Pura Connection · Dudu Dantas
Dudu Dantas relembra o caminho do Morro Santo Amaro ao cinturão do Bellator
O lutador da Nova União conta como o jiu-jitsu de um projeto social o afastou do tráfico, o empurrão de Dedé Pederneiras antes da estreia e o curso que montou para professores de comunidade.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 nov 2024 (1:24:25).
O Dudu Dantas tinha 17 anos, era faixa-azul e estava subindo a escada para entrar no ringue do Shooto Brasil quando o Dedé Pederneiras parou na frente dele. O adversário era um faixa-preta de luta livre que já tinha luta de MMA. O Dedé só disse uma coisa, e o coração do Dudu disparou.
“Não era isso que você queria? Então vai lá, mostra. Quero ver agora se é isso mesmo que você quer.”
André Pederneiras, no Pura Connection · 0:42:09
Assisti à conversa dele no Pura Connection e essa cena resume bem o que o Dudu contou em mais de uma hora. Ele diz que o jiu-jitsu foi o foguete que o fez romper a barreira da desigualdade. Saiu do Morro Santo Amaro, virou o primeiro campeão brasileiro do Bellator e hoje usa o que aprendeu para capacitar professores que dão aula em comunidade.
O menino gordinho do projeto social
O Dudu contou que conheceu o jiu-jitsu com 12 para 13 anos, num projeto social, entre 2003 e 2004. Na época pesava 75 kg, o mesmo peso de hoje, e não conseguia nem dar rolamento sem perder o fôlego. Segundo ele, a mãe era rígida, mas foi o jiu-jitsu que trouxe a competição, e a vontade de ser o melhor fez o resto: aprendeu a dormir bem, comer bem e caiu para 63 kg.
Ele lembra que o que o marcou foi a final do absoluto de 2004 entre o Jacaré e o Roger Gracie. A partir dali, passou a comprar ou pegar emprestadas as revistas de luta para descobrir o que aqueles atletas comiam e como treinavam. Sem dinheiro para condução, ia a pé da Glória até a academia em Botafogo e voltava, às vezes mais de uma vez no dia.
“Se eu não tivesse conhecido o jiu-jitsu através de um projeto social em 2003 para 2004, eu provavelmente não estaria aqui hoje.”
Dudu Dantas, no Pura Connection · 0:10:42
Ele não esconde o outro lado. Contou que via as meninas só darem atenção aos rapazes do tráfico, com tênis caro, moto e cordão, e que o esporte foi o jeito de desviar do crime e das drogas. Segundo o Dudu, ele perdeu vários amigos para o tráfico, e um deles, que tinha começado no jiu-jitsu com ele, foi torturado e queimado depois de largar o treino por causa das drogas.
A turma de Shaolin, Aldo e Barão
Para o Dudu, o que fez diferença foi o ambiente da Nova União entre 2003 e 2008. Ele cita o Shaolin como o cara mais disciplinado que viu treinar, o que abriu o caminho do Japão para o resto da turma. E guarda uma frase dele até hoje, dita para um grupo de uns 14 lutadores no tatame.
“Aqui ninguém precisa ficar de olho grande. Todo mundo vai ter a sua chance, e quando essa chance chegar basta você aproveitar ou não.”
Vitor Shaolin Ribeiro, no Pura Connection · 0:28:08
O Dudu disse que fez as contas e todos os 14 tiveram a sua chance. Segundo ele, por volta de 2008 a Nova União tinha os cinturões dos principais eventos nas categorias leves: ele no Bellator, o Barão e o José Aldo no UFC, e o Wagnney Fabiano, irmão do Léo Santos, na IFL. Ele lembra de gente chegando de Manaus, da Paraíba e do Ceará com duas malas na porta da academia pedindo uma chance para treinar.
Dedé, mais que um mestre
Sobre o Dedé, o Dudu diz que é até suspeito para falar. Conheceu o mestre aos 14 anos e, aos 35, ainda marca consultoria com ele às oito da manhã antes de qualquer decisão importante. Foi o Dedé quem deu o primeiro emprego, de recepcionista na academia, com salário mínimo, quem fechou o primeiro contrato no exterior e quem pagou o médico particular quando ele machucou o joelho.
“Dudu, fica sem comer, mas não deixa de pagar o plano de saúde.”
André Pederneiras, no Pura Connection · 0:40:04
O Dudu contou que o Dedé montava o Shooto Brasil no terceiro andar da academia, com um ringue pequeno, 150 ingressos e dinheiro do próprio bolso para o evento acontecer. Foi lá que ele estreou, em 2007, contra o William Parrudinho, depois de insistir muito. A bolsa era de 500 reais e ia subindo a cada vitória. Mesmo assim, lembra, a mãe pedia que ele arrumasse um emprego de verdade.
Ele diz que usou o nervosismo como gasolina, graças à base de campeonatos de jiu-jitsu que disputou na juventude, muitas vezes indo sozinho de trem até Bangu. Vieram o título sul-americano do Shooto, defendido duas vezes, a passagem pelo Shooto Japão, que dava visibilidade e pouco dinheiro, e o contrato com o Bellator.
“Ganhei esse GP, fui disputar o cinturão, ganhei o cinturão e fui o campeão mais novo da história do Bellator e o primeiro campeão brasileiro.”
Dudu Dantas, no Pura Connection · 0:21:31
A derrota que ensinou a ficar presente
O Dudu também falou de uma luta perdida em 2012. Segundo ele, uma emissora grande parou o aquecimento para uma entrevista e fez uma pergunta sobre outra luta, marcada para dali a três meses. Ele se irritou, entrou querendo sair e perdeu. Hoje ele sabe que tem TDAH e diz que a meditação e a terapia o ajudaram a ficar no momento presente.
Ele contou ainda que tinha uma luta de grappling marcada com o Umar Nurmagomedov, que foi adiada.
Devolver o que o jiu-jitsu deu
Hoje o Dudu é embaixador de um projeto social com mais de 80 polos no estado do Rio, inclusive no Santo Amaro, rebatizado de Morro dos Campeões. Visitando comunidades como o Alemão e a Maré, ele percebeu que muitos professores sabiam o básico e não tinham preparo para lidar com crianças com autismo ou hiperatividade, nem curso de primeiros socorros.
Daí nasceu um curso gratuito de capacitação para esses professores, com 12 disciplinas e certificado da Unirio, segundo ele. A história da arte marcial ficou com o Pedro Valente, o empreendedorismo com a Kyra Gracie, e o Ralph Gracie, conta o Dudu, ajudou no contato com a família Gracie. Ele disse que aprendeu defesa pessoal com o Dedé, que é da geração do Carlson Gracie, e sente falta disso nas escolas que só ensinam o jiu-jitsu de competição.
O que fica da conversa é a imagem de um cara que não trata a própria história como exceção. Ele disse que uma das lutas dele hoje é para que mais gente tenha as oportunidades que ele teve, e que ele deixe de ser a exceção. Pelo que contou, o caminho passa pelo mesmo lugar onde começou: um tatame dentro da comunidade.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.