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Equipe

Chute Boxe: a equipe de Curitiba e a rivalidade com o jiu-jitsu

O mestre que batizou a academia, o técnico que formou Wanderlei e Shogun, o faixa-preta dos Gracie que foi ensinar em Curitiba e a guerra com a BTT.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · atualizado em 30 set 2026 · 8 min de leitura

Onde
Curitiba, Paraná
Fundadores
Rudimar Fedrigo

A Chute Boxe é uma equipe de muay thai e MMA de Curitiba, e mesmo assim ela aparece o tempo todo nas entrevistas de jiu-jitsu: como rival, como adversário que pisava na cabeça no Pride e como casa de um faixa-preta criado pelos Gracie. Agora dá para contar também o começo, na voz do próprio Rudimar Fedrigo, do Rafael Cordeiro, do Wanderlei Silva, do Shogun e da Cris Cyborg. Ninguém disse o ano da fundação, então não vou inventar data.

Origem: o nome, o mestre e o primeiro vale-tudo

O Rudimar contou que começou no muay thai com 12 para 13 anos, se recuperando de um atropelamento em Curitiba. O mestre dele, Nélio, que ele aponta como o introdutor do muay thai no Brasil, era aventureiro e sumia para garimpar ouro. Nessas ausências, o Rudimar passou a dar as aulas. Quando abriu a academia, o nome foi pensado para ser entendido.

Wanderlei Silva
Wanderlei Silva, maior ícone da Chute Boxe e campeão dominante no PRIDE FC. (Wikimedia Commons)

“Ninguém sabia o que era muay thai. Aí coloquei o nome da academia Chute Boxe.”

Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 0:35:39 · ler o artigo

O Rafael Cordeiro deu outro pedaço do quadro: segundo ele, o muay thai chegou a Curitiba há mais de 40 anos com praticantes de kimono vindos do taekwondo. Ele mesmo começou no taekwondo aos 11 anos e aos 13 foi para a Chute Boxe, onde o primeiro professor foi o Edmar.

Como o Rafael virou o técnico da casa tem duas versões. Ele contou que, quando o Edmar deixou a academia, assumiu o lugar dele como professor e como lutador. O Shogun lembra de outro jeito: o Rafael parou de lutar porque o Rudimar pediu que ele assumisse as aulas. Para o Rudimar, o Rafael entrou como aluno comum e chamou atenção logo nas primeiras lutas.

O primeiro vale-tudo da turma, segundo o Rafael, foi em Curitiba em 1993: ele, o Pelé e o Nilsão lutaram com a mesma sunga roxa, a única amostra que o patrocinador tinha, e os três ganharam. O Wanderlei guarda a lembrança de Nova Friburgo, para onde o Rafael o chamou quando ele ainda andava com a mochila da escola. Foram 21 horas de ônibus, os cinco da Chute Boxe venceram e ele ganhou em 20 segundos, numa época em que nem treinava jiu-jitsu.

Quem fez a equipe

O nome que todos citam é o do Rudimar. É ele quem recebe gente nova, quem escala luta, quem manda nos atletas. O Jorge Pereira contou que o Rudimar não deixou acontecer a revanche contra o Pelé na mesma noite, depois de a luta parar por um corte. O Sérgio Malibu lembrou que o Rudimar o recebeu na Chute Boxe, mostrou técnicas e, no fim da visita, disse que ia ter de graduá-lo. O próprio Rudimar contou que foi umas 40 vezes ao Japão com os lutadores e que, nas viagens, ficava com todo o dinheiro da comida para obrigar o time a fazer tudo junto.

O outro pilar é o Rafael. O Wanderlei disse que entrou na academia aos 14 anos, só saiu aos 44 e treinou com ele da primeira à última luta. O Shogun contou que o Rafael o ensinou tudo, da faixa-branca à preta. O Werdum listou quem passou pela mão dele: Cris Cyborg, Rafael dos Anjos, Shogun, Wanderlei e Ninja. A Cyborg chegou por insistência do Jorginho Careca, que a viu jogando handebol. No começo, segundo ela, as únicas mulheres eram ela e uma fisiculturista que batia nela todo dia.

Também passaram por lá Anderson Silva e Jadson Costa. O Wanderlei contou que o Anderson já estava suado quando ele chegava às 9 da manhã de sábado, e que nos torneios internos o Pelé venceu o Anderson duas vezes. O Paulo Filho, que estava do outro lado, falou da equipe com respeito: para ele, o muay thai da Chute Boxe foi o mais bem aplicado ao vale-tudo que ele conheceu.

O jiu-jitsu chega a Curitiba

Aqui há duas portas de entrada. O Rudimar contou que, por volta de 1999 para 2000, um mestre de jiu-jitsu amigo do Carlson Gracie se mudou para Curitiba e passou a dar aula na academia, e foi aí que começou a mistura com o muay thai. A história mais detalhada nas entrevistas, porém, é a do Cristiano Marcello, criado na Gracie Humaitá. Ele trabalhava numa produtora com o Joinha, sócio do Rudimar, que o apresentou como um faixa-preta agressivo, justamente o que faltava ao time. Isso foi em 2001, para lutar no Meca.

Antes de ir, o Cristiano pediu a bênção ao Royler Gracie, que o liberou dizendo que lá o tratariam bem. A chegada foi dura.

“Eu tinha uma aposta que em duas semanas eu ia pedir para ir embora.”

