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Pura Connection · Raul Gazolla

Raul Gazolla conta como começou no jiu-jitsu aos 36 e virou faixa-preta

O ator que odiava ficar agarrado foi tirado da cama num domingo, apanhou de gente com metade do seu tamanho e nunca mais parou de treinar.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 jun 2022 (1:47:16).

Raul Gazolla não queria saber de jiu-jitsu. Segundo ele, a resposta para quem insistia era sempre a mesma: não gostava de ficar agarrado com ninguém, o negócio dele era luta solta. Foi preciso um amigo entrar no apart-hotel num domingo de manhã e empurrar o ator para fora da cama. Naquele dia, com 36 anos, ele apanhou de caras com metade do tamanho dele e saiu do treino com uma certeza.

“Eu preciso aprender isso. Fiquei muito encantado.”

Raul Gazolla, no Pura Connection · 0:37:51

Assisti à conversa do Gazolla no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a honestidade com que ele conta esse começo tardio. Ele chegou ao tatame com anos de capoeira e com um preparo físico de atleta, e mesmo assim não conseguia fazer nada. Dali até a faixa-preta, o caminho passou por São Paulo, pela Dinamarca e pelo Rio de Janeiro.

A capoeira veio antes

Antes do jiu-jitsu, a formação marcial do Gazolla foi a capoeira. Ele contou que entrou para aprender a brigar, porque vivia se metendo em confusão por causa do irmão, que era muito brigador. Com um ano de roda, descobriu que a briga era a última coisa que a capoeira ia ensinar: antes vinham a acrobacia, o berimbau, a música e a dança.

Segundo ele, a capoeira daquela época era muito mais agressiva do que muita gente imagina, com roda que virava pancadaria. Mas o que ele levou de lá para o jiu-jitsu foi outra coisa: o respeito. O Gazolla contou que nunca entra no tatame sem cumprimentar o professor e os mestres dos quadros na parede, e que dentro da roda ou do tatame ninguém sabe se o outro é advogado ou empresário. Quem está liderando a aula é o líder, e pronto.

Tem um detalhe curioso: ele contou que, no jiu-jitsu competitivo, ficou conhecido pelo apelido de Capoeira.

O domingo em que foi arrancado da cama

A virada aconteceu em São Paulo, quando o Gazolla foi fazer uma peça na cidade. Lá ele conheceu Fernando Yamazaki, Celso Cavallini e o professor Roberto Lage. O Cavallini insistia que ele tinha de treinar. Ele recusava. Até o domingo em que o amigo entrou no quarto, empurrou o ator da cama e deu duas opções: ir para o treino ou ir para o treino.

Na academia do Yamazaki, segundo o Gazolla, havia sete ou oito faixas-pretas e três faixas-brancas, ele entre eles. O treino foi das nove ao meio-dia. Ele conta que não entendia nada de guarda nem de passagem de guarda, e que o conselho que recebeu dos colegas foi pegar o adversário pelo pescoço. O resultado foi apanhar a manhã inteira, sem ninguém machucar ele. Quando menos esperava, o cara já estava nas costas dele.

Ele voltou para a aula da tarde. Foi aí que ouviu do Fernando Yamazaki a frase que, segundo ele, mudou a forma como passou a ver aquilo: a partir daquele dia, a brincadeira de agarrar tinha acabado, e os alunos iam aprender a imobilizar o adversário, botar para baixo e finalizar.

Quem deu a faixa-azul ao Gazolla foi o Roberto Lage, que ele descreve como um cara adorável e que, contou, já morreu. Nessa época ele treinava de duas a três vezes por dia, de segunda a sábado, e fazia a peça de quinta a domingo.

Treino de manhã, teatro à noite com Fábio Gurgel

A peça era Splish Splash, que ficou sete meses em cartaz em São Paulo. Segundo o Gazolla, 95% do público era feminino. Nesse período, Fábio Gurgel chegou a São Paulo e os dois passaram a treinar juntos numa academia que ficava no mesmo prédio do teatro. O ator tomava banho depois do treino e já descia para entrar em cena.

