Pura Connection · Marcelo Nigue
Marcelo Nigue x Brigadeiro: a luta que reacende jiu-jitsu contra luta livre
Aos 51 anos, o faixa-coral conta como uma provocação no Instagram virou luta e lembra a derrota que mudou a cabeça dele.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 out 2025 (1:32:54).
Marcelo Nigue tem 51 anos, é faixa-coral, não faz musculação e diz que voltou a ser atleta por causa de um homem de quem não gosta. Duas semanas antes de enfrentar Marcelo Brigadeiro, ele sentou no Pura Connection e deixou claro que a briga é pessoal. A luta coloca de novo frente a frente o jiu-jitsu e a luta livre, a rivalidade que, nas palavras do próprio apresentador, já foi coisa de gangue no Rio, quando um lado não podia cruzar com o outro na rua.
“Meu negócio com ele é pessoal e nós vamos resolver lutando. E com certeza depois vamos dar um abraço.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 0:16:25
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi como o Nigue mistura provocação e gratidão quase na mesma frase. Num minuto ele promete amassar o adversário. No outro, agradece à família Gracie, fala dos alunos que criou como filhos e conta a derrota que, segundo ele, mudou a cabeça dele para sempre.
Como uma postagem virou a luta Nigue x Brigadeiro
Segundo o Nigue, tudo começou com uma postagem em que o Brigadeiro dizia querer lutar com uma lenda do jiu-jitsu. Ele garante que não se acha lenda. Para ele, lenda é Amaury Bitetti, Libório, Murilo e Renzo. Só que umas 200 pessoas marcaram o nome dele, ele respondeu que aceitava, e o Brigadeiro, de acordo com o relato, comentou que batia nele "igual faixa branca".
O Nigue conta que levou para o lado pessoal e mandou uma mensagem no privado dizendo que, onde encontrasse o Brigadeiro, daria um soco na cara dele. Ele mesmo admite que errou. Diz que é educador, que ninguém tem direito de agredir ninguém, mas que naquela hora "o sangue fala um pouquinho mais alto".
Daí veio a negociação. Segundo o Nigue, o Brigadeiro sugeriu transformar aquilo em dinheiro. Ele topou e propôs três modalidades, porque achava que uma luta só de luta livre não venderia pay-per-view. O Brigadeiro, sempre segundo o Nigue, respondeu com palavrão e perguntou se aquilo era triatlo. Os dois viajaram para a Europa, o assunto sumiu por dez, quinze dias, e só depois os empresários fecharam o evento.
As regras, a guarda fechada e o perigo do pé
A luta tem 10 minutos e só vale finalização. O Nigue contou que pediu uma prorrogação em que o primeiro ponto venceria, e o Brigadeiro não aceitou. Paulão Filho, Bitetti e Renzo deram o mesmo aviso a ele: se o Brigadeiro não conseguir nada nos dois primeiros minutos, vai tentar segurar a luta. O Paulão, segundo o Nigue, acha que o tempo deveria ser de 20 minutos, porque é no cansaço que a técnica aparece.
O plano dele é não deixar o Brigadeiro fechar a guarda. Se fechar, ele diz que vai entregar um braço ou uma perna só para a luta andar. O modelo que ele quer repetir é Paulão contra Cacareco, uma luta "falada até hoje", em que os dois foram para a frente o tempo todo. O exemplo contrário, na visão dele, foi Zé Mário contra Libório no ADCC, vaiado porque um ficou empurrando o outro.
“Nem que eu tenha que puxar ele pra montada. Vai ter que ter luta, cara.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 0:24:20
O maior cuidado é com as pernas. O Nigue lembra que, na geração dele, quem atacava o pé em competição ouvia a torcida gritar "sapateiro", e por isso o jiu-jitsu treinou pouco essa parte. Hoje, diz ele, a gente vê faixa-roxa gringo finalizando campeão brasileiro pelo pé. Ele fez um treino específico para não deixar a perna chegar e contou uma superluta contra um pesado da luta livre que pegou o pé dele duas vezes. Não bateu, mas passou 20 dias com o tornozelo inchado e acha que o adversário aliviou na segunda para não quebrar.
“Galera da luta livre é pé, cara. Tem que fazer um trabalho específico e não deixar chegar, porque é perigoso.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 0:30:32
Do judô na Freguesia à academia do Carlson
A história do Nigue começa aos 5 anos, com um professor que dava judô e jiu-jitsu. Aos 7 ele já lutava na categoria de 8 e 9. No judô chegou a enfrentar Flávio Canto, e os dois pegaram a faixa-preta no mesmo módulo. Segundo ele, na época quem estava num bom nível no judô era afastado do jiu-jitsu, que tinha fama de "esporte de favelado, de pitbull, de briga de rua".
