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Equipe

Pirâmide Grappling: a equipe que nasceu num tatame dentro de casa

Como dois irmãos saíram de um sótão com placas de tatame velhas e viraram referência do sem kimono no Brasil.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 5 min de leitura

Fundação
Por volta de 2015 e 2016
Onde
Casa dos pais dos fundadores, em Alphaville
Fundadores
Marco Aurellio de Queiroz, Lucas Alexandre

A Pirâmide Grappling nasceu num sótão. Nas entrevistas que eu li, os irmãos Marco Aurellio de Queiroz e Lucas Alexandre contam como um tatame montado na casa dos pais virou um dos endereços mais procurados do sem kimono no Brasil.

Tudo o que está aqui foi dito por eles e por quem treina com eles, em duas conversas no Pura Connection e na entrevista do Lipe Machado. Onde as versões mudam um pouco, eu mostro as duas.

Origem: placas de tatame guardadas no sótão

O Marco começou cedo. Segundo ele, fazia caratê na escola desde pequeno e, quando mudou de colégio aos 7 anos, em 1998, foi para o jiu-jitsu. Era a época em que a Gracie Barra e a Alliance estavam em alta na Barra. O Lucas é seis anos mais novo e seguiu o mesmo caminho.

Pódio do ADCC Submission Fighting
O crescimento global dos torneios sem kimono e do ADCC consolidou novas escolas focadas no grappling moderno. (Wikimedia Commons)

A Pirâmide começou, pelas contas do Marco, por volta de 2015 e 2016. Os dois tinham saído da academia antiga e estavam treinando em lugares diferentes. Uns três ou quatro amigos do Lucas pediram aula em grupo. Na casa dos pais, em Alphaville, tinha um material esquecido.

“A gente já tinha umas placas de tatame guardadas por três anos lá na casa, que a gente nem tinha aberto.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 0:17:58 · ler o artigo

O espaço era pequeno. O Marco contou que mal cabiam dois treinos ao mesmo tempo. Ele dava aula duas vezes por semana para faixas-brancas e azuis e, no resto do tempo, treinava com o irmão. Tinha dia em que não aparecia ninguém. Ele mesmo chama essa fase de complicada.

O título de 2019 que chamou atenção

A virada tem data. Em 2019, o Marco venceu o Campeonato Brasileiro sem kimono na categoria médio adulto, treinando no espaço da família. O Lucas e o Lipe contam a mesma coisa: foi esse título que fez o cenário olhar para a Pirâmide. Segundo o Lucas, a turma passou a pensar que, se os caras eram campeões treinando em casa, longe das academias grandes, ali tinha algum diferencial.

Um detalhe que o Marco fez questão de contar: ele nunca foi um fenômeno nas faixas coloridas. Nunca ganhou campeonato na azul, ficou em segundo e terceiro na roxa e só conquistou o primeiro título na marrom, em 2013. Na roxa, aprendeu posições do Marcelo Garcia estudando um HD cheio de vídeos.

Quem fez a equipe

O Lipe Machado é um bom retrato de como a Pirâmide foi juntando gente. Ele contou que o Lucas o conhecia da faculdade e o chamou numa festa para treinar no tatame que estava montando em casa. Em 2021, o Lipe ganhou o Rio Open finalizando as duas lutas e, numa viagem com 14 atletas da equipe, lutou o absoluto com 60 quilos e finalizou um adversário de mais de 100 quilos com heel hook em uns 40 segundos.

Tem também quem veio de fora. O Gabriel Souza, lutador de MMA, contou que treina sem kimono na Pirâmide. Segundo o Lucas, Rodolfo Vieira já passou pela academia para treinar, e lutadores de luta livre começaram a aparecer. Os ataques de perna deles obrigaram os irmãos a estudar leglock a fundo.

Um caso que o Marco contou mostra o espírito da casa: em agosto de 2022 ele perdeu a final do Brasileiro sem kimono para o Igor Rodrigues por dois pontos. Depois disso, o Igor passou a treinar com ele toda semana.

Rachas e mudanças: a aposta só no sem kimono

Aqui as versões têm tons diferentes. Para o Lucas, a ida para o sem kimono foi natural. A equipe treinava das duas formas, foi competindo, e os resultados apareciam mais sem o pano.

“A gente tinha o nosso espaço, treinava de kimono e sem kimono, e com o tempo a equipe foi ganhando forma. E os resultados melhores eram os sem kimono.”

Lucas Alexandre, no Pura Connection · 0:09:30 · ler o artigo

O Lipe conta como uma decisão com data marcada. Antes, a grade era kimono na segunda, quarta e sexta, wrestling na terça e sem kimono na quinta, e o Marco não deixava ninguém tirar o pano no dia do kimono, a não ser quem estivesse inscrito em campeonato sem kimono. Resultado: todo mundo se inscrevia só para poder treinar assim. Depois da seletiva do ADCC de 2022, a equipe resolveu ficar só no sem kimono, mesmo ouvindo que no Brasil o jiu-jitsu é de kimono.

“Tinha gente na academia que gostava de kimono, mas todo mundo abraçou a ideia.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 0:39:51 · ler o artigo

O Marco tem uma leitura dura sobre por que o Brasil demorou. Para ele, na rivalidade de jiu-jitsu contra luta livre, os Gracie desestimularam o treino sem kimono e as chaves de pé e calcanhar para frear a expansão da luta livre.

“Eu acho que foi muito isso que travou o sem kimono aqui.”

Marco Aurellio de Queiroz, no Pura Connection · 1:19:37 · ler o artigo

O jeito de treinar

A Pirâmide funciona com método e planilha. O Marco contou que, depois de estudar sozinho sobre periodização, procurou o preparador físico Ítalo Vilardo. Numa viagem de seminários pela Europa, treinou com um wrestler checheno e decidiu no mesmo dia procurar aula de wrestling no Rio. Hoje, segundo os irmãos, são duas aulas de wrestling por semana, que eles consideram também uma forma de defesa pessoal.

Outra regra veio do Texas. O Daniel Merola contou que passou um mês em Austin com John Danaher, junto com o Marco, o Lucas e o Lipinho. Segundo os irmãos, de lá eles trouxeram a ideia de treinar sem machucar o parceiro, porque atleta que se machuca não compete. E tem a padronização: as aulas são filmadas e vão para a plataforma Pirâmide TV, que já passa de mil aulas.

“Os professores sempre vão seguir as técnicas que estão sendo gravadas ali.”

Lucas Alexandre, no Pura Connection · 0:04:48 · ler o artigo

Onde está hoje

Segundo os irmãos, a Pirâmide está abrindo uma terceira sala e recebe estrangeiros todos os dias, alguns ficando até três meses no Rio só para treinar. O Lucas contou que, num evento em que era corner do Marco, Cobrinha e Michael Langhi disseram que já acompanhavam o trabalho da equipe.

O Marco também virou voz de uma discussão que incomoda muita gente. Quando o Gordon Ryan disse que em pouco tempo não haveria brasileiro nas finais se o país continuasse treinando do mesmo jeito, ele concordou. Esse debate está em por que os americanos dominam o no-gi e na entrevista completa do Marco.

O que fica dessas conversas é uma equipe pequena que escolheu fazer uma coisa só e fazer bem. Os irmãos não brigam com o kimono. Segundo eles, têm mais tempo de kimono do que sem, uns 20 anos de tatame, e escolheram se especializar. Para quem quer ouvir a história inteira, vale ver a entrevista dos dois e a do Lipe Machado.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.