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Pura Connection · Fábio Gurgel

Fábio Gurgel conta como a Alliance perdeu o time inteiro e se reergueu

O líder da Alliance falou do dia em que decidiu viver de jiu-jitsu, do desafio contra a luta livre e do racha que obrigou a equipe a mudar tudo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 17 nov 2020 (1:11:03).

No começo dos anos 2000, a Alliance viveu um racha que marcou a equipe. Segundo Fábio Gurgel, a equipe perdeu praticamente todo o time de competição de uma vez. No Pura Connection, o General contou como isso aconteceu, o que aprendeu e por que acha que a Alliance saiu mais forte. Assisti à conversa e o que mais me marcou foi a franqueza com que ele fala da dor daquele momento.

“A gente perdeu todo o nosso time de competição.”

Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:22:43

Antes de chegar lá, porém, vale voltar ao começo, porque a história do Fábio explica muito da forma como ele pensa o jiu-jitsu até hoje.

O dia em que decidiu viver de jiu-jitsu

O Fábio é do Rio e começou aos 13 anos. Contou que queria aprender a se defender, numa fase em que estava começando a andar sozinho pela cidade, e que o jiu-jitsu era divulgado pela família Gracie como a forma mais eficiente de defesa pessoal.

Dois anos depois veio a decisão. Ele lembrou que estava escutando uma conversa do pai com o irmão, que tinha entrado em engenharia na PUC, sobre futuro e mercado de trabalho. O pai virou para ele e perguntou o que ele ia fazer quando crescesse. A resposta foi jiu-jitsu.

“Eu sei exatamente o dia que eu decidi viver de jiu-jitsu: 15 anos de idade.”

Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:07:28

Segundo o Fábio, o pai não proibiu, mas avisou que o mercado era muito pequeno e que ele teria que ser bom o suficiente para se destacar. Ele disse que levou essa frase para a vida. E o mercado era mesmo minúsculo: contou que conhecia todos os atletas de todos os campeonatos, da faixa azul pena ao absoluto da faixa-preta, e que havia três ou quatro campeonatos por ano. Outra inspiração, segundo ele, foi o estilo de vida do professor dele, o Jacaré.

O desafio contra a luta livre

O Fábio contou que cresceu ouvindo histórias dos lutadores que defenderam a bandeira do jiu-jitsu, e que aqueles caras estavam, para ele, num outro patamar. Quando a turma da luta livre invadiu um campeonato e surgiu o desafio de vale-tudo, ele viu ali a chance de entrar para esse grupo.

Segundo ele, o Marcelo Behring teve grande influência nisso. O Fábio já ia com frequência a São Paulo, e esse foi um dos motivos da mudança para lá. O Marcelo, que gostava muito de vale-tudo, chegou para ele e disse que ele ia lutar. O Fábio contou que nem sabia quem seria o adversário, só que pegaria um dos mais pesados, e que do outro lado estava o Denilson, entre outros. Para ele, foi como ganhar na loteria: a oportunidade de se juntar a quem tinha defendido o jiu-jitsu.

Como nasceu a Alliance

A Alliance, segundo o Fábio, nasceu de uma necessidade. Quando ele saiu da academia do Jacaré para treinar em outro lugar, começou a dar aula e formou um grupo de alunos. Nos campeonatos, os alunos dele passaram a enfrentar os garotos do Jacaré, e ele não se sentia confortável gritando do lado oposto ao do próprio mestre. A saída foi juntar tudo sob uma bandeira só. Ele disse que foi a primeira fusão de academias que existiu, e que a ideia era ser só uma equipe de competição.

Com vinte e poucos anos, contou, ele já queria transformar aquilo num negócio maior do que uma academia, porque uma academia sozinha tem limite de espaço e de alunos. O caminho foi difícil, segundo ele, porque o jiu-jitsu nunca teve cultura de negócio e muita gente reagia contra.

O racha e a volta por cima

O apresentador lembrou do racha na Alliance, na época da briga entre federações. O Fábio situou o episódio em 2001 ou 2002. Segundo ele, a equipe não tinha nada a ver com a disputa; ele só não concordava com a ideia de dividir o esporte. O resultado foi a saída de quase todo o time de competição, numa equipe em que as relações eram muito pessoais.

O aprendizado, na visão dele, foi entender que o modelo dependia de laços pessoais que podiam se romper a qualquer momento. A Alliance passou a investir em metodologia e em suporte para as academias que faziam parte do time, em vez de só dividir uma bandeira. Ele contou que em cerca de dez anos a equipe se recuperou e que, desde então, não perdeu ninguém relevante.

Para aprender gestão, ele disse que estudou as grandes academias de ginástica e passou alguns anos aprendendo com um consultor, até sentir que sabia como tocar uma academia de jiu-jitsu. Hoje, contou, repassa isso em curso para outros professores, e o apresentador foi um dos alunos.

Saúde, controle e liderança

O Fábio falou muito da influência de Carlos Gracie na relação do jiu-jitsu com a saúde. Lembrou que, garoto, ia ao Ceasa comprar caixas de fruta por causa da dieta Gracie. Hoje, disse, a nutrição evoluiu e a dieta talvez não sirva para todo mundo, mas ficou o hábito de cuidar do corpo.

“Eu tenho 50 anos de idade e tenho basicamente o mesmo peso que eu tinha quando competia.”

Fábio Gurgel, no Pura Connection · 0:49:57

Ele comparou o jiu-jitsu à filosofia estoica: fazer o que está sob seu controle e não gastar energia com o resto. Por baixo da montada, explicou, quem pensa na técnica melhora um pouco a posição de cada vez, enquanto quem age pela emoção faz besteira. Também defendeu que academia de competição e academia de defesa pessoal precisam se aproximar, e contou que a Alliance, depois de muito tempo focada em campeonato, está fazendo o caminho de volta para o fundamento e a defesa pessoal.

Sobre liderança, disse que ninguém é obrigado a seguir um líder: as pessoas seguem valores. Para ele, liderar é dar o exemplo, ser justo, não se dar privilégios e ser o primeiro a encarar a dificuldade. E falou do campeão, que precisa ser egoísta para vencer, mas entender que o grupo forte é o que permite a ele ser campeão.

“Ninguém lidera sem valor.”

Fábio Gurgel, no Pura Connection · 1:04:38

O que fica da conversa é um Fábio que pensa o jiu-jitsu como negócio sem perder a arte marcial de vista. A resposta que deu ao pai aos 15 anos virou, décadas depois, a Alliance que a gente conhece, e boa parte disso, pelo que ele contou, veio justamente daquele racha.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.