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Luta histórica

Roger Gracie x Jacaré: a final do braço quebrado no Mundial

O juiz, os árbitros que vieram depois e o próprio Roger contam a final do absoluto em que o Jacaré não bateu.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 5 min de leitura

Quando
2004, segundo Muzio De Angelis e Dudu Dantas
Quem lutou
Roger Gracie, Ronaldo Jacaré
Resultado
Ronaldo Jacaré campeão do absoluto, com o braço machucado no armlock do Roger e sem bater.

Se você treina há algum tempo, já ouviu falar dessa luta. Final do absoluto do Mundial, Roger Gracie de um lado, Ronaldo Jacaré do outro. O Roger encaixa um armlock, o braço do Jacaré sai do lugar, ele não bate e termina campeão. Muita gente conta essa história de boca. Eu fui atrás de quem estava perto: o juiz da luta, dois árbitros que vieram depois e o próprio Roger.

O ano aparece nas entrevistas como 2004. O Muzio De Angelis cita 2004, o Dudu Dantas também, e o Pedro Bisaglia situou a luta em 2004 com a ressalva de que não tinha certeza.

Quem eram os dois naquela final

O Roger nunca escondeu o respeito pelo adversário. Perguntado sobre o mais duro que enfrentou na carreira, ele não pensou muito. Disse que nunca houve rivalidade fora do tatame, mas que dentro dele o Jacaré dava trabalho de um jeito diferente.

Ronaldo Jacaré Souza
Ronaldo Jacaré Souza, campeão mundial e protagonista de uma das finais mais dramáticas da história do esporte. (Wikimedia Commons)

“O mais duro foi o Jacaré. Ele era muito forte, tinha um jogo muito chato, era muito duro em pé e não puxava para a guarda.”

Roger Gracie, no Connect Cast · 0:45:10 · ler o artigo

O Demian Maia pensa parecido: quando perguntaram o adversário mais duro do jiu-jitsu, ele apontou o Jacaré. E o Muzio lembra que o Roger foi quatro vezes vice-campeão absoluto no Mundial, uma vez para o Pé de Pano, duas para o Jacaré e uma para o Xande Ribeiro.

Como foi a luta, na versão do juiz

O juiz central era o Fredson Alves, e ele contou a luta do jeito que viu. Segundo ele, o Roger fechou a guarda, o Jacaré abriu, chegou para o lado e, quando o Roger virou de quatro, o Jacaré botou os ganchos e fez os pontos. O Roger só saiu dali quando recompôs a guarda fechada. Na leitura do Fredson, o Jacaré estava no controle, e foi por isso que quis saber quanto tempo faltava.

“O Jacaré se descuidou e foi perguntar o tempo. Quando ele virou o rosto, o Roger aproveitou, passou a perna e deu um armlock invertido.”

Fredson Alves, no Pura Connection · 1:04:03 · ler o artigo

Faltava cerca de um minuto e meio, segundo o Fredson. Ele disse que, da posição onde estava, não viu o braço deslocar. Ouviu gritarem que tinha quebrado, parou a luta e foi perguntar ao próprio Jacaré. A resposta, pela lembrança dele, foi que o braço tinha machucado, mas que ele queria continuar.

Aí entra um detalhe que eu não conhecia. Naquele ano, o Fredson tinha na cabeça a luta do Royler com o Sakuraba, em que o Royler, preso numa chave no fim, estava disposto a deixar o braço quebrar para segurar o empate, e o juiz interrompeu por ele. Você lê mais sobre essa em Royler Gracie x Sakuraba.

“Aquilo ficou na minha cabeça: eu não vou bater pelo Jacaré.”

Fredson Alves, no Pura Connection · 1:05:37 · ler o artigo

O que quase ninguém comenta: as punições

E tem um ponto que o Fredson fez questão de deixar registrado. Segundo ele, depois do armlock o Jacaré segurou a mão na faixa e passou a fugir da luta, e ele deu três punições seguidas. A quarta seria a desclassificação. Na versão dele, o Roger perdeu a chance porque gastou os últimos segundos reclamando com o juiz em vez de ir para cima.

“Se tivesse mais dez segundos, o Roger já tinha ganhado a luta, porque eu ia dar a quarta punição.”

Fredson Alves, no Pura Connection · 1:07:13 · ler o artigo

O Muzio, que viu tudo de fora e depois virou um dos árbitros mais conhecidos do circuito, foi mais cuidadoso. Disse que talvez, se estivesse no lugar do Fredson, tivesse dado algumas punições ao Jacaré e o Roger pudesse ter vencido, mas que não pode afirmar e que é difícil se colocar ali.

Parar ou não parar: as duas leituras

O Luiz Cabelinho, árbitro formado na Gracie Barra, viu a mesma luta com outros olhos. Para ele, não havia dúvida sobre o braço. Ele lembrou que, naquela época, parar a luta para o médico não era comum, e citou o caso do Wallid Ismail, que já tinha sido campeão de braço quebrado numa luta contra o Jucão.

“Essa luta do Roger com o Jacaré, dava para ver nitidamente que tinha quebrado o braço do Jacaré.”

Luiz Cabelinho, no Pura Connection · 0:57:38 · ler o artigo

Hoje, segundo o Cabelinho, ele pararia a luta e chamaria o médico, sem aceitar o atleta dizendo que está bem. O Fredson, por outro lado, disse que na hora nem lhe passou pela cabeça chamar o médico: a responsabilidade era toda dele, e ele não queria bater por um faixa-preta numa final de absoluto. O Pedro Bisaglia, que usa essa luta num livro para falar de limite, disse que no lugar do Jacaré teria batido.

O que veio depois

O Jacaré foi campeão. O Fredson contou que houve pressão para mudar o resultado depois, o que para ele não fazia sentido com a luta encerrada, e que aquela final foi a última luta que ele arbitrou. Ainda assim, ele separa as pessoas da polêmica: disse respeitar o Jacaré, que conquistou o espaço sem passar por cima de ninguém, e chamou o Roger de o maior finalizador que já viu na faixa-preta.

Sobre a arbitragem, as versões diferem no detalhe. O Fredson disse que foi depois daquela luta que a decisão deixou de ficar só com o juiz central e entraram os juízes laterais. O Muzio conta que foi depois de outra polêmica, na final de 2005, que os atletas fizeram um abaixo-assinado pedindo três árbitros, e que a primeira final com trio foi a que ele apitou em 2006, Roger contra Xande.

A revanche dos dois veio no ADCC de 2005, na final do absoluto. O Roger contou que encaixou uma guilhotina logo no começo e puxou para a guarda, o que na final custava um ponto. O golpe não entrou, ele só foi pontuar aos 18 minutos e venceu pegando as costas no fim. Nas palavras dele, quase pagou pela própria arrogância.

A luta também marcou quem estava assistindo. O Dudu Dantas contou que foi aquela final que o fez começar a pesquisar como os atletas treinavam e comiam. O Donda Malvadão lembra que o Jacaré veio de Manaus, quebrou o braço contra o Roger e não tinha dinheiro nem para voltar para casa. E o Felipe Nilo ainda se refere ao Jacaré como o cara que foi campeão mundial de braço quebrado em cima do Roger Gracie.

Quer ouvir as versões inteiras? Estão na entrevista do Fredson, na do Muzio, na do Cabelinho e na do Roger. O Roger voltou a ter uma luta marcante anos depois, contra o Buchecha: Roger Gracie x Buchecha.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.