Pura Connection · Pedro Rizzo
Pedro Rizzo conta como Marco Ruas o treinou de graça e mudou sua vida
O ex-lutador do UFC lembra da capoeira, da guerra contra Tank Abbott e do projeto social que hoje atende 250 atletas no Rio.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 dez 2022 (1:35:23).
Pedro Rizzo nunca pagou um centavo de mensalidade a Marco Ruas. Quem conta é o próprio Pedro, na conversa com o André no Pura Connection. Ele chegou escondido dos pais, fez uma aula, gostou e avisou que não tinha como pagar. O Marco não discutiu: mandou o garoto aparecer no dia seguinte, no treino da areia.
“Eu nunca paguei uma mensalidade. Eu podia pagar, mas eu nunca paguei.”
Pedro Rizzo, no Pura Connection · 1:15:08
Assisti à entrevista inteira e o que fica é isso: um homem de 49 anos, ex-lutador do UFC, que passa uma hora e meia falando do mestre como quem fala de um pai. Tem a luta contra Tank Abbott, tem a capoeira de rua, mas o fio que costura tudo é a relação com o Marco e a disciplina que ele herdou dali.
Da roda de capoeira ao treino na areia do Leme
Antes da luta, veio a capoeira. Segundo o Pedro, o pai dele era engenheiro e levou a família para Salvador por causa de uma obra. Foi lá, ainda moleque, que ele começou. De volta ao Rio, virou instrutor de corda azul aos 17 anos, e nessa idade já treinava com o Marco.
Ele contou que as rodas de rua do Rio foram uma escola de coragem. Você entrava para jogar, alguém chegava junto e batia, e aí só havia duas saídas: ir embora ou correr atrás do prejuízo na roda do fim de semana seguinte. Para o Pedro, isso ensinou a lutar sem saber quem vinha pela frente e a trocar de plano em segundos.
“Quem faz capoeira faz qualquer modalidade de luta bem. Seu corpo tá pronto para tudo.”
Pedro Rizzo, no Pura Connection · 0:02:48
O encontro com o Marco veio por uma fita. Um amigo da capoeira mostrou a luta do Marco contra o Pinduca, em 1984, e o Pedro, que gostava da luta em pé, ficou impressionado com um cara que não perdia para o pessoal do jiu-jitsu. Em 1989 ele foi atrás. Disse em casa que ia para a capoeira, esperou o Marco na porta da academia em Copacabana e fez a tal aula de graça que virou uma vida inteira.
A disciplina do Marco Ruas
O Pedro descreve o Marco como um mestre rígido, que cobrava o certo e nada além do certo. Treino marcado para as seis da manhã era às seis em ponto, pronto. Quem chegasse às 6h01 voltava para casa. Tinha corrida saindo do Leme pela areia, abdominal, subida para a academia e treino de chute na sequência.
Segundo ele, o Marco é casado desde os 23 anos e marcava treino no sábado às sete da manhã. Isso tirou do Pedro qualquer vontade de noitada. Ele contou que nunca bebeu e nunca usou droga, e que até hoje arruma a mala de treino do mesmo jeito que fazia aos 15.
“Você pode chegar duas horas antes, mas você não pode chegar um segundo atrasado.”
Pedro Rizzo, no Pura Connection · 0:14:21
O que mais me marcou foi uma história de 1997. O Marco mandou o Pedro para a Holanda aprender kickboxing. Ele fez dez lutas por lá e, quando voltou ao Rio, foi direto para o treino do mestre. Na hora da aula, o Marco colocou o aluno ao lado dele e pediu que ensinasse o que tinha aprendido. O Pedro conta que o Marco já era campeão do UFC e mesmo assim nem quis fazer dupla com ele, porque ia treinar com os alunos. Anos depois, em 2011, quando o Pedro ajudava na preparação de um lutador em Los Angeles, o Marco pediu uma câmera para gravar os treinos novos. Para o Pedro, isso resume o mestre: a faixa-preta é o começo da caminhada.
A guerra contra Tank Abbott no UFC Brasil
A estreia do Pedro no vale-tudo foi na Holanda, onde ele morava, num desafio de judô contra kickboxing. Ele enfrentou um judoca belga e venceu. Depois veio o convite que mudou tudo. Segundo o Pedro, o Marco se mudou para os Estados Unidos em 1996 e dava aula para o matchmaker do UFC, John Perretti. Foi assim que surgiu a ideia de colocar o Pedro contra Tank Abbott no UFC Brasil, em 16 de outubro de 1998. Ele não esquece a data porque é o aniversário da esposa.
O Pedro contou que pesou 102 quilos e o Tank, 148. Ele chutou muito as pernas do americano, até que o Tank conseguiu derrubá-lo e acertar socos por cima. Na época, ele já treinava chão com a ajuda de Castelo Branco e Rodrigo Comprido. Conseguiu voltar em pé, e aí veio a cena de que ele mais gosta.
“Todo mundo junto gritando Rizzo. Eu falei: caraca, uniu todo mundo.”
Pedro Rizzo, no Pura Connection · 1:23:08
Era a época da briga entre jiu-jitsu e luta livre, e o Pedro vinha do lado do Marco. Mesmo assim, segundo ele, o ginásio inteiro em São Paulo, jiu-jitsu incluído, torceu pelo brasileiro. Na volta ao Rio, a turma da luta o esperava no bar para comemorar. Ele também lembrou que tinha viajado com o Marco para o UFC 7, em 7 de setembro de 1995, quando o mestre venceu o torneio.
Sobre a rivalidade com Rickson Gracie, o Pedro contou uma história curiosa: um cara de cabelo comprido tocou o interfone da casa do Marco e o mestre achou que era o Rickson. Era só um amigo. Para o Pedro, o episódio mostra que o Marco vivia pronto, sempre esperando um evento para resolver tudo no esporte.
A Usina de Campeões e o que ficou da luta
Hoje o Pedro comanda a Usina de Campeões, projeto social que ele chama de o melhor lugar do mundo. Segundo ele, são 250 atletas, cerca de mil pessoas impactadas, sete modalidades e 1.500 metros quadrados de área de luta. O projeto nasceu, conta o Pedro, de um encontro com o dono de uma refinaria, também ligado à capoeira. A esposa, Monalisa, trabalha com ele todos os dias.
Ele leva para lá a regra do Marco. O treino começa às 11h15, e quem não estiver pronto nessa hora não treina, seja iniciante, seja campeão. Para ele, quanto mais título, mais o atleta precisa dar exemplo. O Pedro também contou que ainda consulta o Marco antes de decidir coisas da equipe profissional e manda vídeos de posições para o mestre opinar.
“O melhor do atleta é comprometimento. É o que vai mudar a tua vida.”
Pedro Rizzo, no Pura Connection · 0:15:54
Ele falou ainda da fé, da caminhada até o ringue, que sempre foi a pior parte, e de como foi difícil envelhecer e se aposentar. Disse que ainda adora lutar. Mas o que fica da entrevista é a gratidão. O Pedro repete que, sem o Marco, não existiria o lutador Pedro Rizzo e nem aquela conversa. É raro ver um ex-lutador de UFC dar tanto crédito ao professor. Vale a pena assistir.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.