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Equipe

Alliance: a história da equipe contada por quem a fundou

Como a turma do Jacaré, da Strike e da Master Barra virou uma bandeira só, rachou no começo dos anos 2000 e voltou maior.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 8 min de leitura

Fundação
1993, segundo Fábio Gurgel e Muzio De Angelis; fim de 1994, segundo Léo Castelo Branco
Onde
Rio de Janeiro
Fundadores
Romero Cavalcanti, Fábio Gurgel, Alexandre Paiva, Roberto Traven, Leonardo Castelo Branco, Vinícius Campelo

A Alliance nasceu de um problema bem prático: alunos de academias amigas se enfrentando nos campeonatos. Quem conta isso são os próprios fundadores, em entrevistas diferentes, e cada um lembra de um jeito. Juntei aqui o que o Mestre Jacaré, Fábio Gurgel, Gigi Paiva, Léo Castelo Branco, Vini Campelo e outros disseram, sempre com o nome de quem falou.

Origem: a academia do Jacaré e a Master

Tudo começa com Romero Cavalcanti, o Jacaré. Segundo o Fábio, o Jacaré começou garoto na academia de Carlson Gracie, foi aos Estados Unidos, conheceu Rolls, voltou para treinar com ele e, depois da morte do Rolls, passou a treinar com Rickson. O próprio Jacaré, sentado ao lado do Fábio no Nem Me Viu, contou que o Rolls morreu em 1982 e que ele foi o último faixa-preta graduado pelo Rolls.

Marcelo Garcia de kimono
Marcelo Garcia, pentacampeão mundial e tetracampeão do ADCC pela Alliance. (Wikimedia Commons)

Em 1985, segundo o Jacaré, ele começou a dar aula sozinho, primeiro numa academia no Leblon e depois numa academia de judô em Ipanema, onde o jiu-jitsu tomou conta quando o professor de judô saiu. Em 1989 o Fábio pegou a faixa-preta. Na lembrança do Jacaré, o Fábio já dava aula no Clube Federal, com uma equipezinha dele, e os dois se juntaram para fazer a Master. O Fábio, em outra conversa, disse que virou sócio do Jacaré em 1991, aos 21 anos, e que a sociedade dura até hoje.

O Sérgio Malibu, que dava aula lá de manhã, contou que foi ele quem sugeriu o nome Master. O Jacaré explicou por que o nome dele ficou fora da porta: queria uma coisa mais democrática, em que outros pudessem crescer. O Fábio viu nisso uma lição de liderança.

“Quando você bota o seu nome próprio, você cria um teto. Você não deixa as pessoas brilharem, você não cria novos líderes.”

Fábio Gurgel, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:39 · ler o artigo

O Gigi Paiva lembrou que as primeiras aulas ficavam pregadas na parede e o aluno só treinava depois de fazer todas. O Fábio fala em 36 aulas escritas na parede; o Gigi, em 12. O método, segundo o Gigi, veio da família Gracie, e o Fábio diz o mesmo: o Jacaré passou aos alunos o sistema de aulas da Academia Gracie.

Na mesma época existia a Strike, no Leblon, de Roberto Traven e do Gigi, e a Master Barra do Vini Campelo, uma filial do Jacaré. O Vini contou que o motivo da união foi o de sempre: os alunos competiam entre si. Na hora de escolher o logo, pegaram a águia dele.

“Essa logo da Alliance hoje era minha Master Barra. Eu sou fundador da Alliance.”

Vinícius Campelo, no Pura Connection · 0:49:59 · ler o artigo

O Fábio contou o desenho pelo lado do significado: um triângulo, três pontos de equilíbrio, com uma águia dentro, um animal sem predador. Para ele, nome e logo acabaram funcionando, mas o que fez a diferença foi o trabalho por trás.

Quem fundou e quando: as versões

Aqui as datas não batem. O Muzio De Angelis disse que a Alliance nasceu no fim de 1993, da união da Strike com a Master do Fábio e do Jacaré, mais o Léo Castelo Branco. Ele deu o motivo com todas as letras: enfrentar a equipe do Carlson, que na época era praticamente imbatível.

O Fábio também fala em 1993, em duas entrevistas diferentes. No Nem Me Viu, contou que o Alexandre, o Gigi, tinha a Strike e os alunos do Jacaré começaram a se enfrentar, o que não fazia sentido para gente criada junto. A saída foi uma bandeira só, com um objetivo único: ser a maior equipe de jiu-jitsu do mundo. O Jacaré completou que a Alliance nasceu só como equipe de competição, reunindo as pessoas mais ligadas a eles. Numa terceira conversa, o Fábio descreveu a Alliance como um movimento dentro da academia do Jacaré, com a participação do Léo Castelo Branco, que depois saiu.

O Léo lembra de outra data. Segundo ele, a equipe começou no fim de 1994, com sete fundadores, e ele foi o primeiro presidente. Cuidava das inscrições, montava as chaves e organizou umas dez Copas Aliança.

“A gente fundou a Aliança, eu fui o primeiro presidente, tem estatuto, teve tudo direitinho.”

Leonardo Castelo Branco, no Connect Cast · 1:16:52 · ler o artigo

Na lista do Léo entram ele, o Jacaré, o Fábio, o Traven, o Gigi e o Vini. O Muzio acrescentou o Magrão, irmão do Fábio.

