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Luta histórica

Roger Gracie x Buchecha: o empate no Metamoris e a revanche de 2017

Os dois lados contam as duas lutas, e o árbitro da segunda revela o que aconteceu no corredor 15 minutos antes.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 4 min de leitura

Quando
Primeira luta no Metamoris, depois do título mundial do Buchecha em 2012; revanche em 2017
Onde
Arena Olímpica, Rio de Janeiro (revanche)
Quem lutou
Roger Gracie, Marcus Almeida
Resultado
Empate no Metamoris; na revanche, Roger Gracie finalizou pelas costas e se aposentou em seguida.

Foram duas lutas entre Roger Gracie e Marcus Buchecha, e cada uma teve um dono moral diferente. Na primeira, no Metamoris, deu empate. Na segunda, no Rio, o Roger finalizou e pendurou o kimono. O bom dessa história é que os dois contaram a sua versão, e o árbitro da revanche, o Muzio De Angelis, contou a dele.

Pela conta do Muzio, na época da revanche os dois somavam dez títulos mundiais cada. Ele chamou aquela de a cereja do bolo da carreira dele como árbitro, e disse que a organizadora, a Kyra Gracie, tratava como a luta da década.

A primeira luta: o Metamoris

O Buchecha contou que o convite veio logo depois de ele ganhar o Mundial de 2012 no peso e no absoluto. O organizador do Metamoris ligou oferecendo uma bolsa que ele nunca tinha ganho, para enfrentar um parente da família Gracie. Ele levou para o pessoal: na cabeça dele, a ideia era mostrar que o Buchecha só tinha ganhado porque o Roger não lutou o Mundial.

Roger Gracie de kimono
Roger Gracie, decacampeão mundial de jiu-jitsu na faixa-preta da IBJJF. (Wikimedia Commons)

Então treinou como louco. A luta era de 20 minutos, só valia finalização, e ele passava uma hora no meio da roda com todos os amigos entrando descansados. Foi desse treino, segundo ele, que surgiu o armlock que aplicou no Roger, e que muita gente achou que foi sem querer. Ele disse que o braço do Roger chegou a estalar, mas o Roger não bateu, e na leitura dele quem lutou melhor foi ele.

O Muzio concorda que o Buchecha foi o vencedor moral, mas acrescenta um detalhe: o Roger lutou com furunculose, tomando antibiótico, no sacrifício. Pelas regras do Metamoris, terminou empatado.

Por que teve revanche

O Roger disse que a primeira luta ficou engasgada e que ele não podia parar sem resolver aquilo. Ele tinha 36 anos, e contou que o auge físico foi dos 28 aos 32, que se manteve até os 36 e que sentia estar chegando ao limite, inclusive de motivação.

“Foi engasgado. Eu falei: é agora ou nunca.”

Roger Gracie, no Connect Cast · 1:28:55 · ler o artigo

O Buchecha lembra de outro jeito. Segundo ele, num programa os dois apertaram as mãos e combinaram que, dependendo do resultado da segunda, fariam uma terceira para desempatar. Ele topou lutar no Rio logo depois do Mundial, achando que já chegaria treinado.

A revanche no Rio, em 2017

Aqui aparece a única estratégia específica que o Roger diz ter montado na carreira inteira. A luta era de 15 minutos, contra um adversário mais novo e mais pesado, que ele esperava ver vir agressivo no começo.

“A única coisa que eu fiz foi essa vez que eu falei: eu vou hoje jogar defensivamente nos primeiros cinco, aí depois eu vou começar a imprimir um ritmo.”

Roger Gracie, no Pura Connection · 0:38:07 · ler o artigo

O Buchecha diz que os papéis tinham se invertido. Ele tinha acabado de lutar oito lutas no Mundial e ganhado peso e absoluto, não descansou e não treinou como devia. Olhando o Instagram do Roger, via o rival focado o ano inteiro só nele.

“Ele era o Buchecha de 2012 e eu era o Roger.”

Marcus Almeida, no Pura Connection · 1:23:37 · ler o artigo

O Muzio contou a luta assim: o Buchecha tentou levar o Roger para baixo, o Roger foi frustrando, puxou para a guarda e, num movimento do Buchecha, pegou as costas e estrangulou. O Muzio achou que o Buchecha chegou a apagar quando ele interrompeu. Ele também lembra que os dois laterais, o Luiz Cabelinho e o Serginho Bujão, sinalizaram em algum momento que os dois estavam amarrando.

“O Roger estava melhor nesse dia, estava mais confiante.”

Muzio De Angelis, no Pura Connection · 1:00:19 · ler o artigo

Os 15 minutos antes da luta

A história que o Muzio mais gosta de contar aconteceu fora do tatame. Segundo ele, 15 minutos antes da luta o professor do Buchecha, Léo Vieira, chamou a organização no corredor e pediu que ele não fosse o árbitro central, por causa do parentesco com os Gracie. O pai do Muzio tinha se casado com uma irmã do Carlinhos Gracie, e ele tem duas irmãs com o sobrenome.

A resposta foi tirar a identidade da carteira e mostrar o nome: Muzio Bruno De Angelis. Ele ainda argumentou que, com dois laterais, não teria como decidir nada sozinho. Acabou apitando. Como a luta terminou rápido e por finalização, disse ele, não sobrou margem para dúvida.

O que veio depois

O Roger se aposentou depois dessa luta. O Buchecha disse que, quando viu o anúncio, pensou na terceira que tinham combinado. Anos depois, ele ainda diz que a única luta que o faria botar o kimono de novo é uma terceira contra o Roger. Contra o campeão absoluto da vez, disse, lutaria só por dinheiro, e isso seria lutar pelos motivos errados.

O Rodolfo Vieira, que viveu a mesma época, resumiu assim: o Roger é o maior do jiu-jitsu em dominância, e o Buchecha, em números. A rivalidade do Buchecha com o Rodolfo tem página própria: Buchecha x Rodolfo Vieira. E a outra final famosa do Roger está em Roger Gracie x Jacaré.

As conversas completas estão na entrevista do Roger sobre a estratégia, na do Buchecha e na do Muzio.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.