Pura Connection · Fredson Alves
Fredson Alves, juiz de Jacaré x Roger Gracie, diz por que não parou a luta
O criador da guarda X relembra a final do absoluto em que o braço do Jacaré saiu do lugar, conta por que nunca mais arbitrou e fala da faixa-preta que recebeu do Royler.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 jan 2022 (1:21:14).
Faltava um minuto e meio para acabar a final do absoluto do Mundial quando o Jacaré virou o rosto para perguntar o tempo. Foi o suficiente: o Roger Gracie, que estava por baixo com a guarda fechada, passou a perna e encaixou um armlock invertido. O braço do Jacaré saiu do lugar, ele não bateu, e a decisão de continuar ou não a luta ficou nas mãos de um homem só, o juiz central. Esse juiz era o Fredson Alves.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e, confesso, fui esperando ouvir sobre a guarda X, posição que ele diz fazer desde 1996. Ela aparece, e vou falar dela aqui. Mas o que prende mesmo é o relato de quem estava a um palmo daquele braço, ouvindo a arquibancada gritar, e teve de decidir em segundos.
O descuido que mudou a final
O Fredson contou a luta do jeito que ele viu. Segundo ele, o Roger fechou a guarda, o Jacaré abriu, passou para o lado e, quando o Roger virou de quatro, o Jacaré colocou os ganchos e fez os pontos. O Roger não conseguiu sair da posição até recompor a guarda fechada. Na leitura do Fredson, o Jacaré estava no controle e por isso quis saber quanto faltava.
“O Jacaré se descuidou e foi perguntar o tempo. Quando ele virou o rosto, o Roger aproveitou, passou a perna e deu um armlock invertido.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 1:04:03
Ele disse que, da posição onde estava, não viu na hora que o braço tinha deslocado. Ouviu gritarem que o braço estava quebrado, parou a luta e foi perguntar ao próprio Jacaré. A resposta, segundo o Fredson, foi que não tinha quebrado, que tinha machucado, mas que ele queria lutar.
Por que ele não bateu pelo Jacaré
Aqui entra um detalhe que eu não conhecia. O Fredson contou que, naquele mesmo ano, tinha na cabeça a luta do Royler com o Sakuraba. Pela lembrança dele, era uma luta em que o empate valia, e o Royler, preso numa chave no fim, decidiu que deixaria o braço quebrar mas não bateria, porque o tempo estava acabando. O juiz interrompeu por ele. Aquilo ficou martelando na cabeça do Fredson.
“Aquilo ficou na minha cabeça: eu não vou bater pelo Jacaré.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 1:05:37
Ele reconhece que poderia ter chamado um médico para examinar o braço, mas diz que isso nem passou pela cabeça dele naquele momento. Também lembrou que, na época, toda a responsabilidade era do juiz central, e que depois daquela luta passaram a colocar juízes laterais.
O ponto que o Fredson mais quis deixar registrado é outro. Segundo ele, ninguém comenta que ele deu punições seguidas ao Jacaré, que segurava a mão na faixa e fugia da luta. A quarta seria a desclassificação. E, na versão dele, o Roger perdeu a chance porque passou os últimos segundos reclamando com o juiz em vez de lutar.
“Se tivesse mais dez segundos, o Roger já tinha ganhado a luta, porque eu ia dar a quarta punição.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 1:07:13
O Jacaré foi campeão. O Fredson disse que houve pressão para mudar o resultado depois, o que para ele não fazia sentido com a luta encerrada, e que a forma como tudo foi conduzido o fez desistir da arbitragem.
“Foi a última luta que eu arbitrei.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 1:08:48
Ele fez questão de separar as pessoas da polêmica. Disse ter mais afinidade com o Roger e com o Royler do que com o Jacaré, mesmo sendo os dois de Manaus, e contou que respeita o Jacaré por ter conquistado o espaço dele sem passar por cima de ninguém. Sobre o Roger, a opinião é clara: para o Fredson, é o maior finalizador que ele já viu na faixa-preta, e aquelas derrotas pesaram no que ele se tornou depois.
