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Luta histórica

Jiu-jitsu x capoeira: a rivalidade que abriu o vale-tudo no Brasil

Antes da luta livre e do muay thai, quem ficava do outro lado dos desafios era o capoeirista. As duas artes brigaram, se estudaram e trocaram golpe.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 4 min de leitura

Quando
Desde cerca de 1890, segundo Mestre Camisa, até os anos 1990
Onde
Rio de Janeiro

Quando se fala em rivalidade do jiu-jitsu, todo mundo lembra da luta livre. Só que, pelas entrevistas que eu li, o primeiro adversário foi outro: o capoeirista. Esta página junta o que foi contado sobre esse confronto, que começou muito antes do UFC e acabou virando troca.

Uma diferença para as outras páginas de luta: aqui não tem uma luta só, com data e resultado. Tem uma rivalidade entre duas artes, contada por quem estava de um lado ou do outro.

O contexto: o primeiro vale-tudo, segundo Mestre Camisa

Quem conta a origem é o Mestre Camisa, formado por Mestre Bimba em 1971, em a entrevista dele no Pura Connection. A história começa na Marinha. Segundo ele, todo garoto rebelde da época ia para lá tomar jeito, e muitos eram capoeiristas. Quando havia desavença com os oficiais, o marinheiro passava a perna e derrubava. Os oficiais sempre perdiam.

Roda de Capoeira por Johann Moritz Rugendas (1835)
Gravura clássica de Johann Moritz Rugendas retratando a capoeira no Brasil do século XIX. (Domínio Público / Wikimedia Commons)

Então, conta o mestre, a Marinha trouxe um campeão japonês de jiu-jitsu para ensinar os oficiais. Daí saiu a luta entre Sada Miyako e o capoeirista Ciríaco, que ele situa por volta de 1890. Para o Camisa, foi ali que começou o vale-tudo no Brasil. Ele mesmo diz que deve ter havido outras antes, mas essa ficou mais famosa.

“O primeiro vale-tudo foi com a capoeira. Muita gente aprendeu muita coisa com a capoeira.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 0:59:03 · ler o artigo

Como foi o confronto: desafios e estudo dos dois lados

Depois dessa, segundo o Mestre Camisa, vieram muitas outras, e a capoeira foi sempre a adversária. O judoca Oswaldo Simões, falando dos desafios que deram fama às lutas no Rio de Janeiro, lembrou que o professor Hermanny, da capoeira, participou deles, na mesma época do desafio de Hélio Gracie com Kimura.

O Camisa conta que estudava a luta que estivesse em evidência para preparar a capoeira. Quando o jiu-jitsu estava no auge, o trabalho era defesa de baiana e de cinturada, que eram as entradas dos jiu-jiteiros. Contra o boxe, a preocupação era a distância curta. Do outro lado, ele lembra que Mestre Bimba dava aula particular para lutadores que queriam aprender a chutar, porque naquela época quem queria aprender pontapé ia para a capoeira.

“Os capoeiras sempre foram adversários, então aprenderam muito como lutar com o jiu-jitsu, e o jiu-jitsu também se preparou com os capoeiristas.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 1:17:17 · ler o artigo

O apresentador do Pura Connection foi na mesma linha. Ele contou que Hélio e Carlos Gracie incorporaram elementos da capoeira ao jiu-jitsu, principalmente nos chutes, porque recebiam gente que vinha da capoeira. Em outra conversa, citou a levantada técnica e alguns chutes como heranças dessa convivência.

Tem ainda uma ponte curiosa. O Mestre Camisa descreve Waldemar Santana, o adversário de Hélio e de Carlson, como capoeirista, aluno do Mestre Canjiquinha. E conta que o Dr. Sisnando, primeiro aluno médico de Bimba, chegou dizendo que fazia luta livre e jiu-jitsu, e só foi aceito depois de aguentar uma gravata do mestre.

O que veio depois: da roda para o tatame

Com o tempo, muita gente fez o caminho da roda para o tatame, e quase sempre com uma primeira lição dolorosa. O árbitro Luiz Cabelinho contou que, quando ainda só fazia capoeira, garantiu num apartamento em Ipanema que ninguém ia conseguir agarrar um capoeirista. O Ralph Gracie estava lá.

“Ele me deu um triângulo que parecia que ia arrancar a minha cabeça.”

Luiz Cabelinho, no Pura Connection · 0:03:07 · ler o artigo

O Tererê contou que fazia capoeira e resolveu trocar depois de ver o Royce Gracie no UFC, com o jiu-jitsu ganhando de todas as modalidades. O Raul Gazolla e o Marcelo Brigadeiro vieram da capoeira e os dois ganharam no jiu-jitsu o mesmo apelido: Capoeira. O Brigadeiro chegava de abadá e trocava pelo kimono.

E tem quem defenda que a capoeira prepara para tudo. O Pedro Rizzo, que foi instrutor de corda azul aos 17 anos e já treinava com o Marco Ruas, vê assim.

“Quem faz capoeira faz qualquer modalidade de luta bem. Seu corpo tá pronto para tudo.”

Pedro Rizzo, no Pura Connection · 0:02:48 · ler o artigo

Nem todo mundo do jiu-jitsu se sente à vontade para puxar golpe da capoeira. O Xande Ribeiro, que diz nunca ter treinado capoeira, acha que falta alguém com credibilidade na capoeira que traga algo aplicável ao jiu-jitsu, porque ele mesmo não se sente autorizado a ensinar movimentos de uma arte que não domina.

O que eu levo dessas conversas é que a rivalidade virou parentesco. O Mestre Camisa diz que as duas artes se ajudam e se respeitam, e as duas carregam o nome do Brasil pelo mundo. Para entender o resto dessa história, a história do jiu-jitsu brasileiro e a luta Hélio Gracie x Waldemar Santana são bons próximos passos.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.