Pura Connection · Roger Gracie
Roger Gracie revela a única estratégia de luta que usou contra o Buchecha
O neto de Carlos Gracie conta que era um garoto gordinho que perdia, explica por que só a finalização prova quem é melhor e lembra como treinava quase sozinho em Londres.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 jan 2022 (1:20:45).
Roger Gracie diz que nunca montou estratégia para enfrentar ninguém. Em toda a carreira, segundo ele, houve uma única exceção: a luta de 15 minutos contra Buchecha, um adversário mais novo e mais pesado. O plano era simples. Jogar na defensiva nos primeiros cinco minutos, deixar o outro gastar energia e só depois apertar o ritmo.
“A única coisa que eu fiz foi essa vez que eu falei: eu vou hoje jogar defensivamente nos primeiros cinco, aí depois eu vou começar a imprimir um ritmo.”
Roger Gracie, no Pura Connection · 0:38:07
Assisti à conversa dele no Pura Connection, gravada quando o Roger tinha acabado de fazer 40 anos. Ele fala da família, do avô Carlos, de como virou atleta, da ideia fixa de finalizar todo mundo, da diferença entre kimono, sem kimono e MMA, e dos anos em Londres. O que amarra tudo é uma ideia que ele repete de vários jeitos: confiar no próprio jogo e ter paciência para construir.
Por que o Roger nunca estudou o adversário
O Roger contou que, fora a luta com o Buchecha, a única coisa que ele ajustava era puxar para a guarda quando o adversário era muito bom de queda. De resto, ele entrava para fazer o jogo dele e reagir ao que aparecesse. A lógica, na explicação dele, é que tentar prever a luta atrapalha. Se o cara é bom de triângulo e você muda o jeito de passar a guarda para se proteger, já está lutando fora da sua zona de conforto.
Sobre o Buchecha, o apresentador lembrou que o cansaço daquele dia foi também mental: o adversário, esgotado, fez um movimento que talvez não fizesse descansado. O Roger concordou que a cabeça pesa. Para ele, quem está estressado enxerga menos opções e escolhe pior.
O apresentador também contou que o Xande Ribeiro, em visita à casa dele, disse que a guarda dele passou dez anos sem ser passada e que o último a conseguir foi o Roger. O Roger não entrou em detalhe sobre isso. Lembrou só que, naquela época, o Xande estava entre os atletas que ele mais encontrava nas finais.
A finalização como prova
O ponto mais forte da entrevista, para mim, é a forma como o Roger enxerga a vitória. Ele diz que ganhar por pontos ou por uma vantagem não significa muita coisa, porque já viu muito lutador pior ganhar de lutador melhor. A única prova que não deixa dúvida, segundo ele, é dominar e finalizar.
“Eu te derrubei, passei a guarda, montei, peguei. O que você tem para falar? Nada.”
Roger Gracie, no Pura Connection · 0:16:05
Ele contou que o jogo dele foi construído desde a academia com esse objetivo, e que a evolução nunca parou depois da faixa-preta. Nos dois últimos campeonatos, segundo o Roger, ele finalizou praticamente todo mundo que enfrentou. Ele também diz que perdeu treinos e lutas, mas que nunca foi amassado numa luta. Algumas derrotas ele aceita sem problema; em outra, acha que foi roubado pelo juiz e que moralmente ganhou, porque o adversário fugiu do confronto.
O Roger resumiu a cabeça dele de um jeito curioso: nunca se preocupou muito em ganhar, só não aceitava perder. A derrota incomodava muito mais do que a vitória alegrava.
O garoto gordinho que ninguém notava
Quem viu o Roger no auge talvez não imagine o começo. Ele contou que ninguém esperava nada dele. Era gordinho, fora de forma, perdia muito nos campeonatos e, quando ganhava, ninguém reparava. Com 14 para 15 anos, decidiu que queria ser o melhor e passou a treinar todo dia.
“Eu era gordinho, fora de forma, perdia muito e, quando ganhava, ninguém reparava muito.”
