Podcast Nem Me Viu · Rudimar Fedrigo
Mestre da Chute Boxe, Rudimar Fedrigo chama Anderson Silva de ingrato
O mestre de Wanderlei Silva, Rafael Cordeiro e Werdum lembra o acidente que o levou à luta, o Japão e a mágoa com o ex-aluno.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 30 jun 2023 (2:01:40).
O Rudimar Fedrigo, o mestrão da Chute Boxe, sentou com o Fabrício Werdum no Nem Me Viu e falou de tudo: do acidente de bicicleta que o levou ao Muay Thai, das viagens ao Japão, da noite em que o Wanderlei Silva bateu no Sakuraba. Mas o momento mais duro foi quando apareceu a foto do Anderson Silva no quadro de brincadeiras do programa.
“Considero que ele foi uma pessoa ingrata, uma pessoa que vem, usufrui e depois não sabe valorizar.”
Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 1:32:25
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi como um homem que formou tanta gente guarda cada história. Tem mágoa, tem orgulho, tem risada. E tem muita coisa sobre como se monta uma equipe que virou a mais temida do mundo.
Um Fusca, uma perna quebrada e o nome Chute Boxe
O Rudimar contou que entrou na arte marcial por causa de um acidente. Com 12 para 13 anos, descendo de bicicleta uma rua de Curitiba, bateu numa porta de carro que alguém abriu e caiu na rua. Um Fusca passou por cima da perna dele e foi embora. Ele ficou um bom tempo no hospital, e foi nessa fase debilitado que uns amigos apareceram na casa dele vestidos de preto: treinavam Muay Thai.
Ele começou a treinar e, pelo que contou, ficou viciado. Um colega mais graduado ia lanchar na lanchonete do pai dele depois do treino e seguia ensinando. O Rudimar acabou passando o colega e se formou. O mestre Nélio, que ele chama de introdutor da luta no Brasil, era aventureiro, sumia para garimpar ouro, e o aluno foi assumindo as aulas.
O nome da academia veio de uma preocupação simples. Na época ninguém sabia o que era Muay Thai, então ele quis um nome que explicasse a luta: chute com boxe. Hoje, segundo ele, a Chute Boxe tem 43 anos e muitas unidades pelo mundo, e só abre academia quem foi formado faixa-preta lá dentro.
“Cheguei a ser despejado por falta de aluguel.”
Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 1:11:11
O despejo veio numa fase ruim. O Rudimar contou que resolveu sair candidato a vereador e jogava na campanha tudo o que entrava na academia. Ficou sem academia e ouviu dos parentes que era melhor trabalhar num escritório. Hoje a matriz tem sede própria.
Quando o jiu-jitsu entrou na Chute Boxe
A parte de jiu-jitsu da história é das melhores. Segundo o Rudimar, lá pelo fim dos anos 90 se mudou para Curitiba um mestre de jiu-jitsu, amigo do Carlson Gracie, que vivia da construção civil. Ele matriculou alunos na academia e viu o Rudimar puxando um agarra-agarra no fim do treino. Corrigiu na hora, mostrou onde botar o braço. Em vez de desafiar o homem, o Rudimar convidou o cara para dar aula. Os treinos eram num piso de Paviflex.
Depois de algumas brigas de rua, contou o mestre, o pessoal percebeu que a mistura de Muay Thai com jiu-jitsu funcionava. O primeiro evento saiu de uma confusão do Pelé Landi com um capoeirista chamado Moura. Em vez de deixar a briga para a rua, fizeram um evento num ginásio, e quem foi só assistir saiu de lá com luta marcada.
O Carlson voltou à história por uma pergunta do jornalista Marcelo Alonso. O Rudimar confirmou que, depois que o Carlson se separou dos atletas dele, ligava de vez em quando pedindo para a Chute Boxe bater naqueles caras. O mestre disse que esteve três vezes pessoalmente com o Carlson e que o legado dele segue vivo.
