Connect Cast · Roger Gracie
Roger Gracie admite que nunca amou o MMA e só lutava por ser Gracie
O dono de dez títulos mundiais de jiu-jitsu fala do peso do sobrenome, das lutas contra Marcelo Garcia e Jacaré e do segredo de Gordon Ryan.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 8 jan 2024 (1:42:59).
Roger Gracie dominou o jiu-jitsu de kimono por mais de uma década, chegou ao décimo título mundial e mesmo assim entrou no MMA sem vontade nenhuma. Em entrevista ao podcast Connect Cast, ele contou que nunca gostou de lutar com luvas e que só foi para o MMA porque, na família dele, esse era o caminho de todo Gracie lutador.
“Eu sempre amei lutar jiu-jitsu. Eu nunca amei lutar MMA.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 0:25:29
Assisti à conversa inteira e o que mais me pegou foi a sinceridade. Com a calma de sempre, o Roger falou do MMA, das lutas contra Marcelo Garcia e Jacaré, do que faz o Gordon Ryan ganhar de todo mundo e até do filho de 14 anos, que avisou que não quer ser lutador.
O caminho Gracie que ele não escolheu
Segundo o Roger, desde moleque ele via que todo Gracie que lutava fazia jiu-jitsu e depois ia para o MMA. Todas as gerações antes dele tinham feito isso. Quando pegou a faixa-preta e já estava ganhando quase tudo de kimono, o passo seguinte parecia obrigatório. Querer ou não querer nem entrava na conta.
“Eu lutava mais meio que por obrigação de ser Gracie, para te falar a verdade.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 0:25:29
Além da falta de vontade, o corpo atrapalhava. O Roger tem 1,94 m e pesa normalmente entre 97 e 98 kg. Nas palavras dele, era leve demais para a categoria até 93 kg e pesado demais para a de 84 kg. Ele fez quatro lutas no peso médio, até 84, e descreveu o corte de peso como horrível. Disse que só se sentiu bem lutando no meio-pesado, num evento que proibia a desidratação para bater o peso.
Tinha também o estilo. O Roger explicou que o centro do jogo dele no MMA era derrubar o adversário, justamente o que mais gasta energia numa luta. Ele sempre começa devagar e vai subindo o ritmo, porque tem força constante e pouca explosão. O MMA pede explosão desde o primeiro segundo, e do segundo round em diante tudo ficava bem mais pesado para ele.
A primeira luta de MMA dele foi em 2006, e até 2010 ele conseguiu conciliar os dois esportes, lutando só o Mundial de jiu-jitsu, que para ele era o mais importante. Num dos últimos Mundiais, fez uma luta de MMA três semanas antes e sentiu a pegada e a musculatura. Com o décimo título mundial já conquistado e perto dos 30 anos, decidiu parar com o jiu-jitsu e dar o último tiro no MMA.
Finalizar para provar que é melhor
A parte da conversa que eu mais gostei foi quando ele explicou a cabeça de competidor. O Roger disse que nunca treinou para ser campeão mundial. O objetivo era ser o melhor lutador do mundo, e se o campeonato tivesse outro nome e nenhuma medalha, nada mudaria para ele.
“Eu só sou melhor se eu te finalizo.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 0:30:42
Ganhar por pontos, segundo ele, deixa uma margem pequena demais. A raspagem vale ponto, mas numa luta real quem estava por cima foi para baixo e nada mudou. Essa mentalidade veio de casa: o Roger lembrou que ninguém da família dele lutou para ser campeão mundial, até porque nem existia Mundial. Os exemplos que ele tinha finalizavam todo mundo.
Ele faz uma ressalva importante. Treinar só para finalizar deixa o lutador exposto. Da guarda, o adversário está numa posição forte para se defender. Montado, ele está na pior posição que existe numa luta. Por isso o Roger sempre buscou dominar primeiro. Contou que, no Mundial em que finalizou quase todo mundo da montada, sentia o adversário entrar em pânico quando ele chegava perto de montar, e muitos preferiam virar de costas.
A famosa pressão dele também tem explicação. Segundo o Roger, braço cansa rápido, então ele deixa os braços relaxados e projeta o corpo inteiro para cima do outro. Quanto mais perto ele chega, mais ele trava e tira o espaço do adversário. Ele disse que aprendeu muito vendo o pai treinar, com passagem de guarda pesada, joelho na barriga e uma montada terrível.