Roger Gracie, no Pura Connection · 0:26:35
Segundo ele, demorou uns quatro anos até as pessoas começarem a dizer que o garoto estava melhorando. Nesse tempo ele tomou muita massa. Primeiro passou a pegar os faixas-azuis, depois os roxos, os marrons, os pretos e, por fim, os campeões mundiais que antes o pegavam.
Ser Gracie ajudou, mas do jeito dele. O Roger disse que olhava para as gerações passadas, para os avôs Carlos e Hélio e para os campeões da família, e via ali a prova de que dava para chegar lá. Ele garante que nunca sentiu obrigação de provar nada a ninguém. Na opinião dele, quem se pressiona demais cria barreiras para si mesmo.
O básico que leva anos
Uma das partes que mais vou usar nas minhas aulas é a crítica dele à pressa de quem treina hoje. O Roger comparou a um armário cheio de coisas que você nunca usa. Para ele, vale mais saber muito bem poucas posições do que colecionar técnica nova todo dia sem nunca praticar o que aprendeu na semana anterior.
“Eu só consegui aplicar o estrangulamento da montada com eficiência mesmo depois de anos na faixa-preta.”
Roger Gracie, no Pura Connection · 0:41:48
Ele também falou de força. No começo, segundo o Roger, é normal gastar energia para a posição funcionar. A fase seguinte é fazer a mesma coisa com o mínimo de força possível, porque quanto mais força você usa, mais está compensando falta de técnica. E quem depende da força sofre quando envelhece.
Na comparação entre modalidades, o Roger disse que a passagem para o sem kimono foi fácil, porque o jogo dele nunca dependeu muito da pegada. Para ele, a luta de kimono é muito mais técnica, e por isso o atleta de kimono sempre levou vantagem no sem kimono. O difícil foi o MMA. Ele se descreve como lutador que começa devagar e acelera, e no MMA a luta já começa com soco e chute. Contou até que quase perdeu a primeira luta nas faixas coloridas, onde o tempo mais curto o obrigava a acelerar.
Perguntado se o jiu-jitsu corre o risco de perder a essência como esporte, o Roger citou o caratê olímpico como exemplo do que pode acontecer e disse que, na visão dele, a IBJJF é quem mais tenta manter a essência da luta. Ele acrescentou que nenhuma regra muda a cabeça do atleta: quem quiser amarrar vai amarrar.
Londres, o pai e o Bráulio
A ida para a Inglaterra, segundo o Roger, começou na adolescência. O pai dele, Maurício Gomes, morou lá alguns anos dando aula, e o Roger passava as férias de verão com ele desde a faixa-azul. Quando pegou a faixa-preta, surgiu a chance de abrir a própria academia em Londres, e ele aproveitou. A prioridade continuou sendo a carreira de atleta.
O problema era treinar. Ele contou que tinha só três ou quatro parceiros, faixas-roxas. O Bráulio também morava em Londres, e os dois se pegavam duas vezes por semana. Antes de cada campeonato, o Roger passava uns dois meses no Rio treinando com todo mundo.
“Pelo fato de que ninguém me colocava em perigo, eu comecei a desenvolver coisas que não eram o meu forte.”
Roger Gracie, no Pura Connection · 1:16:40
O curioso é que ele vê essa falta de parceiros como vantagem. Treinando com gente mais fraca, o Roger diz que conseguiu lapidar o básico e desenvolver o que não era o forte dele, e que voltava ao Rio melhor do que tinha ido.
O que fica da conversa
O Roger também falou muito do avô Carlos. Segundo ele, Carlos nunca criou a família de forma tradicional, cuidou do lado espiritual, escreveu livros e desenvolveu a dieta Gracie, enquanto o Hélio assumiu a liderança dentro do tatame. O Roger contou que pegou o avô já no fim da vida e que a mãe dele está escrevendo a biografia de Carlos. É do avô que ele tira a ideia de seguir evoluindo depois que o corpo passa do auge.
Hoje, segundo o Roger, ele treina por prazer e quer fazer a academia crescer, abrir outras e montar um projeto social no Brasil, com incentivo da mãe. Saí da conversa com a sensação de ter ouvido o mesmo Roger das lutas: sem pressa, sem firula, confiando no básico bem feito.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.