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Pura Connection · Pedro Bisaglia

Pedro Bisaglia explica por que o jiu-jitsu tira o medo fora do tatame

Faixa-preta que começou aos 31 anos, músico e autor de livro, ele defende que o jiu-jitsu treina o estado mental, e isso vale para a rua, o trabalho e o palco.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 nov 2022 (1:12:14).

O Pedro Bisaglia gosta de dizer que a faixa mais difícil da vida dele foi a branca. Ele levou 31 anos para chegar nela. Depois disso, a azul veio em uns nove meses, e cada uma das faixas seguintes em três anos, até a preta. Essa brincadeira abre a conversa dele no Pura Connection e explica boa parte do que ele pensa sobre o jiu-jitsu: quem começa tarde sempre se arrepende de não ter começado antes.

“Eu levei 31 anos para conquistar a faixa branca.”

Pedro Bisaglia, no Pura Connection · 0:12:08

O Pedro é músico, professor de música, dono de academia de jiu-jitsu e autor do livro "Nem de cabeça baixa nem de nariz em pé". Assisti ao episódio e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que ele explica uma coisa que todo praticante sente e pouca gente sabe colocar em palavras: por que o jiu-jitsu deixa a pessoa mais segura.

Um livro para quem ainda não treina

Segundo o Pedro, a ideia do livro nasceu de um incômodo. Quem treina sabe dos benefícios, mas na hora de convencer alguém de fora a pessoa só diz que é bom, fica mais confiante, e não explica por quê. Surf é bom, capoeira é bom, música é boa. Ele quis explicar.

A explicação dele passa pela psicanálise, que ele estuda. Ele contou que um dos medos principais do ser humano é o do desamparo, que se desdobra em vários outros, entre eles o medo de apanhar, presente desde a escola. O jiu-jitsu, na visão dele, dá um amparo exatamente nesse ponto. E quem perde o medo de apanhar perde junto o medo do ridículo e o medo de pedir aumento.

“Você não vai chegar no seu chefe nem de cabeça baixa nem de nariz em pé.”

Pedro Bisaglia, no Pura Connection · 0:14:47

É daí que sai o título do livro. O jiu-jitsu funciona como um equalizador: você não se acha o pior do mundo, porque sabe se defender, e também não se acha o melhor, porque já foi amassado no treino. O Pedro contou que, ainda faixa-branca, foi finalizado por uma menina que não tinha cara de quem conseguiria fazer aquilo, e tirou disso uma lição sobre preconceito. No livro, ele lembra que respeito vem de "respectare", olhar de novo: você não vira as costas para quem pode te atacar, nem para quem pode te ensinar.

Ele deu um detalhe curioso do processo. O Pedro fez tudo sozinho: capa, design, diagramação, revisão e até o registro na Câmara Brasileira do Livro. Parou algumas vezes, por falta de tempo ou por preguiça, ele admite, e retomou. Credita a persistência ao jiu-jitsu.

O tatame treina o estado mental

A ideia central da conversa é simples. Ninguém treina pedir aumento no tatame, e ninguém consegue treinar todas as situações de uma briga de rua. Mas, segundo o Pedro, dá para treinar o estado mental, e ele vale para qualquer situação. Por isso ele diz que o jiu-jitsu está mais na mente do que no corpo.

Ele descreveu uma cena que todo professor conhece: o iniciante chega na academia retraído, cabeça baixa, falando baixinho, quase pedindo desculpa. No tatame todo mundo está à vontade, falando alto. Com o tempo, a pessoa abraça, empurra, puxa e perde o medo de tocar nos outros. Aí aperta firme a mão do pai da namorada no primeiro encontro.

“O jiu-jitsu mostra para você quem você é.”

Pedro Bisaglia, no Pura Connection · 0:23:40

Ele comparou o treino a uma sessão de análise diária. No dia em que você está com medo de treinar com alguém, vai sentir o medo e decidir o que fazer. No dia em que finaliza quem achava impossível, descobre que isso também é você. E o seu verdadeiro eu fica exposto para os amigos. Tem até o caso ruim: o parceiro que sempre para o treino na hora em que vai ser finalizado, para dar uma dica, e mostra ali o orgulho de quem não quer bater.

Limites, apagão e o braço de Jacaré

Para falar de limite no livro, o Pedro escolheu uma história que leigo nenhum esquece: a final do Mundial em que o Jacaré deixou o braço quebrar contra o Roger Gracie e foi campeão por pontos. Ele situou a luta em 2004, com a ressalva de que não tinha certeza. Disse que no lugar dele teria batido, mas que o exemplo mostra até onde vai quem quer muito ser campeão.

O paralelo que ele achou na própria carreira foi mais modesto e muito bom. Numa final de campeonato sem vantagens, a luta empatou e foi para o ponto de ouro: quem pontuasse primeiro ganhava. O adversário chegou do lado, passando a guarda, e ele, morto de cansaço, repôs a guarda com a torcida gritando para raspar. Puxou uma força que não sabia que tinha, raspou, e o adversário relaxou e aceitou. Aí ele desabou.

O jiu-jitsu também humilha, e ele contou isso rindo. A única vez em que apagou foi num estrangulamento baseball, achando que não estava encaixado. Acordou sem saber onde estava. A lição, segundo ele, é olhar de novo aquela posição da próxima vez.

Defesa pessoal começa longe da confusão

O Pedro dá aula de defesa pessoal na academia dele e deixa claro para os alunos o que vem primeiro.

“A primeira defesa pessoal é não estar onde está a confusão.”

Pedro Bisaglia, no Pura Connection · 0:31:32

Contra paulada, por exemplo, a primeira defesa é correr. A técnica é para o beco sem saída. Ele lembrou da adolescência em Jacarepaguá, voltando a pé de madrugada: se via alguém vindo na direção contrária, ia direto para cima, com cara de maluco, e perguntava as horas. A tese é que assaltante não gosta de surpresa e escolhe o alvo distraído, não o mais fraco. O apresentador lembrou que o Sylvio Behring insiste muito nessa linguagem corporal nas aulas dele.

Bateria, xadrez e saúde do cérebro

O Pedro fez a melhor comparação do episódio usando a bateria, instrumento do apresentador. Na bateria cada membro toca uma coisa num ritmo diferente, e isso exige coordenação enorme. No jiu-jitsu é igual, só que você vê tudo de lado, de cabeça para baixo, invertido.

“O jiu-jitsu é igual tocar bateria, só que os tambores te batem de volta.”

Pedro Bisaglia, no Pura Connection · 0:49:17

Ele contou que conversou com o cientista americano Arthur Kramer, que estuda saúde do cérebro. Segundo o Pedro, o pesquisador listou três pilares: exercício aeróbico, aprendizado novo e desafiador, e convivência social. O jiu-jitsu tem os três, e o cientista, nas palavras do Pedro, foi taxativo ao dizer que a prática é ótima para o cérebro.

Ele fechou com a ideia que encerra o livro. Sentido da vida, para ele, é direção: para frente, tropeçando ou correndo. A vida só tem linha de partida. Quem treina há tempo sabe que é assim também da faixa-branca à preta, e depois dela.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.