Pular para o conteúdo

Pura Connection · Marcus Almeida

Buchecha revela o gesto de Leandro Lo que ninguém viu no Mundial de 2016

O maior campeão do absoluto conta como o rival virou irmão, por que devolveu um título dois anos depois e o que o fez largar o kimono pelo MMA.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 fev 2023 (1:50:14).

Em 2018, muita gente viu Marcus Buchecha fechar a final do absoluto do Mundial com Leandro Lo, machucado no ombro, e levantar a mão do amigo. Virou foto, virou símbolo. O que quase ninguém sabia é que aquilo foi uma retribuição. Na conversa com o André no Pura Connection, Buchecha contou pela primeira vez com detalhes o que o Leandro fez por ele dois anos antes, dez minutos antes de uma semifinal.

Assisti ao episódio inteiro e essa história é o coração dele. Mas tem muito mais: um começo cheio de derrotas, o pai que se endividou para mandar o filho aos Estados Unidos, a lesão que quase acabou com tudo, as lutas com Roger Gracie e Gordon Ryan e a troca do kimono pelo MMA.

De rival marrento a irmão

Buchecha contou que a primeira vez que viu o Leandro foi numa luta contra um amigo dele, o Baiano, que terminou em confusão. Os dois tinham uns 18 anos. Segundo ele, o Leandro machucou o pé naquela luta, não bateu, e dali nasceu uma rivalidade. Buchecha tomou as dores do amigo e passou a não gostar do Leandro, que de fora parecia um cara marrento.

O primeiro confronto dos dois foi numa final de absoluto da faixa-marrom, peso leve contra superpesado. Buchecha ganhou e, segundo ele, parou o ginásio. Depois perdeu para o Leandro num Pan-Americano em 2011. Dali em diante, segundo ele, as carreiras andaram em paralelo, com os dois ganhando e perdendo nos mesmos anos.

A amizade só veio depois da lesão do Buchecha. Ele contou que tinha um camp marcado em Ibiza com o Leandro e o Rodolfo Vieira, quis cancelar, e foi convencido pelo fisioterapeuta. Sentou do lado do Leandro no avião, conversaram por dez horas e, depois de uma semana na Europa, o rival tinha virado irmão.

Dez minutos antes da semifinal

No Mundial de 2016, o primeiro depois da volta da lesão, os dois se cruzaram na semifinal do absoluto. Buchecha contou que um mês antes tinham treinado juntos e sentiu que o Leandro estava aliviando. Estavam no deck, esperando a vez, quando o Leandro chamou ele de canto.

“Acompanhei tudo que tu passou. Vai lá, tá no teu momento. A minha hora vai chegar, mas não é agora.”

Leandro Lo, no Pura Connection · 1:02:30

Segundo o Buchecha, o Leandro disse publicamente que estava machucado, mas era mentira. Só os dois sabiam, e o Leozinho estava do lado. Buchecha ganhou o absoluto e comemorou com o Leandro ao lado, misturando champanhe.

Em 2017 os dois fizeram a final. Buchecha contou que foi uma das lutas mais duras da vida dele, empatada em 2 a 2, decidida por uma punição do Leandro. Em 2018 veio a lesão no ombro do Leandro na final do peso, e aí Buchecha pediu autorização ao Leozinho, que também comandava a equipe, para devolver o gesto. O Leandro nem queria vestir o kimono de novo.

“Quem fez o gesto nobre de verdade foi ele.”

Marcus Almeida, no Pura Connection · 1:09:26

Buchecha falou da morte do Leandro como o momento mais difícil da vida dele. Contou que ele participou bastante do documentário sobre sua carreira, gravado antes de tudo acontecer.

