. No fim apertaram as mãos e ficou o empate.

“Foi 46 minutos de mão limpa. Não ganhei um centavo.”

Royler Gracie, no Connect Cast · 0:21:00

O Royler falou do Eugênio com respeito e disse que acredita ter o respeito dele também. Para ele, a geração que lutava de graça, como o pai, o Rolls e o Rickson, abriu a estrada para os atletas que hoje vivem do esporte.

Criado para perder sem medo

O Royler compete desde os seis anos, e a primeira competição ele perdeu. O Hélio tinha uma regra curiosa: quem ganhava levava um prêmio, quem perdia levava dois. Assim ninguém tinha medo de entrar no tatame.

“Eu ganhava 50 reais se eu ganhasse. Se eu perdesse, eu ganhava 100.”

Royler Gracie, no Connect Cast · 0:03:41

Os ídolos estavam dentro de casa. Primeiro o pai, depois Rolls, que segundo o Royler pesava uns 75 quilos e era muito superior ao resto. Depois o bastão passou para o Rickson, mais pesado e com raciocínio muito rápido. Mais tarde veio Royce no UFC. O Royler lembrou do Rolls chegando cedo à academia da rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana, e pegando a garotada jogando bola com luva de boxe. Em vez de bronca, trouxe uma bola de plástico.

Aos 17 anos, quase faixa-preta, ele passou por um teste que não esquece. O Hélio mandou um faixa-roxa de 100 quilos, faixa-preta de judô, pegá-lo numa gravata sem que ele se defendesse antes. O Royler demorou, mas saiu. Em casa perguntou o motivo e ouviu que quem ensina arte marcial precisa se colocar à prova.

“Em qual país do mundo você vai ensinar arte marcial e não vai se botar em teste?”

Hélio Gracie, no Connect Cast · 0:27:14

Abu Dhabi, Zé Mário e a repescagem

O Royler disputou quatro edições do ADCC. Ganhou três e ficou em terceiro na outra. Ele contou que tirava o kimono pouco antes: uma semana no primeiro ano, duas no segundo, três no terceiro. No quarto tirou dois meses antes e perdeu.

A derrota foi para Eddie Bravo, no triângulo, na semifinal do ADCC de 2003, em São Paulo. Segundo o Royler, o técnico ficou preso num aeroporto fechado pela chuva, e o rapaz que o substituiu no córner estava olhando outra luta quando ele pediu o tempo. Ele diz que se desconcentrou, mas que o erro foi dele. Na manhã seguinte bateram na porta do hotel: Eddie Bravo tinha desistido de voltar, e o Royler foi chamado para a repescagem. Venceu e ganhou o terceiro lugar contra Soca. Os dois voltaram a se enfrentar no Metamoris, com o Royler já com 47 anos.

Ele também assumiu uma provocação que hoje acha exagerada. Correu atrás de uma luta com Zé Mário Sperry, da Carlson Gracie, várias categorias acima. Segundo o Royler, estava achando que era melhor que todo mundo, e o episódio serviu para baixar a bola.

O que ficou da academia do seu Hélio

A parte da conversa sobre o pai mostra um Hélio organizado. Aula começava e terminava na hora, e o professor que chegasse atrasado dava uma aula extra de graça. Segundo o Royler, na academia da Rio Branco, nos anos 1950, o aluno recebia uma cesta com kimono limpo, toalha, sabonete e sandália. Os kimonos eram lavados num sítio em Teresópolis, em máquinas industriais, e uma Kombi levava e trazia tudo duas ou três vezes por semana.

Ele contou ainda que segue a dieta Gracie criada pelo tio, Carlos Gracie, e que ficou 20 anos sem comer carne. E repetiu uma lição do Rickson: é preciso estar bem antes de cuidar dos outros.

“Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu.”

Rickson Gracie, no Connect Cast · 1:14:06

Hoje o Royler vive há 15 anos nos Estados Unidos, dá seminários nos fins de semana e um curso de professores de dez dias. No braço, tatuou as palavras do pai antes de uma luta: tudo que sou é jiu-jitsu. Depois de ouvir as histórias, entendi por que ele escolheu essa frase.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.