Pura Connection · Sérgio Inácio, Daniel Merola
Policial conta como uma luta de Renzo Gracie na praia o levou ao jiu-jitsu
Sérgio Ignácio passou 33 anos na Polícia Civil usando o jiu-jitsu no lugar da arma e hoje divide o tatame com o filho, que treinou com John Danaher.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 ago 2023 (1:37:48).
Em 1983, na praia do Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, um rapaz magro de uns 70 quilos procurava uma luta para se preparar para a polícia. Ele contou isso para um vizinho adolescente, ainda de faixa amarela ou laranja, e o garoto resolveu mostrar na prática. O vizinho era Renzo Gracie. O rapaz era Sérgio Ignácio, que depois passou 33 anos na Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Assisti à conversa do Sérgio com o filho, Daniel Merola, no Pura Connection, e essa história da praia é das melhores que já ouvi sobre como alguém entra no jiu-jitsu. Segundo o Sérgio, estavam ali o Renzo, um amigo chamado Pedrão e outro chamado Bambam, e os dois apelidos já dizem o tamanho dos caras. O Renzo pediu para o Bambam segurá-lo de qualquer jeito na areia.
“O Renzo saiu da imobilização do Bambam, foi para as costas e finalizou o Bambam.”
Sérgio Inácio, no Pura Connection · 0:17:54
Depois disso, o Renzo virou e perguntou se ele queria tentar. A resposta do Sérgio foi pedir o endereço da academia. O raciocínio dele era simples: se os dois caras mais fortes da praia tinham sido dominados, não seria ele a encarar aquele magrelo.
Os primeiros anos com Carlinhos e Renzo
O Sérgio começou na academia da Figueiredo de Magalhães com Carlinhos Gracie. Pelo que ele lembra, o Carlinhos tinha herdado os alunos de Rolls Gracie, que havia morrido pouco antes (ele acha que em 1982, mas disse que não lembra direito a data). Ficou uns oito meses ali e depois acompanhou o Carlinhos para a Barra, primeiro na Olegário e depois no Espaço Vital, o começo da Gracie Barra.
Quem o levou foi o Renzo, e foi o Renzo que virou o parceiro de treino dele. Como já tinha mais tempo de tatame por causa da família, era ele quem mostrava os detalhes. O Sérgio fez questão de dizer que aprendeu com o Renzo o que sabe de jiu-jitsu, e que o Carlinhos era o mestre de todos, um professor visionário que formou uma tropa de campeões.
“Agradeço aquilo que eu sei de jiu-jitsu, foi ele que me ensinou.”
Sérgio Inácio, no Pura Connection · 0:19:30
A amizade virou família. O Renzo é padrinho do Daniel, e o Sérgio é padrinho do Juan, filho do Renzo. No começo dos anos 90, segundo o Sérgio, ele treinava muito sem kimono com o Renzo, que se preparava para lutar vale-tudo no Japão. Eram treinos de porrada, sem luva. Ele contou que perdeu uns três dentes e deslocou o ombro várias vezes nessa fase.
O jiu-jitsu no lugar da arma
O Sérgio entrou para a Academia de Polícia em 1985, já faixa azul. O professor de defesa pessoal era Walter Guimarães, e o fim de cada aula tinha cinco minutos de luta no chão, cinco de queda e cinco de luva. Quem não sabia boxe, segundo ele, tomava soco na cara do mesmo jeito.
Na polícia, o jiu-jitsu fez diferença de verdade. Ele contou que muitas vezes entregava a arma para um colega e ia ele mesmo se embolar com o suspeito, porque naquela época a maioria dos policiais não lutava. Para ele, a essência do jiu-jitsu está em dominar o outro sem apanhar e sem precisar bater, e por isso considera a arte a melhor para forças de segurança.
“O jiu-jitsu como luta de defesa pessoal me fez deixar de usar arma várias vezes.”
Sérgio Inácio, no Pura Connection · 0:23:38
A história mais forte foi numa operação da Delegacia de Roubos de Automóveis, num condomínio de luxo na Barra. O caseiro escondia carros roubados lá dentro. Na hora da prisão, ele deu cabeçadas nos policiais e saiu correndo. O Sérgio entregou a pistola a um colega, correu atrás, pegou as costas e estrangulou o homem. Segundo o relato, apagou o caseiro cinco vezes, até ele desistir e dar a mão para ser algemado.
Ele também lembrou uma frase de Hélio Gracie: o jiu-jitsu você leva para todo lugar, a arma nem sempre. E recomendou o livro de defesa pessoal do Hélio como leitura obrigatória para todo faixa-preta, a base de onde o professor tira as variações.
Um recado para os professores
O Sérgio tem um programa de defesa pessoal policial e faz questão de manter o nome jiu-jitsu nele, porque foi ali que aprendeu tudo. Ele e o Renzo chegaram a dar um seminário na Academia de Polícia sobre jiu-jitsu para forças da lei.
Ele deixou uma sugestão para quem ensina: voltar às pegadas simples no kimono e usar menos a lapela. Na rua, lembrou, o normal é o agressor estar de short, camiseta ou calça jeans, e uma pegada tradicional se transfere muito melhor para essa situação do que dar uma volta inteira de lapela na perna do adversário.
Sobre chave de pé e de joelho, ele disse ser a favor. Contou que viu um campeonato no Rio, nos anos 80, em que um lutador entrou numa chave de calcanhar misturada com joelho e o adversário caiu berrando. Para ele, a técnica sempre existiu e só era menos usada para ninguém se machucar. São as regras que dizem para onde a técnica vai.
O filho que foi treinar com John Danaher
O Daniel começou no judô aos 3 anos, ficou até os sete ou oito e depois passou para o jiu-jitsu. Tem uns 15 anos de arte e contou que pegaria a faixa-preta em novembro. O pai sempre colocou a defesa pessoal no treino: o aquecimento era defesa de bastão, agarrão, queda e levantada técnica. Faz pouco mais de um ano que ele se dedica à competição de grappling.
O Daniel passou um mês em Austin, nos Estados Unidos, com John Danaher, junto com os amigos Marco Aurélio, Lucas e Lipinho. Ele contou que foram recebidos de braços abertos, que trocaram muita porrada no treino e que o que mais o impressionou foi o silêncio da aula.
“Quando o John fala, todo mundo quieto, olhando, respeitando. Ele fala baixinho e todo mundo ouvindo.”
Daniel Merola, no Pura Connection · 0:50:27
A porta foi aberta pela história do pai. Segundo o Sérgio, o Danaher foi formado pelo Renzo da faixa branca à preta em Nova York, e ele visitava a academia todo ano. Existe até uma foto do Daniel com 8 anos ao lado do John. O Sérgio resumiu a parceria entre os dois assim: o Renzo dava a posição e o John, estudioso, desenvolvia tudo em cima dela.
O que fica da conversa
O que ficou para mim foi a ponte entre duas gerações. O Sérgio aprendeu numa época em que o jiu-jitsu era um nicho e se treinava sem luva e sem medo de perder dente. O Daniel pega a faixa-preta num tempo de intercâmbio entre academias, algo que o próprio pai elogiou. Os dois concordam num ponto: a defesa pessoal é uma etapa do jiu-jitsu que muita academia esqueceu, e evitar a briga faz parte dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.