Pura Connection · Gabriel Souza
Faixa-preta Gabriel Souza revela o erro que causou sua única derrota no MMA
Com oito finalizações em nove vitórias, o lutador conta o nocaute no One Championship, o apelido de playboy no Favela Combat e a briga contra o próprio ego.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 abr 2025 (1:11:25).
A única derrota da carreira de Gabriel Souza no MMA veio na luta mais importante da vida dele até então: a primeira fora do Brasil, no One Championship. Ele foi nocauteado no primeiro round. Na conversa com o André no Pura Connection, o faixa-preta de jiu-jitsu não culpou juiz nem azar. Disse que faltou experiência para mudar o plano quando ele não funcionou.
“Faltou ali essa calma, essa experiência dentro da luta. Acho que o principal fator foi isso.”
Gabriel Souza, no Pura Connection · 0:38:14
Assisti à conversa e gostei do jeito dele. Gabriel é jovem, tem nove vitórias no MMA, oito delas por finalização, e fala da derrota com a mesma naturalidade com que fala das vitórias. O André contou logo no começo que já tinha treinado com ele: Gabriel era faixa-roxa, o André já era faixa-preta, e levou a pior. Foi assim que os dois se conheceram.
O jiu-jitsu como porta para o MMA
Gabriel começou no jiu-jitsu aos 13 anos, numa academia do lado de casa onde treina até hoje. Um primo falava da luta, ele foi experimentar e, em um ano, estava apaixonado. Com 14, 15 anos, olhou para o mercado do jiu-jitsu e achou difícil ganhar a vida só com ele. Decidiu ir para o MMA, onde poderia usar o jiu-jitsu e havia mercado. Segundo ele, mal sabia onde estava se metendo.
Ainda na escola, começou no muay thai sem largar o jiu-jitsu. Por pressão da família, fez faculdade de administração, e no fim do curso resolveu levar a carreira a sério. A primeira luta amadora saiu aos 20 anos, arrumada pelo treinador Alex Gaz, que é seu técnico de MMA até hoje. O evento era o Favela Combat, em Itaboraí.
A estreia durou um minuto e meio. Ele foi para cima, acertou uma mão, o adversário caiu, e ele finalizou no chão. O que ficou na memória foi a arquibancada. O pai, ex-militar e homem sério, que dizia que cabeça não foi feita para tomar porrada e não botava fé na ideia, pulava com os braços para cima. Hoje, conta o Gabriel, ele é seu maior fã.
Depois vieram mais lutas amadoras e as primeiras profissionais em eventos pequenos. Na quarta luta, conheceu quem virou seu empresário por um tempo e foi levado para o LFA, que ele chama de porta de entrada para o UFC. A estratégia sempre foi a mesma: levar para o chão, onde sabia que tinha vantagem.
O playboy do Favela Combat
Tem uma história que eu adorei. Gabriel admite que tem cara de playboy, apesar de vir de uma família de classe média, longe de ser milionário. Nas primeiras lutas no Favela Combat, a torcida apostava contra ele. Na estreia, segundo ele, o dono do evento chegou para o Alex Gaz e disse, olhando para ele, que ia ganhar cinquenta reais de todo mundo.
Depois da luta, vinha gente pedir foto e reclamar que tinha perdido cinquenta reais por causa dele. Hoje, diz o Gabriel, esse tipo de brincadeira acabou. A narrativa só voltou numa luta de boxe recente, em que o adversário se apresentava como o cria da comunidade que ia pegar o playboy. Ele diz que não leva para o coração.
O nocaute no One Championship
Gabriel explicou a derrota em detalhe. Pelos vídeos, o adversário sempre lutava andando para frente. Contra ele, sabendo que o Gabriel queria levar a luta para o chão, o rival recuou o tempo todo. Gabriel insistiu no plano que tinha pensado, se frustrou, tomou alguns golpes e, numa entrada para atacar, levou uma mão que sentiu. A partir dali, nas palavras dele, o adversário sentiu cheiro de sangue e nocauteou.