Oito derrotas seguidas e o pai que sujou o nome

Pouca gente imagina, mas o maior campeão do absoluto perdeu na primeira luta nos primeiros oito a dez campeonatos que disputou. Ele contou que começou aos 12 anos, ao mesmo tempo que o surf, ia arrastado pelo pai e só se apaixonou aos 15. No décimo campeonato perdido, trocou um triângulo por um armlock, tomou a passagem e chorou na arquibancada dizendo que aquilo não era para ele. O professor respondeu que ele podia ser fraco e desistir ou aparecer na academia segunda-feira. Ele apareceu. No campeonato seguinte, com 16 anos e faixa-azul, venceu o interno da academia.

Na faixa-preta a história se repetiu. Segundo ele, perdeu o primeiro Mundial numa decisão de árbitro, voltou dos Estados Unidos, parou de treinar e caiu numa fase ruim. A motivação voltou por um carro: um campeonato em Brasília dava um zero quilômetro ao campeão. Ele ganhou, mas o carro era uma picape minúscula em que nem cabia, e acabou vendendo.

Na semana seguinte ia ao Mundial sem kimono de 2011 levando malas para um amigo. O pai viu que ele estava triste e mandou: fica seis meses lá, corre atrás. Pagou a passagem. Buchecha nunca mais voltou e, dando aula particular na Califórnia para sobreviver, ganhou o primeiro Mundial em 2012. Anos depois descobriu que o pai não tinha conseguido pagar aquela passagem e ficou com o nome sujo.

“Foi um sacrifício que ele fez para me ajudar e não me contou.”

Marcus Almeida, no Pura Connection · 0:32:31

Hoje, contou, o pai mora com ele na Flórida.

Três ligamentos e a promessa de sair andando

Com seis títulos de absoluto, empatado com o recorde do Roger, Buchecha planejava chegar a oito e ir para o MMA. Na segunda luta do Mundial seguinte, faltando uns 30 segundos e ganhando, quis forçar uma finalização. Ele mesmo chama de arrogância. Tomou uma raspagem e rompeu três ligamentos do joelho. Saiu da Pirâmide de maca e ambulância e ficou 40 dias sem pôr o pé no chão.

O médico falou em 10 a 12 meses de recuperação, e o Mundial era em 10. Ele fez uma promessa: aquela maca não seria a última lembrança do jiu-jitsu. Voltou em 2016 e ganhou o absoluto. Foi aí, contou, que nasceu a vontade de fazer o que ninguém fez, e ele seguiu ganhando até 2019.

Roger, Gordon e a troca do kimono pelo MMA

Sobre o Roger, Buchecha deu a versão dele das duas lutas. Depois do título de 2012, recebeu o convite para enfrentar o Roger no Metamoris, evento de um parente do Roger, e levou para o pessoal. Treinou uma hora seguida no meio da roda, criou até o armlock que usou na luta, enquanto via o Roger de férias no Instagram. Empataram, mas ele diz ter lutado melhor. Na revanche, no Rio, os papéis se inverteram: Buchecha vinha de dez títulos, se acomodou e foi finalizado. O Roger se aposentou logo depois. Uma terceira luta faria sentido, disse, mas nunca desafiou ninguém.

A final do ADCC contra o Gordon Ryan, segundo ele, foi das lutas mais feias da carreira, uns 30 minutos em 0 a 0. Buchecha contou que tentou se expor para a luta virar briga, e que o Gordon não caiu. Recebe ligações quase toda semana pedindo a revanche, mas só volta ao grappling se o dinheiro valer a pena.

O MMA veio na pandemia. Buchecha foi treinar num camp do Daniel Cormier a convite do Leandro Vieira, irmão do Leozinho. Contou que levou um ano para voltar a acreditar no próprio jiu-jitsu, porque derrubava e o adversário levantava. Na estreia, estava dez vezes mais calmo do que numa final de absoluto.

“No MMA eu entro com pressão zero, eu sou só um faixa-branca na parada.”

Marcus Almeida, no Pura Connection · 1:39:17

O que fica dessa conversa é a ideia que o Buchecha repete várias vezes: os títulos foram o de menos. O Leandro abriu mão de um sonho sem ninguém ver, e ele devolveu na frente de todo mundo. Para mim, essa é a história que o jiu-jitsu devia contar mais.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.