Marcelo Garcia, o mais técnico, e Jacaré, o mais duro
Perguntado sobre os adversários, o Roger não pensou muito. O mais técnico foi Marcelo Garcia. Na primeira luta, ele finalizou o Marcelo em menos de cinco minutos. Na segunda, ganhou por uma boa margem de pontos. Mesmo assim contou que o Marcelo não usava força, e que numa das lutas o raspou sem esforço nenhum, igual a uma alavanca, quando ele estava na frente e relaxou na passagem.
O mais duro foi Ronaldo Jacaré: muito forte, com um jogo chato, que não puxava para a guarda e arrebentava as pegadas em pé. Na final do absoluto do ADCC de 2005, o Roger encaixou uma guilhotina logo no começo e puxou para a guarda, o que na final custava um ponto negativo. O golpe não entrou e ele só foi pontuar aos 18 minutos, conseguindo as costas no finzinho. Segundo ele, ali quase pagou pela própria arrogância.
Fora do tatame, disse o Roger, nunca houve rivalidade com ninguém. A amizade acaba um pouco antes da luta e volta quando a luta termina.
O segredo de Gordon Ryan e John Danaher
Quando o assunto foi o domínio de Gordon Ryan no ADCC, o Roger foi direto: dedicação. Segundo ele, o americano mora no tatame desde os 16 ou 17 anos, treina sete dias por semana, duas vezes por dia, e tirou as primeiras férias em dez anos só neste ano, por causa da doença. E o jogo dele é técnico, pouco baseado em força, como o do Marcelo Garcia.
“Qual o brasileiro que é mais dedicado que ele? Eu não conheço.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 0:51:56
Boa parte do mérito, para o Roger, é de John Danaher, o mentor mais dedicado que ele diz ter visto. Ele conhece o Danaher há muitos anos, do tempo em que ele era só um dos professores na academia de Renzo Gracie em Nova York. Contou que o Danaher dava aula de jaqueta e faixa, sem a calça do kimono, passava o tempo livre num escritório atrás do tatame vendo luta de wrestling e foi o professor de jiu-jitsu de Georges St-Pierre, presente no córner em todas as lutas dele.
Hoje, segundo o Roger, o Danaher estuda vídeos de judô e wrestling, procura atletas com o corpo parecido com o do aluno e passa a técnica mais eficiente para ele treinar. O Roger colocou Nicholas Meregali no mesmo pacote: do último ano para cá, disse, ele foi o melhor de kimono, com a mesma cabeça de querer finalizar todo mundo. E acrescentou que é muito mais fácil ir do kimono para o sem kimono do que o contrário.
O filho, a aposentadoria e a cabeça forte
O filho do Roger tem 14 anos e já mede 1,93 m. Neste ano, contou o pai, o menino chegou do nada e disse que não vai ser lutador, porque o pai já ganhou tudo, e que vai ser melhor que ele nos negócios. O Roger diz que não cobra nada. A única exigência é chegar à faixa-preta e saber se defender. Para animar o filho, deu bolsa na academia aos cinco melhores amigos dele, e hoje o garoto vai treinar sozinho.
“Vai ser uma escolha 100% dele. Se ele decidir, eu vou apoiar 100%.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 1:16:54
Sobre a própria carreira, o Roger, hoje com 42 anos, disse que já sabia que não lutaria depois dos 37. O auge físico foi dos 28 aos 32, quando se sentia imbatível. A última luta foi a revanche contra Buchecha, aos 36, porque a primeira ficou engasgada. Naquela primeira, ele estava focado no MMA, sem treinar kimono, teve um furúnculo na costela que o parou por duas semanas e entrou sem gás, só se defendendo.
O que fica da entrevista é a visão de um cara que sempre lutou para ser o melhor, sem se prender a medalha nem sobrenome. Ele comparou o jiu-jitsu ao xadrez, com cada pegada abrindo e fechando possibilidades, e disse que a luta prepara para qualquer confronto da vida, da reunião com o chefe à briga de trânsito. E deixou a frase que resume o jeito dele de competir.
“Quem tem cabeça forte não se entrega.”
Roger Gracie, no Connect Cast · 1:35:08
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.