O jeito de treinar: casca-grossa com Rickson por perto

A turma treinava duro. O Gigi contou que, quando ele e o Fábio eram faixas-azuis, o treino da academia era basicamente os dois se pegando. Pensaram em ir treinar com o Rickson de vez. A resposta do Rickson ficou marcada:

“Seria uma honra ter vocês aqui, mas eu acho muito mais importante vocês levantarem a bandeira de vocês.”

Alexandre Paiva, no Pura Connection · 0:27:00 · ler o artigo

Segundo o Gigi, esse conselho segurou a turma do Jacaré unida. O Rickson seguiu por perto: o Fábio disse que treinou com ele com frequência por uns dez anos e nunca conseguiu finalizá-lo. Tem mais sobre isso em a entrevista em que o Fábio conta que bateu nove vezes para o Rickson.

O Fábio guardou uma frase do Jacaré sobre campeonato: o lutador escolhe se vai treinado ou fora de forma, mas lutar é obrigação. Ele contou que repassou isso a muitos alunos. E a fama da turma passava do jiu-jitsu: o Rudimar Fedrigo, da Chute Boxe, disse que, quando viu as lutas no Rio pela primeira vez, achou o Fábio o lutador mais completo e mais parecido com o que eles faziam em Curitiba.

Nos anos 1990 havia rivalidade pesada entre equipes. O Chico Salgado comparou a disputa entre a Gracie Barra e a Alliance a torcida organizada. Já o Demian Maia disse que a equipe do Fábio ficava fora da rivalidade violenta daquela época. Mais tarde veio a disputa com a Atos: o Jacaré contou que a rivalidade com André Galvão foi grande, mas que hoje são amigos e o Galvão deu seminário na Alliance de São Paulo.

São Paulo, o racha e a volta

O Fábio foi para São Paulo, e o Vini lembrou de dormir na casa dele na véspera da primeira aula da primeira academia, que era do Fábio e do Sylvio Behring. Segundo o Demian, no fim dos anos 1990 as três grandes academias de competição de São Paulo eram a do Fábio, a Godoy Macaco e a de Ralph Gracie.

O resultado veio rápido. O Fábio contou que os Mundiais começaram em 1996, com a Alliance já existindo, e que a equipe ganhou em 1998 e 1999. Aí veio o racha, e as explicações mudam conforme quem conta. O Fábio situa em 2001, em outra entrevista em 2001 ou 2002, e disse que a equipe de competição saiu inteira durante uma briga entre federações com a qual a Alliance não tinha nada a ver. O Léo Castelo Branco saiu por volta de 2001 e negou que tenha sido por causa da CBJJ: segundo ele, um dos sócios resolveu tomar conta sozinho. O Léo Vieira falou em diferença de valores; o grupo dele foi para a Brasa e depois ele criou a Checkmat. O Demian também saiu em 2002, mas por volta de 2005 já estava bem com o Fábio.

O Gigi chamou a divisão de momento triste, mas disse que o coração da equipe sempre foram ele, o Fábio e o Jacaré. O Léo Castelo Branco deu crédito a Marcelo Garcia: na visão dele, foi graças ao Marcelinho que a Alliance se segurou naquele período. O Fábio tirou uma lição disso:

“A gente conseguiu entender ali que aquele modelo não era sustentável, que dependia de uma relação pessoal e aquilo poderia se quebrar a qualquer momento.”

Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:24:50 · ler o artigo

Segundo ele, a Alliance passou a investir em metodologia e em suporte para as academias e recuperou o time. A equipe voltou a ganhar o Mundial em 2008 e emendou nove títulos seguidos. Nessa sequência estavam Bernardo Faria, Michael Langhi, Lucas Lepri, Cobrinha, Léo Nogueira, Antônio Peinado, Serginho e Tarsis, e o Fábio disse que aprendeu ali que não existe um caminho só para o campeão. Ele conta a história inteira em esta entrevista.

Metodologia e onde a Alliance está hoje

O Fábio contou que, num seminário na Alemanha nos anos 1990, conheceu um instrutor de outra modalidade cujo professor tinha 50 mil alunos, quando a Alliance devia ter uns mil. Isso o levou a criar uma metodologia, com base no currículo que o Jacaré usava na parede. Sobre o programa de iniciante, há dois relatos dele. Num, o curso já teve 25 aulas e hoje tem 20, com mais foco em defesa pessoal. No Dos Nossos, descreveu três aulas particulares, depois 60 aulas numa turma de iniciantes, e só então o aluno começa a treinar de fato.

Ele também disse que a equipe de competição continua, mas que 99% da escola é pensada para qualquer pessoa conseguir praticar.

“Eu só consigo ter uma equipe de competição porque eu tenho essa base de aluno.”

Fábio Gurgel, no Dos Nossos Podcast · 0:31:28 · ler o artigo

O Traveck disse que, ao assumir a Alliance no Rio, passou o dia com o Fábio em São Paulo e copiou o que funcionava, como a turma separada de faixa-branca. Nem todo mundo aplaude. O Mestre Serrano se disse fã da equipe e chamou o Jacaré de formador de campeões, mas opinou que a Alliance virou uma escola voltada para a classe média para cima, embora tenha sido levantada por atletas da comunidade.

Os números mudam de uma entrevista para outra, e vale mostrar todos, sempre do próprio Fábio. Numa, cerca de 300 escolas em 29 países, meta de chegar a 500 e 12 títulos mundiais por equipe. Ao lado do Jacaré, 29 países e 13 títulos. No Dos Nossos, 30 mil alunos em 31 países, quase 300 filiais e mais de mil professores. Numa terceira, 304 escolas em 32 países. Para ouvir os dois fundadores juntos, vale a conversa do Fábio com o Jacaré.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.