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Pura Connection · Lipe Machado

Lipe Machado conta como largou a engenharia para virar fera do heel hook

O faixa-preta da Pirâmide Grappling ficou anos quase sem treinar, voltou na pandemia e em pouco tempo estava lutando com os melhores do mundo no sem kimono.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 25 jan 2024 (1:27:22).

Quando o professor ofereceu a faixa-preta, Lipe Machado passou um mês pensando. Podia ficar mais um ano de marrom ganhando experiência ou pegar a preta e aprender apanhando. Escolheu a segunda. Perdeu muito, por coisas bobas, e diz que foi justamente essa bagagem que explodiu depois, quando o mundo do grappling passou a conhecer o nome dele.

“Me dá a preta, vamos embora.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 0:26:19

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi o caminho torto. O Lipe não é aquele garoto que veio construindo todas as faixas coloridas em campeonato. Ele largou o tatame na adolescência, fez faculdade de engenharia, surfou todas as manhãs e só voltou a treinar firme na pandemia. Em poucos anos virou um dos nomes do heel hook no Brasil.

Do pedido de MMA ao sem kimono

Segundo o Lipe, tudo começou aos 10 ou 11 anos, em Jacarepaguá. Ele pediu ao pai para fazer MMA e, no dia seguinte, o pai o levou a uma academia de jiu-jitsu, a LCCT, do Luís Cláudio Preto e do irmão Thiago, que ele contou serem faixas-pretas do Rickson Gracie. Queria dar soco e ganhou um quimono. Se apaixonou no primeiro dia.

O gosto pelo sem kimono veio do Weldon Carvão, um professor que depois foi para a luta livre. O Lipe contou que, aos 14 ou 15 anos, pesava 50 quilos, e o Weldon tinha 120. No fim do treino, os dois tiravam a parte de cima do quimono e ficavam brincando sem camisa. Para ele, na época, aquilo era só brincadeira. Não sabia que era outro esporte.

Aos 18 anos veio a faculdade. Ele escolheu estudar à noite para poder surfar de manhã, e como o treino também era à noite, praticamente parou. Ficou dos 18 aos 23 anos indo de vez em quando, parado na faixa-roxa. Fez uns dois anos e meio de engenharia e desistiu: disse que não queria aquele estilo de vida e que sempre buscou liberdade para escolher o que fazer.

A volta na pandemia e a Pirâmide

O convite para treinar na Pirâmide Grappling já tinha vindo do Marco e do Lucas. O Lucas conhecia o Lipe da faculdade e das competições de faixa-amarela e o chamou numa festa para treinar no tatame que estava montando em casa. Na pandemia, o Lipe passou a ir toda quinta, dia do treino sem kimono. No fim de 2020 decidiu treinar todo dia e, em dezembro, o Marco deu a ele a faixa-marrom.

Ele contou que tomou um susto: achava que não tinha nem nível de roxa. Mas a faixa trouxe responsabilidade. Se parasse, pensou, ia voltar apanhando de faixa-azul.

Em 2021, no primeiro campeonato, um Sul-Americano sem kimono na faixa-marrom, ele finalizou as duas primeiras lutas, a segunda com um heel hook, e perdeu a final por descuido. Depois ganhou o Rio Open finalizando as duas lutas. Numa viagem com 14 atletas da Pirâmide, lutou o absoluto pesando 60 quilos e, segundo ele, finalizou um adversário de mais de 100 quilos com heel hook em uns 40 segundos. Foi aí que a chave virou. Na volta, disse à mãe que ia tentar viver de jiu-jitsu.

Quando a academia inteira tirou o quimono

O Lipe contou que a grade da Pirâmide era kimono segunda, quarta e sexta, wrestling na terça e sem kimono na quinta. O Marco não deixava ninguém treinar sem kimono no dia do kimono, a não ser quem estivesse inscrito num campeonato. Resultado: todo mundo se inscrevia em campeonato sem kimono só para poder treinar assim.

