Pergunta
Por que os americanos dominam o no-gi, o jiu-jitsu sem kimono?
Marcelo Garcia, John Danaher, o preconceito com a chave de pé e o que os brasileiros disseram sobre a virada.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 3 min de leitura
Resposta curta
Nas entrevistas aparecem três explicações. O Fábio Gurgel resume em Marcelo Garcia, cuja academia nos Estados Unidos todo mundo copiou. O Jonathas Gracie acha que o no-gi foi o jeito de os americanos igualarem o nível dos brasileiros. E o Marco Aurellio culpa o próprio Brasil, que desestimulou o treino sem kimono e a chave de pé.
Até pouco tempo, campeão de jiu-jitsu era quase sempre brasileiro. No sem kimono a história virou, e isso dói em muita gente daqui. Nas entrevistas que eu li, os faixas-pretas brasileiros dão explicações diferentes, e algumas se completam.
Em duas palavras: Marcelo Garcia
Perguntado sobre o que levou os americanos a dominar o sem kimono, o Fábio Gurgel respondeu em duas palavras: Marcelo Garcia. Segundo ele, a academia do Marcelo nos Estados Unidos, metade de kimono e metade sem, foi copiada por todo mundo, e John Danaher e Eddie Bravo beberam dessa fonte. O Fábio ainda acrescentou o fundo de wrestling de muitos americanos e um motivo prático.
“É mais rápido você se tornar duro sem kimono.”
Fábio Gurgel, no Connect Cast · 1:48:20 · ler o artigo
Na mesma conversa, o Fábio lembrou de um papo com o Roger Gracie sobre o Gordon Ryan. Segundo o Fábio, o Roger acha que ninguém vai ganhar dele porque ninguém treina igual: o brasileiro se divide entre kimono e sem kimono, e o americano nem quer saber do kimono.
O jeito de ganhar da gente
O Jonathas Gracie vê uma questão de cultura. Para ele, o americano amou a arte, é muito competitivo e precisava achar um terreno para vencer os brasileiros, que ganhavam todos os mundiais.
“Eles experimentaram o no-gi para igualar o nível. E passou, o americano passou.”
Jonathas Gracie, no Pura Connection · 1:07:23 · ler o artigo
O Sylvio Behring olha para o mesmo movimento com calma. Segundo ele, o jiu-jitsu americano é um processo natural da liberdade que os brasileiros deram ao espalhar a arte, e brigar contra isso só dá mais força a ele.
“Quanto mais resistência a gente colocar, mais fortalece o movimento.”
Sylvio Behring, no Pura Connection · 0:35:13 · ler o artigo
O Brasil que largou o sem kimono
O Marco Aurellio, da Pirâmide Grappling, culpa uma escolha feita aqui. Na leitura dele, durante a rivalidade com a luta livre os Gracie desestimularam o treino sem kimono e as chaves de pé e de calcanhar, para frear a expansão do rival. Quem tirava o kimono virava cara da luta livre.
“A gente deixou de lado esse negócio de atacar o pé. Eu acho que foi muito isso que travou o sem kimono aqui.”
Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:19:37 · ler o artigo
O Renato Santos completa: ele não conhece campeonato infantil sem kimono no Brasil. E a elite brasileira tratava o sem kimono como algo de véspera. O Rodolfo Vieira contou que ele e o Buchecha só tiravam o kimono um ou dois meses antes do ADCC. O Royler Gracie venceu três ADCC tirando a roupa poucas semanas antes. A briga com a luta livre está contada em jiu-jitsu x luta livre, e a discussão da chave de pé em se o heel hook deve ser liberado.
Raiz brasileira em Nova York
O detalhe que mais me chamou atenção é que a escola americana tem raiz daqui. Segundo o Roger, o Danaher é faixa-preta do Renzo Gracie, foi aluno que virou professor da academia em Nova York e dava aula de jaqueta e faixa, sem a calça do kimono. O próprio Roger contou que aprendeu com o Renzo posições sem kimono que usa até hoje. O Neiman Gracie disse que treinou mais de dez anos com o Danaher e viu nascer o time forte dele.
O Rodrigo Comprido lembrou que a ideia do Danaher sobre a importância das chaves de perna veio do Dean Lister. E o Jean Jacques Machado contou que o Eddie Bravo, depois de voltar do Abu Dhabi, quis abrir uma academia só sem kimono. Hoje o caminho também vai no sentido contrário: segundo o Viktor Doria, o Nicholas Meregali chegou ao ADCC com seis meses de treino com o Danaher e saiu com duas medalhas. A origem do torneio está em como nasceu o ADCC.
