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Pura Connection · Marco Aurellio de Queiroz

Marco Aurellio dá razão a Gordon Ryan sobre o atraso do jiu-jitsu no Brasil

O líder da equipe que nasceu no sótão da casa dos pais diz que o Brasil pode perder o domínio do esporte se não mudar a forma de treinar.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 17 out 2022 (1:23:46).

Quando o Gordon Ryan disse num podcast que em pouco tempo não haveria mais brasileiro nas finais, muita gente no Brasil torceu o nariz. O Marco Aurellio de Queiroz, faixa-preta, campeão brasileiro sem kimono e líder da Pirâmide, foi pelo caminho contrário. No Pura Connection, ele disse que o americano tem razão, e explicou por quê.

Assisti à conversa e gostei do jeito que ele falou. Sem torcida e sem raiva. O Marco podia ter jogado para a arquibancada, como ele mesmo admitiu, e preferiu olhar para o que acontece dentro das academias daqui.

“Eu acho que faz muito sentido, se tudo continuar dessa forma.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:02:52

O que o Brasil está fazendo errado

Para o Marco, o problema começa na cabeça. Ele contou que cresceu ouvindo que não podia frequentar a academia de outro professor, que quem ia muito a outro lugar ficava malvisto, e que no Brasil o adversário de campeonato vira inimigo. Segundo ele, nos Estados Unidos isso nunca existiu, e o resultado aparece no tatame: os americanos treinam juntos, lutam contra amigos e seguem evoluindo.

Ele deu o exemplo da final do Brasileiro sem kimono de 2022, que perdeu para o Igor Rodrigues. O Marco contou que conversou com o Igor antes e depois da luta e que hoje o rapaz treina com ele toda semana. Muita gente acharia um absurdo, disse ele, mas os dois sobem juntos.

O segundo ponto é o estudo. O Marco se diz nerd de jiu-jitsu desde a faixa colorida. Contou que, ainda roxa, aprendeu posições do Marcelinho num HD cheio de vídeos, e que até hoje pouca gente no Brasil tem o hábito de assistir e copiar quem está ganhando. Ele lembrou que foram brasileiros como o André Galvão que ensinaram os gêmeos americanos que venceram o Mica.

“Os caras se espelharam na gente. A gente tem que fazer o que eles fizeram: pegar o que eles têm.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:06:35

Danaher, a peça que mudou tudo

Perguntado sobre o que faz o Gordon estar tão acima dos outros, o Marco foi direto ao treinador. Ele disse que não conhece ninguém daquele grupo pessoalmente, mas que, para ele, quem faz a maior diferença é o John Danaher.

“Alguns não perceberam, mas ele já mudou o esporte. Ele sistematizou, ensina de outra forma e você aprende mais rápido.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:13:56

Segundo o Marco, o Danaher tem sistema para kimura, para as pernas, para pegar coxa, uma metodologia diferente de tudo o que ele aprendeu. Somado a isso, ele descreve o Gordon como uma máquina de evolução: come certo, dorme certo, treina certo e trabalhou tanto a parte mental que, nas palavras dele, ganha antes de entrar na luta.

Ele também acha que os americanos passaram a ditar as regras. Na leitura do Marco, os atletas de ponta estão deixando a IBJJF de lado porque não dá para viver dela, e o Gordon nunca teria ficado rico lutando só esses campeonatos. Os eventos que pagam são quase todos sem kimono, com regras próprias e sem aquele placar de pontos.

A chave de pé e a velha briga com a luta livre

O trecho que mais me pegou foi a explicação dele para o atraso do Brasil no sem kimono. O Marco contou que cresceu num ambiente em que treinar sem kimono era malvisto, porque, na cabeça de muita gente do kimono, quem tirava o pano virava lutador de luta livre. Ele lembrou que, naquela época, havia rivalidade entre jiu-jitsu e luta livre.

Na visão dele, os Gracie buscavam dominar o cenário com o kimono, e incentivar o sem kimono seria incentivar o concorrente. O Marco disse acreditar que foi por isso que chave de pé e de calcanhar ficaram de lado, já que os lutadores de luta livre eram bons nisso. Ele mesmo contou que só passou a atacar mais as pernas recentemente.

“A gente deixou de lado esse negócio de atacar o pé. Eu acho que foi muito isso que travou o sem kimono aqui.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:19:37

Ele citou ainda os russos, que segundo ele têm base fortíssima de wrestling e só não dominam porque ainda não investem no jiu-jitsu. É o mesmo raciocínio do Gordon: se o dinheiro chegar, a vantagem brasileira vai embora.

Uma equipe que nasceu no sótão

A trajetória do próprio Marco explica boa parte dessa visão. Ele contou que começou no judô e no karatê ainda criança, e que nunca se imaginou faixa-preta. Na faixa azul, disse, nunca ganhou um campeonato. Na roxa ficou em terceiro e segundo. O primeiro título veio só na marrom, num campeonato em 2013, quando nem ele acreditava que tinha vencido.

Por volta de 2015 e 2016, depois de sair da academia antiga, ele e o irmão passaram a treinar em lugares diferentes. Uns amigos do irmão pediram aula, e eles abriram umas placas de tatame que estavam guardadas havia três anos no sótão da casa dos pais, em Alphaville. Mal cabiam dois treinos ao mesmo tempo. Foi ali que nasceu a Pirâmide.

Numa viagem de seminários pela Europa, o Marco contou que treinou meia hora com um lutador checheno e foi arremessado sem chance. Ligou para o irmão no mesmo dia pedindo para achar um professor de wrestling no Rio. Assim chegou o Will, de quem eles foram os primeiros alunos. Na preparação física, foi atrás do Ítalo Vilardo depois de estudar sozinho sobre periodização.

Aos poucos vieram faixas-pretas como o Tiago, que ele conheceu como adversário de campeonato e convidou para treinar. Hoje a equipe atende também três jovens que querem viver da luta, com treino, nutrição e viagens bancados, sem cobrar nada em troca, segundo ele.

“Na faixa azul eu nunca ganhei um campeonato. Nunca ganhei um campeonato.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 0:34:40

O que fica da conversa

O Marco contou que ganhou o Brasileiro sem kimono em 2019 no médio adulto, chegou perto nas seletivas e admite que travou em algumas delas com mais medo de perder do que vontade de ganhar. Ele disse que as melhores lutas dele vieram quando parou de se cobrar e passou a curtir o dia do campeonato.

O alerta dele é simples e vale para qualquer academia: treinar com quem é de outra equipe, estudar vídeo, copiar quem vence e parar de tratar chave de pé como coisa proibida. O Brasil criou o esporte, lembrou o Marco, e não precisa deixar que passem por cima. Mas, para ele, isso depende de se atualizar agora.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.