Pular para o conteúdo

Pura Connection · Muzio De Angelis

Muzio De Angelis revela bastidores de Roger Gracie x Xande e Buchecha

O juiz da final absoluta de 2006 conta a pressão da família Gracie, o veto que quase sofreu antes da luta da década e o dia em que um mundial quase terminou sem campeão.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 30 mai 2022 (1:39:50).

Em 2006, na final do absoluto faixa-preta do Mundial, o Xande Ribeiro derrubou o Roger Gracie no finalzinho da luta e o placar virou. A família Gracie invadiu a área de luta para reclamar. No meio de tudo isso estava o árbitro central, Muzio De Angelis, que manteve a decisão. Segundo ele, foi essa luta que projetou o nome dele no mundo da arbitragem.

Assisti à conversa do Muzio no Pura Connection e fiquei impressionado com a quantidade de bastidor que ele guarda. Tem a final de 2006, tem o pedido para tirar ele da luta Roger contra Buchecha, tem uma ameaça de morte e tem uma final de Mundial que quase acabou com os dois finalistas desclassificados. E antes de tudo isso, tem a história de um garoto que começou no jiu-jitsu aos cinco anos, quando ninguém sabia o que era jiu-jitsu.

Um menino de kimono que ninguém entendia

O Muzio contou que começou a treinar em 1977, com cinco anos, levado pelo pai, que era faixa-preta formado por João Alberto Barreto. A academia ficava num prédio comercial em Copacabana, em frente à Confeitaria Colombo. Ele chegava de kimono e os porteiros perguntavam o que era aquilo. Ninguém conhecia.

O pai, segundo ele, nunca deixou ele largar. O Muzio também fez judô no Colégio Santo Inácio e chegou à faixa-roxa. Quando perdeu três campeonatos seguidos e quis parar, o pai deixou ele parar de competir, mas não de treinar. Ele começou a competir de novo em 1988, no juvenil, de faixa-azul, e pegou a faixa-preta em 1994, com 22 anos. Hoje, segundo o Muzio, o pai é faixa-vermelha, nono grau.

Ele também contou como nasceu a Alliance, no fim de 1993. Segundo o Muzio, foi a união da Strike, academia do Leblon de Roberto Traven e Alexandre Paiva, com a Master de Fábio Gurgel e Jacaré, mais o Leonardo Castelo Branco, que ele considera seu segundo mestre. O motivo era simples: a equipe do Carlson Gracie era quase imbatível, e as academias se juntaram para bater de frente.

Vale-tudo, luta livre e uma mãe dentista

O Muzio viu de perto a rivalidade entre jiu-jitsu e luta livre. Ele estava na arquibancada no evento do Grajaú, em que o jiu-jitsu venceu as três lutas, e também no Tijuca Tênis Clube, na luta do Renzo com o Eugênio Tadeu, que terminou em briga generalizada e com a luz do ginásio apagada. Para ele, a primeira noite foi boa para o jiu-jitsu. A segunda não foi boa para ninguém.

Ele mesmo fez um vale-tudo só, em 1996, na Hebraica, no mesmo evento em que lutou o Saulo Ribeiro. Era um round de dez minutos, e a luta seguia até alguém vencer. O Muzio entrou com a costela machucada, depois de uma infiltração, e ganhou rápido. A família foi contra. A mãe, dentista, avisou que a bolsa não pagaria o dente quebrado. Ele parou por ali.

Roger contra Xande: dois contra um

A entrada na arbitragem, segundo ele, foi por acaso. Para pegar o terceiro grau na CBJJ, precisou fazer o curso de regras com o Álvaro Mansor, que acabou chamando ele para trabalhar. Isso foi em 2003, quando ele ainda competia. O Muzio se aposentou das competições em 2008.

A final de 2006 veio carregada. Segundo o Muzio, em 2004 o Roger quebrou o braço do Ronaldo Jacaré, que não bateu e venceu a luta. Em 2005 houve outra polêmica na mesma final, e os atletas fizeram um abaixo-assinado pedindo três árbitros nas finais faixa-preta. A primeira final com trio foi a dele.

