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Pura Connection · Felipe Nilo

Felipe Nilo recusou contrato no MMA para levar o jiu-jitsu aos autistas

Do interior de Minas à Team Nogueira, o professor conta como um aluno autista mudou o rumo da carreira dele.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 set 2024 (1:48:04).

Felipe Nilo estava com a carreira no MMA andando bem, com uma derrota só no cartel, quando recebeu a proposta de contrato com um dos maiores eventos do mundo. A condição era largar as aulas que dava para um grupo pequeno de crianças autistas. Ele pensou uma noite e recusou. Hoje, segundo ele mesmo, são 11 anos dedicados ao jiu-jitsu para pessoas com autismo.

Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection e o que mais me pegou foi o caminho até essa decisão. Um garoto descoordenado de uma cidade de 14 mil habitantes, que chegou ao Rio de carona num caminhão, passou fome, apanhou no primeiro treino da Team Nogueira e acabou virando referência num assunto que quase ninguém do tatame estudava.

“Eu tive que ter humildade de pegar minha faixa-preta, jogar ela fora e amarrar a faixa-branca na cintura e reaprender a dar aula.”

Felipe Nilo, no Pura Connection · 0:46:11

O garoto excluído que achou lugar no judô

O Felipe conta que era a criança sem coordenação nenhuma da escola. No recreio todo mundo jogava bola e ele ficava de fora. Com o tempo passou a se isolar, trancado no quarto, e virou um menino explosivo, que xingava e brigava com quem falasse com ele. Foi o pai quem o colocou no judô, aos 6 anos.

Na primeira aula, segundo ele, se sentiu incluído pela primeira vez na vida. Lembra de um faixa-laranja mais velho, o Sandrão, que teve toda a paciência do mundo para ensinar um rolamento. Aos 12 anos começou o jiu-jitsu para ajudar no judô, e a lógica se inverteu: se apaixonou pelo jiu-jitsu e passou a treinar judô para fortalecer o chão.

Ele descreve bem o interior daquela época. Quem tinha a carteirinha da CBJJ era tratado como rei, porque os professores da região não tinham ligação com nenhum mestre e não conseguiam certificar ninguém. O Felipe competia em torneios regionais no sul de Minas e no Vale do Paraíba até conhecer uma equipe chamada De La Riva. Ele conta, rindo, que até ali achava que De La Riva era só o nome de uma guarda.

De carona para o Rio e nocauteado na Team Nogueira

O carinho dos alunos pelo mestre chamou a atenção dele. Veio ao Rio para conhecer Ricardo De La Riva, ganhou um abraço e decidiu ser aluno dele, ainda morando em Minas. Depois de uma luta de vale-tudo em Minas, que ele diz ter vencido na raça, resolveu se mudar. Chegou com uma mala, morou no fundo de um depósito de bebidas em Realengo e, segundo ele, passou fome de verdade.

O plano era passar o primeiro ano só dando aula para se manter. Uma semana depois, conta ele, o De La Riva ligou e mandou um endereço no Recreio dos Bandeirantes. Era a Team Nogueira. O Felipe achou que ia só tirar uma foto com o Minotauro, e acabou chamado para um teste no octógono, no auge do MMA, num treino em que boa parte dos atletas estava no UFC ou no Bellator.

Foi nocauteado três vezes naquele dia. No fim, segundo ele, o Rodrigo o chamou e disse que ele tinha coração. A partir dali entrou para o time profissional. Eram três horas para ir e três para voltar, treino amador, boxe, treino profissional ao meio-dia e repetição de posição depois, de segunda a segunda. Ele conta que foi sparring do Rodrigo e do Minotouro, este em três camps, mesmo sendo bem mais leve.

O Felipe faz questão de agradecer a quem segurou a barra nessa fase: um cozinheiro que escondia uma marmita para ele enrolada em sacos dentro do lixo, um motorista de van que não cobrava a passagem e o lutador Vitor Miranda, cuja esposa apareceu na porta dele com uma compra de mercado que durou uns três meses.

O aluno autista que mudou tudo

O Felipe chegou a ter patrocínio de multinacional, coisa rara para quem não estava no UFC, e conta que o filho se chama André por causa do dono da empresa. Com a crise, o patrocínio sumiu do dia para a noite e ele voltou a dar aula para crianças, algo que fazia desde os 15 anos para pagar a mensalidade em Minas.

