Pular para o conteúdo

Pura Connection · Mestre Camisa

Mestre Camisa conta como a capoeira enfrentou o jiu-jitsu no vale-tudo

Aluno formado por Mestre Bimba, ele lembra a luta que abriu o vale-tudo no Brasil e explica o que as duas artes aprenderam uma com a outra.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 out 2024 (1:31:08).

Antes de existir UFC, antes até de a família Gracie ficar famosa pelos desafios, quem estava do outro lado nas brigas de rua e nos combates sem regra era o capoeirista. É o que conta o Mestre Camisa, formado por Mestre Bimba e um dos nomes mais respeitados da capoeira no mundo, na conversa com o André no Pura Connection.

Assisti à entrevista esperando só história de capoeira e saí com outra visão sobre o começo do vale-tudo no Brasil. Para o mestre, as duas artes cresceram se estudando. A capoeira precisou aprender a se defender das quedas do jiu-jitsu, e o jiu-jitsu, segundo ele, também se preparou para enfrentar os capoeiristas.

“O primeiro vale-tudo foi com a capoeira. Muita gente aprendeu muita coisa com a capoeira.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 0:59:03

A luta na Marinha que abriu o vale-tudo

A história que o Mestre Camisa conta começa na Marinha. Segundo ele, todo garoto rebelde da época acabava mandado para lá para tomar jeito, e muitos eram capoeiristas. Quando havia desavença com os oficiais, no futebol ou em qualquer outra coisa, o marinheiro passava a perna e derrubava o oficial. E os oficiais sempre perdiam.

A solução, pelo relato dele, foi trazer um campeão japonês de jiu-jitsu para ensinar os oficiais. Daí saiu o confronto entre o japonês Sada Miyako e o capoeirista Ciríaco, de Campos, que o mestre situa por volta de 1890. "Daí começou o vale-tudo no Brasil", disse. Ele mesmo faz a ressalva: deve ter havido outras lutas antes, mas essa ficou como a mais famosa.

Depois dela vieram muitas outras, e a capoeira, segundo o mestre, foi sempre a adversária. Por isso ele fala em troca: cada lado estudou o outro para não ser surpreendido.

“Os capoeiras sempre foram adversários, então aprenderam muito como lutar com o jiu-jitsu, e o jiu-jitsu também se preparou com os capoeiristas.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 1:17:17

Como a capoeira se preparou contra as quedas

O Mestre Camisa diz que sempre assistiu a todos os campeonatos de luta que pôde, estudando os melhores lutadores e os golpes principais de cada época. O objetivo era prático: entender a luta que estava em evidência e preparar a capoeira para ela.

Quando o jiu-jitsu estava no auge, contou ele, o trabalho era defesa de baiana e de cinturada, que eram as entradas dos jiu-jiteiros. Contra o boxe, a preocupação era a distância curta. O próprio André contou que, quando começou no jiu-jitsu, ganhou o apelido de "Capoeira" e ficou conhecido assim nas competições por muito tempo.

Para o mestre, a capoeira usa o corpo inteiro. Ele cita uma fita gravada há uns 70 anos em que perguntam a Mestre Bimba quais são os golpes da capoeira. A resposta: pernadas, joelhadas, murros, cabeçadas e o famoso rabo de arraia.

Mestre Bimba, o lutador que virou pai

Boa parte da conversa gira em torno de Mestre Bimba. O Camisa conta que foi levado a ele pelo irmão mais velho, Camisa Roxa, que tinha começado a treinar em Salvador e voltava nas férias para o interior ensinando os irmãos e os primos. Ele se formou com Bimba em janeiro de 1971 e, em 1972, veio para o Rio com a companhia de shows do irmão, para uma temporada no Canecão. Nunca mais voltou.

O retrato que ele faz de Bimba é de um profissional da luta. Segundo o Camisa, o mestre tinha 1,90 m, subia no ringue e dava aula o dia inteiro, a partir das seis da manhã. Entre as turmas, dava aulas particulares para lutadores que queriam aprender a chutar, porque naquela época quem queria aprender pontapé ia para a capoeira.

Para se formar, o aluno fazia um curso de defesa pessoal: saída de gravata, de cinturada pela frente, de todo tipo de agarrão, depois faca e pau. E Bimba tinha uma regra que o Camisa repete até hoje: quando não dá, corre, porque correr também é defesa. Ele perdeu o pai aos 9 anos e a mãe aos 16, e diz que Bimba virou seu segundo pai.

“Deus me livre dos meus amigos, porque dos meus inimigos eu sei me livrar.”

Mestre Bimba, no Pura Connection · 0:40:48

O médico que lutava jiu-jitsu e o teste da gravata

A história de que eu mais gostei junta as duas artes. Segundo o Mestre Camisa, Bimba trabalhava como carvoeiro quando um rapaz branco, vindo do Ceará para estudar medicina em Salvador, apareceu procurando por ele para aprender capoeira. Bimba duvidou. O rapaz respondeu que fazia luta livre e jiu-jitsu.

Bimba então propôs o teste: ia apertar uma gravata, e se o rapaz aguentasse, podia treinar. Ele aguentou, entrou e virou um grande aluno. Era o Dr. Sisnando, que o Camisa chama de primeiro aluno médico de Mestre Bimba. Hoje a enfermaria do centro de treinamento leva o nome dele. O mestre conta que depois espalharam que Bimba fazia o teste da gravata com todo mundo, mas se fosse assim ele não teria aluno nenhum.

Outra ponte com a luta de agarre aparece quando o Camisa fala de um amigo que acabou de perder, o Mestre Geni. Pelo relato, Geni treinou com Tarzan, aluno formado de Bimba que fazia luta livre. Tarzan e Pombo de Ouro foram para Brasília com Valdemar Santana, que o Camisa descreve como capoeirista, aluno do Mestre Canjiquinha. Pombo de Ouro, segundo ele, chegou a ser campeão de luta livre.

Espírito, brasilidade e o que fica da conversa

O mestre insiste num ponto: técnica e força passam, o espírito segura o lutador até o fim. Ele fala de lutas que terminam empatadas pela regra, mas que valem mil vitórias pela resistência de quem estava ali. O André concordou e lembrou uma final de estadual em que perdia por pontos depois de uma chave de braço escapar. Passando perto do alambrado, ouviu o mestre dele dizer: "Capoeira, agora é coração". Virou a luta e foi campeão.

“Você pode estar mais treinado do que for, se o teu espírito tiver fraco, você vai perder.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 0:21:21

Os dois também defendem que o jiu-jitsu brasileiro mantenha a raiz em português, do jeito que a capoeira faz. O Camisa conta que os alunos estrangeiros dele contam, cantam e dão aula em português. O André foi além: acha que lá fora deveríamos contar um, dois, três, e chamar os golpes pelo nome em português.

Aos 70 anos, com mais de 60 de capoeira e aulas levadas a mais de 80 países, o Mestre Camisa diz que em todo lugar que chegava queria conhecer a luta local. Da conversa, o que fica para quem é do jiu-jitsu é a lembrança de que a nossa arte nasceu no Brasil trocando golpe com a capoeira, e que as duas cresceram melhores por causa disso.

“Se todos os homens lutassem, o mundo seria menos violento, menos armas, menos violência e mais respeito ao próximo.”

Mestre Camisa, no Pura Connection · 1:29:45

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.