A guarda X nasceu de um pé torto
Pouca gente sabe, e ele mesmo abriu o assunto: o Fredson nasceu com o pé esquerdo virado para trás. Contou que operou com um ano de idade, levou quase 40 pontos, passou cinco anos usando bota de ferro e tem até hoje quatro centímetros de diferença entre as pernas.
Segundo ele, foi justamente por isso que o lado esquerdo virou o lado técnico, e dali saiu a guarda X. Ele lembra que a posição chamou atenção numa sessão de fotos na academia do Alexandre Paiva, quando ele era patrocinado pela Companhia e o Marcelo Alonso, da Tatame, estava fotografando. Quando ele engatou a guarda, todo mundo quis saber que posição era aquela.
“O Marcelinho Garcia sempre foi conhecido por fazer a guarda X, mas em 96 eu já tinha desenvolvido a guarda X.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 0:05:31
Ele diz que usa a posição até hoje e que, de tanto aprofundar numa coisa só, sabe o momento exato de entrar com a perna. É a mesma lição que ele disse ter visto nas conversas do canal com o Fábio Gurgel e com o Roger: poucas técnicas, muito bem trabalhadas.
Saulo, Royler e a turma das duas da tarde
O Fredson é de Manaus, onde, nas palavras dele, nos anos 90 só sobreviviam os mais fortes. Ele conheceu o Saulo Ribeiro ainda em Manaus, porque o Saulo estudava na mesma sala do irmão dele. Quando foi pela primeira vez ao Rio, sem ter onde ficar, acabou dividindo apartamento com o Saulo na Tijuca.
Ele descreve o treino das duas da tarde na Gracie Humaitá como uma turma de caras leves e técnicos, que chegava aos campeonatos e ganhava tudo. Do Saulo, guarda a disciplina: contou que, no fim do treino, o Saulo ficava sozinho fazendo mil entradas de queda, e que por isso todo mundo sabia que ele derrubava. Contou também que teve contato direto com o Hélio Gracie, a quem ajudou em aulas particulares às terças e quintas em Teresópolis, e ficou impressionado com o espírito competitivo do Grande Mestre até com as crianças.
Com o Royler a relação é de gratidão. O Fredson disse que passou quatro anos na azul, três na roxa e oito meses na marrom. Depois do Mundial de 1997, em que ficou em terceiro na marrom, ele contou que o Saulo queria que ele ficasse mais um ano na faixa, mas o Royler achou que não fazia sentido e o graduou à faixa-preta, com um discurso que ele diz guardar para o resto da vida.
“Pelo peso que ele tinha, fazer o que ele fazia, para mim ele foi o melhor competidor de todos os tempos.”
Fredson Alves, no Pura Connection · 0:51:02
Do Havaí de volta a Manaus
O jiu-jitsu levou o Fredson longe. Ainda roxa, ele foi para Belém cuidar de uma loja de tecidos da família e acabou dando aula, depois de treinar na academia da família do Lyoto Machida. Mais tarde morou quase um ano no Havaí com o Relson Gracie, que ele chama de o Gracie de maior coração que conheceu, e dali foi dar aula num lugar de frio extremo nos Estados Unidos.
Hoje ele comanda a Ribeiro em Manaus com uma proposta que ele mesmo diz ser o inverso do jiu-jitsu duro em que foi criado: alunos médicos e advogados, faixa-preta que só pode se defender quando treina com faixa-branca, respiração, meditação e seis valores tatuados no corpo. Segundo ele, a academia dobrou de alunos durante a pandemia.
Fica da conversa a imagem de um cara calmo, que diz ter perdido rendimento em campeonato justamente por ser tranquilo demais, e que mesmo assim foi colocado no centro da decisão mais barulhenta da história do absoluto. Ele não pediu desculpas nem mudou a versão. Contou o que viu, disse o que pensou na hora e explicou por que foi embora da arbitragem depois daquilo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.