O mestre dele, o Casquinha, começou a levá-lo para a academia do Carlson Gracie depois que o Nigue venceu Bruno Fernandes, um dos tops da época. Lá, com uns 70 quilos, ele treinava onde estavam Vitor e Amaury, e o Nigue define aquele ambiente numa palavra: osso.
A estreia no vale-tudo, segundo ele, foi sem luva, contra um lutador da luta livre, no período em que o cage do UFC ficou no Brasil para a luta de Wanderlei com Vitor. Quando ganhou, virou de costas para comemorar e levou uma pisada do adversário. Deu briga entre as torcidas.
Depois veio o Heroes, em Teresópolis. O Nigue conta que subiu para a categoria até 93 quilos porque uma luta ia cair, e só soube quem era o adversário quando o homem entrou pulando: Daniel Muralha, da luta livre, com Johil de Oliveira no corner. Três ônibus saíram da Freguesia para ver. Ele encaixou triângulo e kimura ao mesmo tempo e o adversário apagou. A torcida invadiu o ringue, e uma semana depois, segundo o Nigue, o Carlson disse numa entrevista que ele nunca mais lutaria no Brasil, "só na China".
A derrota para Jadson Costa que mudou tudo
Perguntado sobre o maior desafio da carreira, o Nigue não escolheu uma vitória. Contou a primeira derrota no MMA, no Meca, que ele considerava o segundo maior evento do mundo na época. O Carlson o escalou contra Jadson Costa, da Chute Boxe, e quem vencesse iria lutar o Pride Bushido dos leves contra Takanori Gomi.
Segundo o Nigue, ele vinha de oito ou nove vitórias e achava que batia em todo mundo. Levou uns 14 pisões na cara, raspou, caiu por cima com vontade de "matar" o adversário e acabou pego num triângulo. Saiu com vergonha, deitou no colo da esposa no vestiário e pensou em como voltaria para a Freguesia, onde tinha mais de 100 alunos. Quando chegou ao Rio, os alunos o abraçaram na rua.
“Ele foi o cara que me ensinou que vitória e derrota não mudam nada na vida.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 0:57:16
Dali ele passou a competir sem medo de perder, e foi atrás de tudo: diz que foi campeão no MMA, no judô, no boxe e brasileiro de wrestling. No boxe profissional, contou que passou quatro meses em Las Vegas, na academia do Floyd, e nocauteou no terceiro round o quinto do ranking latino-americano do WBC. Treinou muay thai quatro anos com Cosmo Alexandre, mas nunca competiu porque acha violento demais. Capoeira, admite, não levou jeito.
Gratidão aos Gracie e o que fica da conversa
O Nigue repete várias vezes que é grato à família Gracie, porque, segundo ele, sem a rivalidade com a luta livre e sem os Gracie não existiriam UFC nem Pride. Ele saiu de casa aos 17 anos, morou em alojamento e diz que criou os três filhos com o jiu-jitsu. Hoje dá aula para crianças especiais, mantém um projeto social nas palafitas de Santos e conta que tem mais faixa-preta matriculado do que faixa-branca.
“Eu conquistei tudo que eu conquistei com o jiu-jitsu. Criei meus filhos com o jiu-jitsu.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 1:10:24
Também defendeu quem, segundo ele, o Brasil esquece. Para o Nigue, Vitor Belfort e Wallid foram os caras que levaram o esporte nacional para o mundo, e é injusto lembrar só do lado polêmico deles. Na Alemanha, onde dá seminário há 12 ou 13 anos, ele diz que entrou para o hall da fama da luta local, coisa rara para um brasileiro.
O que fica, para mim, é a imagem de um faixa-coral que ainda se matricula como aluno. Ele contou que, depois de um mês parado, pagou mensalidade na academia de um professor que conheceu faixa-azul e ficou lá três ou quatro meses aprendendo, recusando dar aula. No recado final para o Brigadeiro, a provocação voltou: disse que vai tentar a chave de calcanhar, que o adversário não tem histórico de luta e que ele, Nigue, está pondo a carreira em jogo.
“Ora pelo Nigue, porque eu tô te dando uma luta profissional.”
Marcelo Nigue, no Pura Connection · 1:31:27
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.