Pura Connection · Marcelo Brigadeiro
Marcelo Brigadeiro admite que ódio da luta livre ao jiu-jitsu era inveja
O mestre de luta livre e treinador de MMA conta como era estar do lado mais pobre da rivalidade, por que ficou quando todo mundo migrou e como saiu de uma depressão depois de parar de competir.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 30 set 2024 (1:41:07).
Durante anos, luta livre e jiu-jitsu se odiaram no Rio de Janeiro. Marcelo Brigadeiro, um dos nomes mais conhecidos da luta livre, olha para aquela época com uma sinceridade rara. Segundo ele, o ódio que o pessoal da luta livre sentia pelo jiu-jitsu tinha uma raiz clara: inveja.
“Hoje eu percebo que o ódio era muito motivado por inveja.”
Marcelo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:30:48
A frase veio numa conversa com o André no Pura Connection, e o curioso é que os dois estavam em lados opostos daquela guerra. O André vinha do jiu-jitsu. O Brigadeiro ficou na luta livre quando quase todo mundo foi embora. Assisti à entrevista inteira e ela vai muito além da rivalidade: fala de lealdade, de formar lutador para o UFC e de uma depressão que quase terminou mal.
Por que o jiu-jitsu ganhou o mundo
O Brigadeiro explicou a inveja sem rodeio. O jiu-jitsu conseguia se expandir, organizar a modalidade e abrir portas, e a luta livre não conseguia. Parte da culpa, diz ele, foi de quem comandava. Naquela época as duas lutas tinham donos: no jiu-jitsu, o pessoal da Gracie Barra e do Carlson; na luta livre, o mestre Eugênio e o Hugo.
“Vocês querem ficar brigando aqui pelo bairro, a gente vai ganhar o mundo.”
Marcelo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:32:22
É assim que ele resume a postura do jiu-jitsu enquanto a luta livre gastava energia nos confrontos. Quando a luta livre percebeu, todas as portas já eram do jiu-jitsu. Ele também lembrou um fator social: a luta livre sempre foi da galera mais pobre, sem rede de contatos e sem alguém para abrir caminho.
Ele deu um exemplo que dói. Na primeira vez que foi campeão brasileiro de luta livre, depois de várias lutas duras, correu atrás da revista para ver a notícia. Saiu uma foto 3x4 e com o nome errado: em vez de Marcelo Brigadeiro, publicaram Marcelo Machado, outro atleta da academia. Ele guarda gratidão por Marcelo Alonso e Denis Martins, que segundo ele eram os únicos jornalistas que noticiavam a luta livre.
Ficar quando todo mundo foi embora
Chegou uma época em que a turma da luta livre migrou quase toda para o jiu-jitsu, para a BTT e para a Gracie Barra. O Brigadeiro ficou. Ele contou que recebeu convites de outras equipes quando estava bem nas competições, numa fase em que o treino na academia dele, a RFT, não andava bem e ele treinava praticamente sozinho. Mesmo assim, não trocou de bandeira.
Segundo ele, essa decisão custou oportunidades no curto prazo e pagou tudo no longo. Quando surgiu uma porta boa, o mestre escolheu ele para passar por ela, como recompensa pela lealdade. Ele cita Márcio Cromado como um dos dois mestres que abriram portas na vida dele. Sem isso, diz, talvez estivesse hoje dirigindo Uber, como gente que migrou.
Ele também contou como a aproximação começou. Nos primeiros campeonatos de luta livre que aceitaram atletas de jiu-jitsu, como a Copa Ciclone e a Supercopa, o pessoal do Carlson precisava se inscrever por equipes de luta livre, como a Budokan. Hoje, segundo ele, todo mundo treina junto. O André lembrou que no jiu-jitsu a chave de pé era vista como coisa de suburbano, e o Brigadeiro explicou uma diferença que nasceu dessas décadas de separação: na luta livre quase ninguém passa a guarda em pé, porque toma chave de calcanhar.
Do tatame ao UFC
O Brigadeiro é treinador de alto nível desde 2007 e contou que foi treinador de Tom Aspinall, hoje campeão peso-pesado do UFC, e de Darren Till e Taila Santos, que disputaram cinturão. Mesmo assim, ele diz que nada disso se compara a ver um garoto que chegou sem nada à academia comprar a bicicleta, depois o carro e depois a casa.
“Isso para mim vale mais do que dez cinturões de UFC.”
Marcelo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:48:40
Ele contou que ficou três semanas preso na ilha do UFC na pandemia com a Taila, e que encontrava todo dia o Dedé Pederneiras. Os dois concordaram que sentiam saudade da época em que a galera se matava por uma medalhinha. Hoje, a preocupação dele como treinador é a falta de rodagem. Tem atleta no UFC com dez lutas na vida inteira, enfrentando americanos que têm dez lutas de MMA e trezentas de wrestling.
Para ele, a vontade pesa mais que o dom. Viu muito talento ficar pelo caminho e muito cara sem talento chegar porque aceitou pagar o preço. Quando as duas coisas se juntam, diz, sai um Mica Galvão ou um Rodolfo Vieira. Agora ele quer registrar a luta livre antes que ela se perca: criou o canal Luta Livre TV e planeja montar uma equipe de luta livre para o grappling, de olho no ADCC.
A depressão depois da lesão
O momento mais pesado da conversa veio quando o Brigadeiro falou da lesão na coluna. Ele contou que viveu mais de dez anos de campeonato em campeonato e que, quando o médico disse que ele não podia mais lutar, a vida perdeu o propósito. Entrou numa depressão e passou meses pensando em tirar a própria vida. Procurou ajuda profissional, tomou remédio e reconstruiu a cabeça.
“Eu fui no inferno, morei lá, e aí nada me para mais.”
Marcelo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:58:03
Ele disse que faz questão de contar essa história em todo lugar, porque quem está passando por isso pode se sentir menos sozinho. O André também contou que já teve uma fase de depressão e que só não foi mais fundo porque tinha amigos e família por perto.
No fim, fica a história de um cara que escolheu o lado mais difícil e não se arrepende. E fica também a curiosidade do apelido: o Brigadeiro contou que, aos 11 anos, treinou um ou dois meses de jiu-jitsu com o Brigadeiro, professor do André. Quando mudou para Botafogo e foi para a luta livre, o mestre não lembrava o nome dele e o chamava de aluno do Brigadeiro. O nome ficou.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.