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Connect Cast · Rodolfo Vieira

Rodolfo Vieira conta por que largou o jiu-jitsu no auge para lutar no UFC

Hexacampeão mundial, ele diz que saiu por medo do MMA, contra a opinião do professor e dos pais, e que o medo nunca foi embora.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 24 jul 2023 (2:13:08).

Rodolfo Vieira tinha tudo o que um atleta de jiu-jitsu sonha: títulos mundiais, patrocínio mensal, agenda cheia de seminários e a certeza de que ainda podia melhorar. Mesmo assim, largou tudo para lutar MMA. No Connect Cast, ele contou o motivo, e o motivo surpreende. Ele foi porque tinha medo.

Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade. O Rodolfo, que se apresenta como hexacampeão mundial somando os títulos de marrom e de preta, passou boa parte do papo falando do desconforto que sente só de pensar numa luta. E explicou por que decidiu encarar esse medo em vez de fugir dele.

“Eu tenho que ir agora, novo. Se não der certo, até meus 30, 31 anos ainda consigo voltar para o jiu-jitsu.”

Rodolfo Vieira, no Connect Cast · 0:14:45

Confortável demais no jiu-jitsu

Segundo o Rodolfo, ganhar dinheiro com jiu-jitsu era muito difícil na época dele. Quando decidiu sair, a situação já estava boa: patrocínio mensal, muito seminário (onde, nas palavras dele, ganhava bastante dinheiro) e nenhum gasto, porque ainda morava com os pais e guardava tudo.

Ele contou que sentia estar longe do auge. Perdeu para Buchecha no Mundial de 2012, voltou em 2013, ganhou a categoria e perdeu para ele de novo. Em 2014, segundo o Rodolfo, chegou ainda melhor, finalizou todas as lutas e não tomou ponto no campeonato inteiro, mas mais uma vez não foi suficiente para passar pelo Buchecha.

O último Mundial dele foi em 2014. Em 2015 lutou o ADCC e ganhou, o único título grande que ainda faltava. Foi aí que decidiu parar de vez e focar só no MMA. Ele lembrou que naquela época quase não existia luta casada. Chegou a fazer uma no Metamoris contra Braulio, e contou que pagaram muito bem, mas era exceção.

O que faltava era vontade. Nas palavras dele, estava muito na zona de conforto. E havia um medo antigo de testar o MMA. Com 24, 25 anos, fez a conta: se não desse certo, voltaria ao jiu-jitsu antes dos 30. Hoje, aos 33, segue no UFC.

Todo mundo foi contra

A decisão não teve apoio. O Rodolfo contou que o professor dele, o Júlio, pediu para ele pensar bem. Lembrou que ele tinha demorado muito para chegar onde estava e que, no mês seguinte, ficaria sem patrocínio, sem salário e sem a mesma quantidade de seminários. Sugeriu lutar pelo menos mais um ano. Os pais também foram contra.

Ele não mudou de ideia. Disse que não ia arriscar a carreira lutando um Mundial sem vontade só por causa de mais um ano de salário. E até hoje escuta gente perguntando por que não volta, agora que as lutas casadas pagam bem.

“Eu não saí por causa do dinheiro. É isso que vocês não estão entendendo.”

Rodolfo Vieira, no Connect Cast · 0:37:33

Na conversa sobre quem foi o maior do jiu-jitsu, ele ainda deixou uma resposta curiosa. Para o Rodolfo, são dois: Buchecha pelos números e Roger Gracie pela dominância. Ele lembrou que o Roger parou de competir em 2011, o primeiro ano em que ele próprio foi campeão, e brincou que graças a Deus o Roger parou e deu uma chance a ele.

Um medo que nunca passou

O que mais me marcou foi ouvir que o medo sempre esteve lá, até no jiu-jitsu. Segundo o Rodolfo, as pessoas não acreditavam quando ele contava. Desde a primeira competição, o pavor era grande. Começava a aquecer e sentia a perna bamba, o corpo fraco. Achou que ia passar com o tempo e nunca passou. O que ele aprendeu foi a controlar e render bem mesmo assim.

Ele contou que acompanha há uns três anos as palestras da professora Lúcia Helena Galvão, e que a psicóloga dele, a Luciana, sem saber disso, começou a mandar os mesmos vídeos para ele estudar. De uma dessas palestras ficou a ideia que ele repete:

“Quando você tem medo, é sinal de que você está no caminho certo.”