Cristiano Marcello, no Pura Connection · 0:07:27 · ler o artigo

Ele ficou nove anos. Contou que a adaptação foi na base de cartela de Dorflex, porque o treino em pé era de joelhada, soco e chute. A pedido do Rudimar, passou a dar aula particular ao Wanderlei, e diz que levou a Cris Cyborg até a faixa-roxa. Sobre o kimono, as duas versões vêm do mesmo Cristiano. Numa conversa, ele disse que os lutadores não costumavam vestir kimono e que o Rafael era quem tinha mais contato com o jiu-jitsu. Na outra, defendeu o contrário.

“Na época da Chute Boxe, todos os atletas que passaram pela minha mão treinavam de kimono.”

Cristiano Marcello, no Pura Connection · 1:28:14 · ler o artigo

O jeito de treinar e o pisão do Pride

O Werdum, que chegou por volta de 2007, descreveu o treino: uns 10 km de corrida até o Parque Barigui, com 40 ou 50 atletas e a Cyborg na frente, e o Rafael esperando com manopla. A roda de boas-vindas para ele, que vinha do jiu-jitsu, custou um mês e meio vendo duplo depois de um soco do Dida.

A marca que ficou foi o pisão. O Rogério Minotouro lembrou que no Pride era preciso uma guarda capaz de tirar o pisão, porque os caras da Chute Boxe pisavam muito. Sobre a regra, as versões divergem. O Shogun disse que no Pride era permitido pisar no adversário caído e que eles treinavam isso num colchonete adaptado. O Werdum contou que o pisão não existia como regra no Pride e que foi a Chute Boxe que o levou para lá.

“O estilo da Chute Boxe era tão agressivo na época que eles faziam, e o japonês adorava.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:18:51 · ler o artigo

O Rudimar tem a história da virada. Antes do Wanderlei enfrentar o Sakuraba, o presidente do evento foi à sala de aquecimento e, pelo intérprete, disse que o Wanderlei podia matar. O Sakuraba foi para o hospital.

“Foi uma transformação muito grande da academia a partir dessa vitória.”

Rudimar Fedrigo, no Podcast Nem Me Viu · 0:29:37 · ler o artigo

O Rafael disse que a Chute Boxe foi a academia com mais vitórias no Pride, e o Werdum completou que a regra era deles. O Shogun explicou o outro lado: o jogo da equipe era encurralar o adversário, o que funcionava no ringue quadrado e ficou bem mais difícil no octógono.

A rivalidade com a BTT

Todo mundo que viveu aquela época fala da guerra com a Brazilian Top Team.

“Sem imaginar que a Chute Boxe ia se transformar naquilo que se transformou junto com a BTT, os maiores dois times do planeta, a maior rivalidade da história do esporte.”

Cristiano Marcello, no Pura Connection · 0:41:06 · ler o artigo

O Rafael contou que do outro lado estavam Murilo Bustamante, Zé Mário Sperry e o Paulo Filho, e que os times, muitas vezes no mesmo hotel, nem podiam se cruzar no café da manhã. Depois de uma discussão entre o Wanderlei e o Ricardo Arona no café, passaram a ficar em hotéis separados.

“Quando a gente lutava, sabia que ia ser um confronto muito maior do que vencer ali dentro.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 1:07:02 · ler o artigo

O Zé Mário confirmou que os times viajavam separados e que, no dia em que ele perdeu para o Ninja, até o Minotauro chorou. O Paulo Filho resumiu o clima sem rodeio.

“Literalmente os caras queriam arrancar nossos dentes fora.”

Paulão Filho, no Pura Connection · 0:35:48 · ler o artigo

O Bebeo Duarte, da BTT, contou uma noite em que a provocação entre vestiários passou do ponto e ele pediu ao Rudimar que acalmasse a turma. O Rudimar, por sua vez, admitiu que certa vez botou pilha errada no time contra a equipe do Zé Mário. A rivalidade chegou às mulheres: a primeira luta da Cyborg foi contra Erica Paes, da BTT. A Cyborg diz que estava ganhando, tentou um pisão, foi empurrada e deslocou o cotovelo. A Erica conta a mesma luta como a vitória mais importante da carreira, uma finalização com um minuto.

No meio disso ficava o Cristiano, vindo da família Gracie e treinando o time rival do jiu-jitsu. O Ryan Gracie foi tirar satisfação com ele no Mundial, e o Royler o defendeu dizendo que aquele era o ganha-pão dele. Na definição do próprio Cristiano, ele foi boi de piranha sem saber.

A saída para os Estados Unidos e o que ficou

O fim daquela geração também tem versões. O Rafael contou que em 2007 a Chute Boxe decidiu abrir uma academia nos Estados Unidos e que ele vendeu tudo e se mudou para a Califórnia em março de 2008. Em outra conversa, disse que o sócio desistiu da Chute Boxe americana por achar arriscado e que, um ano depois, ele montou a Kings MMA. O Werdum, que se diz o primeiro aluno da Kings, situa o começo em 2009.

O Cristiano contou que, quando o time se desfez, se viu sozinho e continuou lutando. Outros episódios mostram o peso da equipe no circuito: o Marcelo Nigue sofreu a primeira derrota no MMA no Meca, escalado pelo Carlson contra o Jadson Costa, e o Morango finalizou o Jean Silva, da Chute Boxe, na final do Super Challenge.

O que fica para mim é que a Chute Boxe mudou a vida de muita gente do jiu-jitsu, dos dois lados do vestiário. Para os detalhes, vale ouvir o Rudimar, o Rafael Cordeiro sobre a guerra com a BTT, a Cris Cyborg, a primeira conversa do Cristiano e o Zé Mário contando a derrota para o Ninja.

O que foi contado

Esta página junta o que foi dito em várias entrevistas. Cada afirmação é de quem a disse e leva ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.