Ele diz que poderia ter parado, respirado e mudado a estratégia, tentando encurralar o rival nas cordas, por exemplo. Não fez. Depois da derrota, aproveitou para operar o nariz, porque respirava mal, e ficou um tempo parado. Voltou para a luta seguinte menos treinado e com o peso de não poder perder de novo. Foi, segundo ele, o momento em que se sentiu mais frágil mentalmente na carreira.
A volta terminou bem. Gabriel derrubou o adversário logo no início, pegou as costas quando ele tentou levantar e finalizou com um mata-leão em pé, com o rival encostado na grade. Ele chamou de a finalização mais bonita que já fez.
Medo, peso e o chão que não fica no chão
Sobre o medo, ele é direto.
“Todo lutador fica com medo antes de subir ali. O cara que fala que não fica com medo, pelo menos de luta de MMA, está mentindo para você.”
Gabriel Souza, no Pura Connection · 0:13:27
O que muda com a experiência, diz ele, é saber lidar com isso. Gabriel citou John Danaher: um dos maiores benefícios da arte marcial é tomar boas decisões sob estresse. O André lembrou de uma palestra de Demian Maia sobre coragem, em que o Demian contou que sentiu medo a vida inteira.
Ele também criticou o corte de peso. Gabriel vive cerca de 10, 11 quilos acima do peso que bate na pesagem da véspera, e chamou a primeira experiência de corte de uma das piores da vida. Elogiou eventos como o Centurion, que pesa o atleta na véspera e no dia da luta, o que obriga todo mundo a lutar perto do peso real. Lá, ele lutou com 77 quilos. Aprendeu a parte da desidratação com o antigo treinador Rogério Camões, e a preparação física quem faz é a mãe, ex-atleta.
E explicou por que o jiu-jitsu no MMA ficou mais difícil. Antes, quem sabia jiu-jitsu ganhava de lavada. Hoje todo mundo aprendeu a defender queda e a buscar posições para levantar.
“A gente do jiu-jitsu não treina muito manter o cara no chão.”
Gabriel Souza, no Pura Connection · 0:42:01
Ele contou uma luta em que caiu por baixo, fez muita força na meia-guarda, chegou a uma posição de domínio e, menos de um minuto depois, o juiz mandou os dois de volta em pé. Cansado, tomou umas porradas e virou a luta depois. A lição, segundo ele: no MMA não basta dominar no chão, é preciso castigar e evoluir o tempo todo. O André lembrou que Buchecha disse o mesmo sobre essa transição.
Menos ego, mais derrota no Instagram
Hoje Gabriel treina sem kimono na Pirâmide e faz boxe numa academia só de boxeadores, onde, segundo ele, sempre passa aperto. No jiu-jitsu, diz que aprendeu a treinar com menos ego: às vezes se coloca em posições ruins de propósito, ou treina com alguém de nível menor para tentar técnicas que ainda não domina, e acaba finalizado.
“Não posso perder para esse cara que é pior que eu. Mano, isso vai atrasar sua evolução.”
Gabriel Souza, no Pura Connection · 0:57:05
Ele leva a mesma ideia para as redes sociais. Posta derrota, treino ruim e a surra que levou na Tailândia, com o que errou e o que o adversário fez bem. Diz que, se conta todas as vitórias, tem que contar as derrotas também. E é franco sobre o próprio sustento: hoje a principal fonte de renda dele é a internet.
“Hoje, profissionalmente, eu sou mais influenciador do que lutador, mas sou influenciador por causa do lutador.”
Gabriel Souza, no Pura Connection · 1:07:25
Para ele, é o caminho do esporte: não adianta ser o melhor lutador do mundo se ninguém quer assistir. Sem luta de MMA marcada na época da gravação, Gabriel disse que busca o próximo passo com calma. O que fica da conversa, para mim, é a honestidade de um cara jovem que aprendeu mais com uma derrota do que com oito finalizações, e não tem vergonha de mostrar isso.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.