Rodolfo Vieira, no Connect Cast · 0:16:22

O Rodolfo contou que começou a trabalhar com a psicóloga lá pela segunda luta de MMA. Na época ganhava pouco, teve vergonha de pedir desconto e parou. Quando a situação melhorou, a esposa, Juliana, fez o contato para retomar. Ele disse ainda que, se hoje tivesse uma academia cheia e dinheiro sem esse desconforto, tem certeza de que não estaria feliz.

A derrota que mudou a cabeça

A virada veio com a primeira derrota, contra Anthony Hernandez, numa luta que ele situou em 2021. Segundo o Rodolfo, ele entrou pensando em botar o adversário para baixo, finalizar e voltar logo para o Brasil ficar com a família. Tinha ouvido muita gente dizer que seria uma luta tranquila, e isso entrou na cabeça dele.

Ele descreveu a luta com detalhe. Pegou as costas, montou, tentou o katagatame de um lado, depois do outro, e não encaixou. Aí foi para o braço já com a sensação de que ia cansar e perder. O adversário deu um upa, a posição se perdeu, ele cansou e acabou finalizado. Segundo ele, com a cabeça de hoje, teria parado, controlado a montada, descansado e batido. Depois dessa luta, disse que entendeu que no MMA é trabalho dele machucar o adversário, senão é ele quem sai machucado.

Na última luta, contou, aconteceu o contrário. Tomou uma bomba no queixo e foi ao chão, ficou calmo, recuperou e, em vez de trocar golpes por cima, decidiu usar o que tinha de melhor. Ganhou por finalização. E isso depois de um camp com lesão no joelho e no pé, em que quase não conseguiu fazer sparring.

“Melhor usar o que eu tenho de bom. O jiu-jitsu sempre me salva.”

Rodolfo Vieira, no Connect Cast · 0:48:29

Ele também contou o susto de uma luta na Austrália: levou uma joelhada ao entrar na perna do adversário, abriu o olho, finalizou com um mata-leão e não lembrava de nada. Perguntou umas três ou quatro vezes ao Libório, que estava no corner, se tinha ganhado. Um documentário gravou a cena, e a mãe dele chorou muito ao assistir.

Do tatame da Acqua Life ao UFC

O começo foi comum. O Rodolfo contou que começou a treinar em 2003, aos 13 anos, para emagrecer, na academia Acqua Life, com o professor Arles Maia. Gostava, mas sem paixão. A chave virou na primeira competição. Aos 15, falou para o pai que queria treinar mais, e o pai não gostou muito porque a mensalidade aumentou.

Adolescente e faixa-azul, sonhava em conhecer a Brazilian Top Team, time de Ricardo Arona, que ele admirava. Pedia a um amigo de Campo Grande que treinava lá para levá-lo só para ver o treino e tirar foto. Nunca conseguiu, e dizia que se um dia lutasse MMA, seria naquele time.

A chegada ao UFC teve incerteza. Segundo ele, foi para Orlando com a esposa sem saber se ainda queria lutar. Ficaram na casa do amigo Bruno, padrinho do filho deles, estudando inglês e treinando. Quando o dinheiro começou a acabar, decidiu dar mais uma chance. Jacaré o levou para treinar na Fusion, ele fez a quinta luta da carreira, finalizou no primeiro round e logo depois foi contratado pelo UFC.

Hoje, contou, paga por fora o treinador de jiu-jitsu e o preparador físico e prefere treinar num grupo fechado, só com as técnicas que vai usar na luta. Diz que não precisa de uma equipe grande, e sim das pessoas certas ao lado.

O que fica da conversa

O filho, Benício, tinha três anos na época da gravação, e segundo o Rodolfo mudou muita coisa: ele quer estar mais presente, se alimentar melhor e ser um bom exemplo. Ele pensa em lutar até uns 40 anos, se a saúde deixar, e disse que queria fazer a próxima luta em outubro ou novembro, talvez no Brasil.

Saí da entrevista com a impressão de um cara que trocou o lugar onde era o melhor por um onde precisa provar tudo de novo, e que fez isso de propósito. Ele mesmo resumiu: sabe que não é tão ruim quanto dizem quando perde, nem tão bom quanto dizem quando ganha. E segue treinando com o mesmo medo de sempre.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.