Pode matar: Wanderlei contra Sakuraba no Japão
O Rudimar disse ter ido umas 40 vezes ao Japão. A história que ele mais gosta é a do Wanderlei contra o Sakuraba, que na época tinha vencido vários brasileiros. Na sala de aquecimento, contou, o presidente do evento chegou de cara fechada, falou em japonês por dois minutos, e o intérprete resumiu.
“Chegou falando umas coisas em japonês, e o intérprete falou assim: pode matar.”
Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 0:28:04
Segundo o Rudimar, o pisão e o chute no chão estavam liberados, e a luta foi extremamente violenta. O Sakuraba foi para o hospital, e no dia seguinte os jornais estampavam a derrota dele. Para o mestre, essa vitória transformou a academia. Ele fez questão de elogiar o japonês e ainda contou um detalhe: via o Sakuraba fumando um cigarrinho no canto antes das lutas.
Dinheiro da comida guardado e a rivalidade no café
Para manter o time unido fora de casa, o Rudimar ficava com todo o dinheiro da comida. Ninguém saía sozinho: elevador, banheiro, compra na esquina, tudo junto. Ele explicou que queria blindar a cabeça do lutador, porque um comentário no café da manhã do hotel, do tipo cuidado com a joelhada, estraga meses de trabalho em 15 segundos.
A rivalidade com a turma do Rio era real. O mestre citou Zé Mário, Minotauro, Arona, Paulão e Jucão, disse que um torcia para o outro perder e admitiu que uma vez ele mesmo botou pilha errada no time, achando que um japonês estava treinando com o rival antes de enfrentar um aluno dele. Hoje, diz, tem admiração por todos.
Sobre ego de campeão, pergunta mandada pelo Fábio Gurgel, o Rudimar contou que chegava a enxugar o suor do Wanderlei nas manoplas: campeão tratado como campeão, mas sempre com autoridade do treinador. Ele também lembrou que, ao ver pela primeira vez as lutas no Rio, achou o Fábio Gurgel o mais completo e parecido com o que a Chute Boxe fazia.
Rafael Cordeiro, Charles e a ferida com Anderson
Do Rafael Cordeiro, o mestre só falou com carinho. Disse que o Rafael entrou como aluno comum, chamou atenção logo na primeira luta e foi um dos melhores alunos que teve. Pagava a própria passagem para estar junto nas lutas. O Rudimar se vê no trabalho dele nos Estados Unidos.
“Ele defende a academia e o seu mestre até a morte.”
Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 1:25:50
O Charles do Bronx ganhou um elogio que diz muito: num encontro nacional em julho, no frio de Curitiba, podendo ficar no melhor hotel, ele dormiu no tatame gelado com todo mundo. O Wanderlei, segundo o Rudimar, nunca pediu para não lutar com ninguém. Ele e o Nilsão pegaram a faixa-preta de Muay Thai na mesma noite.
Já o Anderson, segundo o mestre, disse que não aprendeu nada na academia. O Rudimar contou que ele saiu, foi procurar a academia rival e, na cabeça do Anderson, o Rudimar teria bloqueado a entrada dele no evento japonês. O mestre nega: diz que não era dono do evento e que foi o presidente de lá que não gostou da atitude. Para ele, na luta contra o Sonnen, quando o bicho pegou, o Anderson lembrou que era Chute Boxe.
O que fica da conversa
O Werdum também contou as dele: morou dois anos no alojamento da matriz, viajava de Porto Alegre para Curitiba todo fim de semana e virou uma cama de casal num pesadelo. No fim, o Rudimar deu a ele uma faca, e o Werdum pagou com uma moeda, tradição gaúcha para não cortar a amizade. Saí da conversa com a sensação de ter ouvido a história da Chute Boxe contada por quem pagou o preço dela, com o despejo, o Japão e as mágoas junto.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.