Depois da seletiva do ADCC de 2022, quando o Lipe pegou a preta, a equipe decidiu largar o quimono de vez. Muita gente de fora chamou de loucura, dizendo que no Brasil o jiu-jitsu é de kimono. Segundo ele, a turma começou a se destacar justamente por fazer o que quase ninguém fazia, e viu que rendia mais sem kimono.

“A gente gosta disso, vamos fazer o que a gente gosta.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 0:40:21

Ele acredita que o sem kimono está virando outro esporte. Lembrou que antes o pódio do ADCC era quase igual ao do Mundial e hoje só um ou outro atleta faz bem as duas coisas. Comparou com o judô e o wrestling: mesmo objetivo, esportes cada vez mais diferentes.

Perder para ganhar força

O ano de 2022 foi de pancada. Na seletiva do ADCC ele pegou covid, treinou só 15 dias e ainda assim chegou às quartas de final, perdendo na decisão para o Kauan. No Brasileiro sem kimono, ele e o Marco chegaram à final, os dois da Pirâmide, e ficaram em segundo; o Lipe perdeu para o Lucas Pinheiro ao puxar para atacar um heel hook. No Mundial, na Califórnia, caiu na primeira luta.

Ele também treinava demais, sem preparação física adequada, e disse que pegou várias infecções e se machucou muito. Sem ninguém do peso dele na academia, o treino mais leve era contra alguém 10 quilos mais pesado. Mesmo assim, tirou uma filosofia curiosa das derrotas.

“Quanto mais você perde, mais poder você tem pro próximo campeonato.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 0:51:27

Para ele, quem só ganha acumula nervosismo com medo da primeira derrota. Quem já perdeu de todo jeito entra mais leve. Ele diz aos alunos que o campeonato de agora serve para o próximo, ganhando ou perdendo.

“A raiz plantada foi ano passado. Esse ano comecei a colher um pouco.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 0:56:40

Danaher, Cazaquistão e febre no dia da luta

Segundo o Lipe, a virada técnica veio numa temporada na equipe do John Danaher, nos Estados Unidos. Lá ele treinou com o Gary Tonon, que chama de ídolo, e com o Giancarlo Bodoni. Ele contou que todos os resultados vieram depois dali.

O contato com o Mo Jassim, organizador do ADCC, começou quando o Mo comentou uma foto dele na seletiva. Depois que o Lipe venceu o ADCC Open de São Paulo, veio o convite para o time montado por Mo num evento por equipes no Cazaquistão. Ele contou que o Mo consultou o pessoal do Danaher antes de chamá-lo. O time tinha nomes como Gabriel Sousa, com quem dividiu o quarto, e Mica Galvão.

Lá ele viu neve pela primeira vez, com 20 graus negativos. No segundo dia acordou com febre e passou o dia na cama. Nem aqueceu. Quando pisou na área de luta, contou, o corpo acordou. E a lição que ele tira da estreia num palco transmitido para o mundo é que entrou relaxado demais para sentir pressão.

“Imagina que aquilo poderia ser minha única vez na vida indo pro Cazaquistão. Vou perder tempo ficando nervoso?”

Lipe Machado, no Pura Connection · 1:08:46

O que falta para o Brasil

No fim, o Lipe apontou duas coisas que viu na equipe do Danaher. Primeiro, um time só de competição, separado da academia, como um time de futebol que não mistura o profissional com a escolinha. Segundo, um técnico olhando 100% para o atleta. Na Pirâmide, o Marco é o coach dele, mas também está treinando e não vê o treino inteiro. Ele citou a equipe do Melqui Galvão como exemplo de quem já tem isso.

O que eu levo da conversa é a mensagem para quem começou tarde ou parou no meio do caminho. O Lipe contou que outro dia um garoto recém-formado em economia pediu aula a ele nos Estados Unidos, querendo viver de jiu-jitsu. A resposta foi mostrar a própria história: dá para começar de novo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.