Pura Connection · Donda Malvadão
Donda Malvadão explica por que o jiu-jitsu raiz de 97 está se perdendo
O faixa-preta de Campo Grande que virou fenômeno nas redes conta como um mata-leão mudou sua vida e cobra dos professores que não esqueçam a arte marcial.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 jun 2024 (1:09:39).
Quem acompanha Donda Malvadão nas redes conhece o bordão: raiz 97. Muita gente acha que é o ano em que ele pegou a faixa-preta, e no Pura Connection ele explicou que a conta é outra. O Donda começou no jiu-jitsu em 1996, e 97 foi o ano em que começou a competir, se apaixonou e viu a galera do jiu-jitsu dominar o vale-tudo. Para ele, o número virou referência de uma época em que o jiu-jitsu era respeitado e as coisas eram enraizadas.
Assisti à conversa e, por trás das piadas, o recado é sério. O Donda acha que o jiu-jitsu está indo pelo mesmo caminho do caratê e do taekwondo: virou esporte de competição, perdeu a marcialidade e está afastando quem só quer aprender a se defender.
“Não esqueçam que o jiu-jitsu, o boxe e o muay thai são artes marciais.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 1:00:17
O mata-leão que mudou tudo
A entrada dele no jiu-jitsu foi na marra. O Donda conta que estudava em Campo Grande, no Rio, e sofria na escola, a ponto de se comparar ao personagem de Todo Mundo Odeia o Chris. Fazia kickboxing, era o rei do baile funk e um dia foi passar o fim de semana na Barra com um amigo.
Achou que ia mandar no pedaço. Topou uma luta com um dos garotos do condomínio e, no primeiro chute, o garoto segurou a perna, levou ao chão e pegou o mata-leão em segundos. Era Felipe Jerry, que foi quem apresentou o jiu-jitsu a ele. Segundo o Donda, a primeira ida foi na academia do Carlinhos, mas ficou com vergonha de treinar no meio daquela turma e nem tinha dinheiro de passagem.
Conseguiu uma bolsa na Gracie Barra do Recreio e ficou muito tempo de faixa-branca. Depois descobriu, perto de casa, a academia do mestre Vasco Bento, de jiu-jitsu tradicional, com mais de 400 alunos, e ficou lá até a roxa. Ele admite que era o aluno indisciplinado, mas bom competidor.
De Lisboa à Gracie Barra
Faixa-roxa, o Donda foi parar em Lisboa. Conta que em Portugal quase não havia jiu-jitsu e ganhou tudo na Copa Bad Boy, que funcionava como o Brasileiro de lá: peso, absoluto e o prêmio de atleta mais técnico. Voltou ao Rio e foi treinar com Marcelo Nig, na Gracie Humaitá de Jacarepaguá, onde pegou a faixa-marrom.
Quando o Nig foi para fora do país, ele seguiu com a turma da Gracie Barra na praia. Hoje dá aula sozinho em Campo Grande, mas diz que a escola do coração continua sendo a GB. E conta que voltou ao jiu-jitsu depois de uma fase perdido na noite: dar aula de segunda a sexta é o que segura a disciplina dele.
“O jiu-jitsu ele te segura. Segura muito.”
Donda Malvadão, no Pura Connection · 0:15:29
Faixa dada no ônibus
A parte mais dura da conversa foi sobre graduação. O Donda brinca com o cara que sai de azul no Rio e chega a Minas de roxa, graduado no ônibus. Para ele, o problema é que o Rio perdeu a coletividade. Antes, quando um faixa-roxa aparecia numa academia, o professor ligava para o antigo mestre do aluno para puxar a ficha. Hoje, diz ele, o cara paga a mensalidade e chega com a faixa que quiser.
Ele também critica o lutador que pega a preta rápido por ser bom de luta e depois não sabe dar aula. Usa o próprio exemplo: todo mundo sabe que ele gosta do baseball choke, mas se ensinasse só isso a aula ficaria repetitiva. O aluno precisa aprender tudo, porque o que não serve para um pode servir para outro.
O apresentador lembrou de Rodrigo Cavaca, que pegou a faixa-preta em cerca de cinco anos batendo em todo mundo e hoje diz que não estava pronto. O Donda concorda: faixa-preta pede amadurecimento e hora de voo.
O Mundial longe do Rio
Outra crítica dele é à saída do Mundial do Rio. O Donda contou que visitou sete academias em 20 dias e viu muito talento, como dois irmãos faixa-amarela num projeto social em Campo Grande. Só que esses meninos não vão ter visto, passagem nem estadia para competir nos Estados Unidos, e o patrocínio praticamente acabou.
Ele compara com Mica Galvão, que teve acesso e virou um monstro, e com as histórias antigas de Tererê e de Ronaldo Jacaré. Segundo o Donda, o Jacaré veio de Manaus, quebrou o braço lutando contra Roger Gracie e não tinha dinheiro nem para voltar para casa. Com o Mundial fora, pergunta ele, de onde vai sair o próximo?
Também sobrou um pedido às marcas de kimono e de fightwear: patrocínio com dinheiro, porque faixa-preta pai de família não paga conta de luz com duas camisetas. E um pedido aos atletas, para comprarem das marcas do esporte em vez de grife.
Grandes poderes, grandes responsabilidades
O Donda não esconde o passado. Contou que nos anos 90, nos bailes funk de Campo Grande, entrava no corredor e derrubava os maiores com baiana, um por um, até a história chegar à academia e o mestre descobrir quem era. Ele fala disso como diversão de subúrbio de outra época e diz que hoje seria impensável.
É justamente por isso que ele fala de autocontrole. Segundo o Donda, qualquer briga dele não sai no jornal com o nome dele, sai como lutador de jiu-jitsu, e isso afasta a mãe que ia matricular o filho. Ele cita a morte de Leandro Lo como lembrete de que tem coisa que não vale a pena. E fecha com a frase que leu em Dubai: homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homens fracos. O que fica é o pedido aos professores para que não amoleçam a formação dos alunos.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.