Ele admite que voltou no auge da arrogância. Na primeira aula encontrou um aluno autista com nível de suporte alto e não conseguiu fazer nada. Diz que se sentiu como um faixa-branca na final do mundial. Foi para casa, leu sobre autismo e descobriu que não havia ninguém, no Brasil ou fora, com um trabalho inteiro voltado para autismo através das artes marciais. Médico nenhum queria ouvir um professor de jiu-jitsu, e ele chegou a pagar consulta só para conseguir conversar.

Foi aí que veio a tal faixa-branca na cintura. Segundo ele, muita coisa que é inadmissível para um professor tradicional precisou virar aceitável numa aula atípica. E foi nessa fase, com três ou quatro alunos, que chegou a proposta do contrato. Ele via os alunos melhorando a atenção na escola e parando de agredir os pais, e escolheu ficar. Conta que os colegas do time o chamaram de maluco na hora, e que hoje apoiam o trabalho.

Respiração do Rickson e kimono sob medida

O método dele parte de uma ideia simples: cada aluno tem um planejamento próprio. A primeira conversa com a família dura duas horas e passa pela gestação, pelo diagnóstico, pela escola e pelas outras terapias do dia, porque um aluno que vem da terapia ocupacional pode chegar cansado. Teve aluno que não suportava o kimono trançado, e ele pediu à fábrica um kimono leve, quase de tecido de camisa.

“Não tem receita de bolo. Cada autista é único.”

Felipe Nilo, no Pura Connection · 1:01:36

Para os alunos que não falam, ele usa o controle da respiração, e cita Rickson Gracie como exemplo: segundo o Felipe, além da técnica e da alimentação, a respiração explica por que o Rickson foi tão bem nas lutas. Para ele, o jiu-jitsu entra como complemento terapêutico, ao lado da psicologia, da fonoaudiologia e da terapia ocupacional.

O caso que mais marca, diz ele, é de um rapaz que chegou aos 16 anos amarrado numa camisa de força, de capacete, tomando 12 remédios. A mãe avisou que não acreditava no trabalho. O primeiro contato foi de três horas e meia segurando o aluno. Em um ano, segundo o Felipe, ele perdeu 12 quilos, passou a tomar só dois remédios e nunca mais usou camisa de força. Hoje, com 24 anos, vai ao espaço de segunda a sábado.

Cavaca, Libório e Jacaré pedindo ajuda

A virada no reconhecimento aparece numa história que ele conta com brilho no olho. Um mestre amigo ligou dos Estados Unidos e colocou na chamada Rodrigo Cavaca, ídolo de quem o Felipe esperava as revistas para copiar técnica. O Cavaca tinha um aluno com X frágil e não sabia o que fazer. Veio ao Rio na semana seguinte e, segundo o Felipe, sentou como aluno por 12 horas seguidas de aula teórica, e no outro dia fez a prática. O aluno dele, que não aceitava toque por dois segundos, hoje está na faixa-azul.

“Ele se colocou como meu aluno. Eu dei uma aula para ele das 8 da manhã às 8 da noite.”

Felipe Nilo, no Pura Connection · 0:53:41

Ele conta que o mestre Libório, a quem chama de mentor, liga com frequência pedindo ajuda em casos, e que recentemente foi Jacaré quem ligou. O Felipe lembra do Jacaré como o cara que foi campeão mundial de braço quebrado em cima de Roger Gracie.

Quando começou a dar cursos para gente de outras equipes, ficou com medo de que a bandeira da De La Riva no kimono atrapalhasse. Segundo ele, o mestre respondeu que o trabalho dele era diferente e que a bandeira dele tinha de ser azul, a cor do autismo. Desde então, diz, luta para que não exista briga de equipe no jiu-jitsu inclusivo.

“Quem fez eu acordar para isso se chama Ricardo De La Riva.”

Felipe Nilo, no Pura Connection · 1:36:29

O que fica da conversa

O Felipe lançou um livro sobre como atender alunos autistas no tatame, com prefácio do médico Paulo Liberalesso, e escreveu em linguagem simples de propósito. Ele se coloca numa linha com Carlinhos Gracie e Fábio Gurgel, que segundo ele profissionalizaram o jiu-jitsu, e com o Cavaca. O recado para professor que quer entrar nessa área é direto: a graduação importa pouco nesse momento, o que conta é estudar, aguentar crise agressiva no tatame e trazer resultado. Quem entra pensando só em quanto cobrar, avisa ele, é melhor ficar de fora.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.