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Pura Connection · Luiz Cabelinho

Árbitro Cabelinho revela bastidores de Buchecha, Xande e Roger Gracie

Um dos árbitros mais antigos do jiu-jitsu contou as decisões que mais pesaram, o dia em que quase desclassificou uma final de Mundial e por que saiu da IBJJF.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 22 fev 2024 (1:48:15).

Numa final de absoluto do Mundial, com o ginásio inteiro vaiando e a luta parada havia minutos, Luiz Cabelinho ficou de pé sozinho, pronto para desclassificar os dois. Ele era árbitro lateral da final entre Buchecha e Erberth, em 2017, e contou essa história no Pura Connection com o detalhe de quem estava a um passo do tatame. Assisti à conversa e fiquei com a sensação de ouvir o jiu-jitsu contado do único lugar em que ninguém torce por ninguém.

Faixa-preta da Gracie Barra, o Cabelinho se apresentou como o árbitro mais antigo em atividade na federação do Rio. Começou a apitar em 1994 ou 1995, segundo ele, e passou por lutas de gente como Xande Ribeiro, Roger Gracie e Kyra Gracie.

Sete minutos parados na final do Mundial

Segundo o Cabelinho, o Buchecha chegou à final de 2017 com o joelho machucado, e o Erberth era conhecido pelas chaves de joelho. Depois de uma raspagem, os dois caíram numa posição em que qualquer movimento do Buchecha entregaria o joelho. O Buchecha ficou parado se defendendo, e o Erberth esperando o bote. Do lado de fora, contou ele, o Léo Vieira pedia calma ao Buchecha.

O Cabelinho levantou para punir falta de combate. Os outros árbitros acompanharam. A regra da época, segundo ele, levava à desclassificação depois de punições seguidas, e ele foi subindo o sinal até chegar à última. Aí se viu sozinho de pé: nem o central nem o outro lateral nem a mesa acompanharam. A arquibancada gritava o nome dele. A luta ficou uns sete minutos naquela posição, contou, até que os dois se mexeram e o Buchecha foi campeão.

Ele disse que o Buchecha brincou depois, perguntando se ele ia mesmo desclassificá-lo, e que ele respondeu que só estava usando a regra. Contou ainda que depois ouviu de gente da organização que tinha feito a coisa certa.

Xande, Jacaré e a decisão no empate

Outra história que o Cabelinho fez questão de contar foi uma final entre Xande Ribeiro e Jacaré, no Tijuca Tênis Clube. A luta terminou empatada. De um lado, o Xande ajoelhado, sério, amarrando a faixa; do outro, o Jacaré comemorando com a torcida de batucada do Cantagalo. Ele deu a vitória ao Jacaré.

Segundo o Cabelinho, anos depois, no Mundial de 2017, o Xande puxou o assunto numa comemoração e disse que aquela vitória podia ter sido dele. O Cabelinho admitiu que a comemoração do Jacaré pesou, e que admirava o Xande justamente por ele ter a mesma postura ganhando ou perdendo.

“É, bicho, sou profissional.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 0:44:36

Ele usou a história para explicar por que hoje nenhum árbitro apita luta de atleta da própria equipe. Se fosse uma final entre o Xande e o Roger, com quem ele treinava na Gracie Barra, ele não poderia ter pegado.

O braço do Jacaré e o limite do árbitro

O apresentador lembrou da luta em que o Roger Gracie quebrou o braço do Jacaré, que teve como árbitro o Fredson Alves. O Cabelinho disse que dava para ver nitidamente que o braço tinha quebrado e que, naquela época, parar a luta para o médico não era comum. Lembrou que o Wallid Ismail já tinha sido campeão de braço quebrado numa luta contra o Jucão, depois de não bater. Hoje, garantiu, pararia e chamaria o médico.

“Nós temos que preservar a integridade física do atleta, independente de ser faixa-preta.”

Luiz Cabelinho, no Pura Connection · 1:03:21

Ele contou também de uma luta de master faixa roxa em que um judoca aplicou o estrangulamento que ele chama de posição do Flávio Canto. Quando tocou no atleta, ele estava apagado. Segundo o Cabelinho, o lutador acordou sem saber que estava de quimono, e ele acredita que o homem poderia ter morrido se a luta seguisse.

Da capoeira ao tatame da Gracie Barra

Antes da arbitragem vieram a capoeira e a briga de rua. O Cabelinho contou que o primeiro triângulo que levou na vida foi do Ralph Gracie, num apartamento em Ipanema, quando ainda dizia que capoeirista ninguém agarrava. Depois foi trabalhar de faxineiro na academia Atlântico Sul, do Joe Moreira, e começou a treinar com um quimono que tinha sido esquecido lá.

A faixa-preta, segundo ele, veio do Sérgio Lisboa, formado por Osvaldo Alves. Depois o Zé Beleza, que o levou para a arbitragem, o adotou e o mandou treinar em turmas duras de competição. Em 1996, contou, foi a Nova York fazer apresentação de capoeira e aproveitou para treinar na academia do Renzo Gracie. O sexto grau, disse, recebeu das mãos do mestre Carlinhos, em Florianópolis.

Ele também contou que foi o primeiro professor do Pé de Pano, que na época era chamado de Russo, e que o levou para a Gracie Barra. Segundo o Cabelinho, depois de perder o primeiro campeonato o garoto jurou que ninguém mais passaria a guarda dele. E lembrou de uma final entre o Pé de Pano e o Roger em que o Carlinhos mandou os dois lutarem de verdade, mesmo sendo da mesma equipe.

Fora da IBJJF

O ponto mais pessoal da conversa foi a saída da IBJJF. O Cabelinho contou que arbitrou o primeiro Mundial fora do Brasil em 2012 e, depois do evento, dançou e brincou com o Rodolfo Vieira. No ano seguinte, segundo ele, foi avisado de que não poderia trabalhar por causa disso, recebeu uma segunda chance e voltou a apitar. O último evento dele pela federação, disse, foi em 2017, e ele não sabe o motivo exato do corte.

Ele contou que o Leandro Lo explicou que ele deixou de ser chamado para o BJJ Stars porque não estava mais na vitrine da IBJJF. Mesmo assim, fez questão de agradecer à federação pelo que viveu. Hoje apita pela federação do Rio.

“Não vou dizer que eu não tenho vontade de voltar a arbitrar na IBJJF.”

Luiz Cabelinho, no Pura Connection · 1:22:51

O que fica é a imagem de um árbitro que se orgulha de trabalhar rindo e cumprimentando todo mundo, e que resume o ofício numa frase: quanto menos o árbitro aparece, melhor. Para quem só vê as finais pela tela, a entrevista mostra quanta decisão difícil passou pelas mãos dele.

“Quanto menos o árbitro aparecer numa competição, melhor para ele.”

Luiz Cabelinho, no Pura Connection · 0:55:01

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.