O que foi contado
Para Fábio Gurgel, a força americana no sem kimono se explica por Marcelo Garcia: sua academia nos Estados Unidos foi copiada por todos, e John Danaher e Eddie Bravo beberam dessa fonte.
Com John Danaher, Eddie BravoContado por Fábio Gurgel no Connect Cast · 1:47:46 · ler o artigoSegundo Fábio Gurgel, Gordon Ryan é o único aluno de John Danaher formado desde o zero e é aluno da academia de Renzo Gracie.
Com John Danaher, Renzo GracieContado por Fábio Gurgel no Connect Cast · 1:52:30 · ler o artigoJonathas Gracie disse que o no-gi foi o jeito que os americanos encontraram para igualar e depois passar o nível dos brasileiros, que até então dominavam os mundiais.
Contado por Jonathas Gracie no Pura Connection · 1:07:23 · ler o artigoSegundo Sylvio Behring, o American jiu-jitsu é um processo natural da liberdade dada pelos brasileiros, e resistir a ele só fortalece o movimento.
Contado por Sylvio Behring no Pura Connection · 0:34:11 · ler o artigoMarco Aurellio de Queiroz afirmou que, na disputa entre jiu-jitsu e luta livre, os Gracie desestimularam o treino sem kimono e as chaves de pé e calcanhar para frear a expansão da luta livre, o que para ele atrasou o sem kimono no Brasil.
Contado por Marco Aurellio de Queiroz no Pura Connection · 1:19:07 · ler o artigoRenato Santos disse que não conhece campeonato infantil de jiu-jitsu sem kimono no Brasil e que as academias que treinam no-gi no país usam a regra da IBJJF.
Contado por Renato Santos no Pura Connection · 1:10:57 · ler o artigoSegundo Rodolfo Vieira, ele e Buchecha treinavam de kimono e só tiravam o kimono um ou dois meses antes do ADCC; ele próprio nunca treinava sem kimono fora disso.
Com Marcus AlmeidaContado por Rodolfo Vieira no Connect Cast · 1:27:03 · ler o artigoRoyler Gracie contou que disputou quatro ADCC, ganhou três e ficou em terceiro em um. Tirava o kimono uma, duas e três semanas antes nos três primeiros; no quarto tirou dois meses antes e perdeu.
Contado por Royler Gracie no Connect Cast · 0:50:15 · ler o artigoRoger Gracie contou que John Danaher é faixa-preta de Renzo Gracie, foi aluno que virou professor da academia em Nova York e dava aula de jaqueta e faixa, sem a calça do kimono. A aula dele sem kimono ficou famosa.
Com Renzo GracieContado por Roger Gracie no Connect Cast · 0:58:13 · ler o artigoRoger Gracie contou que, de faixa-marrom para preta, quando começou a lutar sem kimono e MMA, passou a ir a Nova York, e Renzo Gracie lhe ensinou várias posições sem kimono que ele usa até hoje.
Com Renzo GracieContado por Roger Gracie no Connect Cast · 0:13:33 · ler o artigoSegundo Neiman Gracie, ele treinou com John Danaher por mais de dez anos e viu o começo do time forte que Danaher formou, principalmente no sem kimono.
Com John DanaherContado por Neiman Gracie no Pura Connection · 0:43:17 · ler o artigoSegundo Rodrigo Comprido, John Danaher conta em vídeo que a ideia sobre a importância das chaves de perna veio de Dean Lister, campeão do Abu Dhabi com chave de pé.
Com Dean ListerContado por Rodrigo Comprido no Pura Connection · 1:28:24 · ler o artigoJean Jacques Machado contou que, quando Eddie Bravo voltou do Abu Dhabi, tirou a própria faixa-preta e deu a ele, e que Eddie depois quis abrir uma academia só sem kimono.
Com Jean Jacques MachadoContado por Jean Jacques Machado no Pura Connection · 0:57:58 · ler o artigoViktor Doria contou que Nicholas Meregali chegou ao ADCC com seis meses de treino sem kimono com John Danaher e três lutas no currículo, uma delas contra Rafael Lovato, e saiu com duas medalhas.
Com John DanaherContado por Viktor Doria no Pura Connection · 0:31:01 · ler o artigo
Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.