O Gazolla contou que o Fábio tinha sido campeão mundial aos 22 anos e estava com 23 ou 24. Os dois ficaram muito amigos, e o Fábio ficava impressionado ao ver um cara de 36 anos acompanhar a parte física dele, com o mesmo cardio, as mesmas séries e o mesmo número de repetições.

“Eu sou atleta, só não sei jiu-jitsu. Essa parte é tu que tem que me ensinar.”

Raul Gazolla, no Pura Connection · 0:41:30

Foi também em São Paulo que ele conheceu Sylvio Behring, que reencontraria anos depois, como vou contar lá na frente.

A perna quebrada na Dinamarca

A história mais marcante dessa fase aconteceu na Europa. O Gazolla contou que viajou como espectador com o Fábio, o Fernando Yamazaki e outros atletas para um campeonato na Dinamarca, com uma regra que misturava judô e jiu-jitsu: a luta começava em pé e, depois da queda, seguia no chão.

Na primeira luta do Fábio, segundo o Gazolla, o adversário travou a perna dele durante um movimento e a perna quebrou em três lugares. O Fábio foi operado e ganhou um ferro dentro do osso. O hospital não tinha quarto, e os dois passaram cinco ou seis dias no corredor, o Fábio numa maca e o Gazolla numa cadeira, com pacientes fumando ao lado. Na volta ao Brasil, contou, a tripulação passou os dois para a executiva para o Fábio viajar com a perna esticada.

Ele lembra também que era o único brasileiro na plateia e gritava tanto nas lutas que todo mundo sabia quando um brasileiro ia entrar no tatame.

Do Rio de Janeiro à faixa-preta

De volta ao Rio, o Gazolla foi treinar com Romero Jacaré. Segundo ele, o choque foi grande. Vindo de São Paulo, onde aprendeu com uma disciplina de tatame parecida com a do judô, ele estranhou o jeito solto e cheio de brincadeira dos alunos no Rio. Entendeu ali que eram duas culturas diferentes, e com o tempo tudo foi se ajustando.

Foi nessa época que ele conheceu Rodrigo Comprido. O Gazolla contou que os dois eram faixas-azuis juntos. O Comprido se profissionalizou e, anos depois, foi quem deu ao ator a faixa-preta.

Depois de um tempo parado e com problemas na coluna, ele voltou a treinar com Douglas Moura, da equipe do Sylvio Behring, e contou que foi muito bem recebido. O Douglas é quem ele chama hoje de seu professor. Para o Gazolla, o jiu-jitsu dessa volta já era outro. Segundo ele, depois de Royce e do UFC, tudo mudou: antes era rivalidade de torcida de futebol, ninguém podia visitar a academia do outro.

“Você pode treinar hoje em qualquer academia que ninguém quer te matar, ninguém quer te bater.”

Raul Gazolla, no Pura Connection · 0:42:32

O que fica da conversa

Boa parte do papo foi sobre a vida fora do tatame, e um dos momentos mais tensos veio de uma viagem de kitesurf pelo litoral do Nordeste. O Gazolla contou que caiu numa onda grande, a pipa entrou em looping e ele foi arrastado por baixo da água. O que segurou a cabeça dele ali, disse, foi uma lição do jiu-jitsu.

“Eu aprendi isso com o Rickson e levo para a minha vida: ficar confortável dentro do desconforto.”

Raul Gazolla, no Pura Connection · 1:18:34

Essa ideia de Rickson Gracie resume bem a conversa. O Gazolla começou tarde, apanhou muito e fez do jiu-jitsu uma ferramenta para a vida inteira. No fim, ele mandou um abraço para o Douglas Moura e para o Rodrigo Comprido e disse que aprende em todo treino, até com faixa-branca, porque precisa dar um jeito de não se machucar nem machucar ninguém.

“Não tem um dia que eu vá treinar que eu não aprenda alguma coisa.”

Raul Gazolla, no Pura Connection · 1:45:49

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.