Ele contou que o Roger ganhava a luta toda até o Xande encaixar uma queda no finalzinho. O Roger caiu de lado e sentado, e o Muzio marcou os dois pontos. Um lateral ficou sentado, o outro, um faixa-preta de judô, levantou e confirmou.

“Dois contra um. Tá valendo: Xande Ribeiro campeão mundial absoluto.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 0:34:31

Segundo ele, a família Gracie invadiu do mesmo jeito. O Álvaro Mansor foi conferir a regra, e o Muzio, que diz ter memória de elefante, lembrou que cair de costas, de lado ou sentado dava os pontos. O resultado foi mantido. Ele contou que com isso o Roger ficou com quatro vice-campeonatos no absoluto.

“Se tão me dando essa missão aqui, é porque eu tenho condições de fazer bem feito.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 0:43:28

Roger contra Buchecha e o documento na mão

Anos depois, em 2017, veio o que ele chama de cereja do bolo: Roger contra Buchecha, no evento da Kyra Gracie, na Arena Olímpica. Os dois tinham empatado antes no Metamoris e aquela era a luta de desempate.

Segundo o Muzio, 15 minutos antes da luta o Leozinho Vieira, professor do Buchecha e ex-colega de equipe dele, chamou a organização e disse que não queria o Muzio como árbitro central. O motivo seria o parentesco com os Gracie: depois de se separar da mãe dele, o pai do Muzio casou com a Carla Gracie, irmã do Carlinhos, e ele tem duas irmãs Gracie. A resposta dele foi puxar a carteira.

“Leozinho, Muzio Bruno De Angelis. Eu não sou Gracie.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 0:58:45

Ele argumentou que os dois laterais eram excelentes e que não teria como fazer nada sozinho. Acabou apitando. O Roger pegou as costas e finalizou, e o Muzio diz que sentiu o Buchecha entrar derrotado naquele dia. Segundo ele, o Roger se aposentou depois dessa luta. O Muzio admitiu que ficou chateado com o Leozinho por ele ter questionado o trabalho dele, e que hoje os dois só se cumprimentam.

Ameaça, multa e um mundial por um fio

O Muzio não esconde que tinha pavio curto. Ele contou que levou uma multa de 150 dólares da IBJJF depois de devolver xingamentos de um atleta, e que um outro lutador, derrotado numa luta que ele apitou, ameaçou encher ele de tiro. Segundo o Muzio, o atleta foi afastado por cerca de um ano e, tempos depois, apareceu como candidato a deputado pedindo o voto dele.

Ele também lembrou do dia em que amarrou uma faixa-marrom no Kron Gracie, filho do Rickson, depois de uma final no Mundial. A faixa caiu no pé dele, ele achou que o Rickson tinha jogado e amarrou na hora. Levou bronca da IBJJF.

Mas a situação mais difícil, segundo ele, foi a final do absoluto de 2017 entre o Buchecha e o Erberth Santos. Ele estava no vídeo, com o rádio na mão. Os dois já somavam três punições por falta de combatividade, e mais uma desclassificaria os dois finalistas. Pela regra, a final iria para os perdedores das semifinais, Leandro Lo e Bernardo Faria, só que o Bernardo tinha saído com o braço machucado numa kimura.

“Houston, we have a problem.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 1:28:09

O Buchecha raspou, fez dois pontos e foi campeão. O Muzio respirou aliviado.

O que ele defende para o jiu-jitsu

No fim da conversa, o Muzio falou do que acha que o esporte pode perder. Ele aprendeu com Sylvio Behring e Álvaro Barreto que o jiu-jitsu tem várias partes, incluindo luta em pé, luta no chão e defesa pessoal. Na Strike, que ele relançou com sócios, todo professor tem de passar pelo menos uma posição de defesa pessoal por aula.

“Esse negócio de dupla puxada é totalmente contra a arte marcial.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 1:09:45

O que fica, para mim, é o retrato de alguém que viu o jiu-jitsu sair de um prédio em Copacabana e chegar às finais de Mundial com vídeo, três árbitros e o mundo inteiro assistindo. O Muzio diz que o árbitro não pode aparecer mais do que o atleta. Pela conversa, ele apareceu bastante, mas sempre segurando a decisão.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.