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Pura Connection · Márcio Faraco

Preparador de Shogun explica o que Rickson já fazia na respiração

Márcio Faraco, que cuida da respiração de lutadores do UFC, falou de medo, diálogo interno e por que tanto faixa-preta perde o fôlego no primeiro minuto do rola.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 ago 2026 (1:49:47).

Quando Márcio Faraco sentou no Pura Connection, ele estava cuidando da preparação respiratória do Shogun para a luta contra o Glover. E foi com esse exemplo que ele abriu uma das ideias que mais repetiu na conversa: mesmo quem já ganhou tudo continua querendo aprender. Assisti à entrevista e achei que ela interessa a qualquer um que já saiu de um rola sem ar sem entender o motivo.

“O cara campeão do Pride, campeão do UFC, Hall da Fama do UFC, e ele ainda está disposto a aprender.”

Márcio Faraco, no Pura Connection · 0:34:42

O Faraco é gaúcho, mora em Santa Catarina e trabalha com preparação mental e respiratória de atletas, segundo ele de várias áreas: lutadores do UFC, jogadores de futebol e surfistas de ondas grandes. No jiu-jitsu, ele se apresenta como aluno. Contou que está no fim da faixa azul, perto da roxa, aos 44 anos.

O que o Rickson fazia 30 anos atrás

A parte que mais me chamou atenção foi quando o Faraco falou do Rickson Gracie. Ele contou que tem um documentário do Rickson que revê sempre, e que a cada vez repara num detalhe novo. Num deles, o Rickson acorda e mede a frequência cardíaca em repouso. Segundo o Faraco, hoje a ciência trata isso como uma métrica importante: se o número está acima da média, o sistema nervoso está estimulado demais e o dia pede um treino mais leve.

“Tu vê ele 30 anos atrás acordando e já medindo a frequência cardíaca em repouso.”

Márcio Faraco, no Pura Connection · 0:38:52

Ele lembrou ainda do Rickson caminhando descalço na natureza e entrando na água gelada antes das lutas, coisas que, nas palavras dele, hoje viraram moda com outro nome. E citou os exercícios respiratórios do Rickson, os pranayamas, que o Faraco atribuiu à influência do professor Orlando Cani. O apresentador completou lembrando que foi o Orlando quem reforçou a importância de relaxar o corpo no fim do treino.

O Faraco não tratou o método antigo como intocável. Disse que, com a ciência de hoje, algumas práticas foram ajustadas, como a insistência na respiração pelo nariz, que antes ninguém cobrava. Mas fez questão de dizer que foram aqueles lutadores que abriram o caminho.

Por que o faixa-preta perde o ar no primeiro minuto

O apresentador contou um problema que vem sentindo: nos primeiros treinos mais pesados, principalmente no primeiro rola do dia, sente falta de ar mesmo sem ter acelerado tanto. O Faraco respondeu dividindo a respiração em três partes: a química do corpo, a mecânica e o efeito do ritmo sobre a mente.

Na parte química, segundo ele, o que manda respirar é o acúmulo de gás carbônico. Quem tem pouca tolerância a esse gás chega rápido ao limite e sente aquela sensação de sufocamento no começo. Respirar pelo nariz ajuda, disse ele. Na parte mecânica, ele contou que muitos lutadores de ponta respiram só com a parte de cima do peito, sem usar o diafragma, e isso sobrecarrega até a lombar.

O Faraco contou que, quando roda seminários e rola com gente diferente, vê faixa-preta começar a hiperventilar no primeiro segundo, contra alguém bem menos técnico. Para ele, a explicação está na cabeça. Ele também disse que monitora o batimento de lutadores de MMA que vieram do grappling: no treino de grappling pesado o coração fica numa zona baixa, e no de trocação o batimento sobe antes mesmo de o treino começar.

“Esse padrão respiratório é muito mais fruto de um padrão mental do que físico.”

Márcio Faraco, no Pura Connection · 1:21:20

O medo como aliado do lutador

Outro tema forte foi o medo. O Faraco disse que vê atletas tomando remédios fortes para fugir do nervosismo antes de competir, e que ele discorda disso. Citou uma frase da filósofa Lúcia Helena Galvão, de quem se diz fã: o medo tem que ser uma placa de avance, com cuidado. O lutador sem medo, segundo ele, não se preocupa com estratégia, com o córner nem com hidratação.

O apresentador lembrou que o Rickson fala algo parecido, que o medo é um componente da inteligência. E o Faraco contou que, quando faz meditação com lutadores para eles relembrarem a melhor luta da vida, muitos percebem que foi justamente no dia em que estavam com mais medo.

O apresentador também lembrou de um vídeo antigo do Pride em que o Wanderlei Silva, ao lado do Anderson Silva, falava para ele entrar com ódio. O Faraco comentou que isso funcionava e era o costume da época, mas que hoje existem estratégias mais sustentáveis para o lutador do que viver tratando o adversário como inimigo mortal.

Diálogo interno e mentalidade de faixa branca

Para o Faraco, a peça central é o que ele chama de diálogo interno, aquilo que o atleta fala para si mesmo. Ele deu o exemplo do jiu-jitsu: quem está preso num estrangulamento pode entrar em pânico ou pensar na técnica para sair. E quem apanhou nos cinco rolas do treino pode dizer que não nasceu para aquilo ou pode ir atrás do que errou.

Ele contou a própria história no tatame. Começou a treinar em 1997, num ambiente bem mais duro, parou, voltou, se machucou e só engrenou de verdade há uns cinco ou seis anos. Treinou até a faixa azul numa academia mais old school e depois foi para a Zenit, em Garopaba, que divide as turmas por nível. Quando decidiu competir, percebeu que ia ter que montar um jogo e abrir mão de outros, e isso virou uma reflexão sobre a vida.

“A minha competição no tatame não é contigo. A minha competição é comigo mesmo.”

Márcio Faraco, no Pura Connection · 0:37:16

Ele também comentou que alunos dele com academia na Austrália fazem questão de contar em português durante os treinos, e que o brasileiro leva para o jiu-jitsu um jeito de tocar e de se aproximar que estrangeiro estranha no começo.

O que fica da conversa

Saí da entrevista com a sensação de que muita coisa que a gente trata como novidade já estava nos treinos do Rickson e nas aulas do Orlando Cani. O Faraco trouxe nome científico, relógio que mede sono e batimento, mas a mensagem é antiga: respirar bem, dormir bem e conversar melhor consigo mesmo. Para quem treina jiu-jitsu, o recado prático é simples. Da próxima vez que faltar ar no primeiro rola, vale se perguntar se o problema está no pulmão ou na cabeça.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.